
Profetas do Passado e bolsonaristas de armário (por Tânia Fusco)
O fundo do poço nunca é infinito. Dá sempre para achar chão firme, tomar impulso e subir de novo
07/10/2026 10:00

Irresistível. Nós, 200 milhões de brasileiros – sábios técnicos de futebol e imbatíveis marqueteiros políticos – não resistimos às análises perfeitas de causas que fizeram candidatos ou times de futebol tropeçarem em campo, nas urnas.
Faltaram votos ou gols porque os ditos-cujos nãoutilizaram as fórmulas mágicas em nosso exclusivo poder. Somos especialistas em “profetar” o passado.
Desde domingo à noite, despejamos nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp nosso palpitródomo sobre o que hidratou o Coisinho no primeiro turno de votação.
Moleza “revisar” o acontecido. É o jogo do se-fosse…
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNo dia seguinte, jogo jogado, o SE sai da peleja, não conserta mais nada. Talvez até tenha alguma serventia pro futuro. Vai que campanhas de um e outro abram a caixinha de perguntas pra que nossos teria-que-ser-assim sejam aproveitados na nova e decisiva votação. Vai que…
Aqui, no meu insignificante milionésimo espaço na caixinha de perguntas, docemente, indago: Por que soltamos o Lula raivoso e numa campanha sisuda? Por que retomamos o vermelho? Características ditas rejeitadas justamente pelos votantes que faltaram ao PT.
A vitória veio em todas as campanhas em que Lula e o PT privilegiaram a alegria, o pacífico branco. Desta vez, deixamos o tom relax pro adversário mentiroso. Ensinamos. Eles aprenderam. Nós esquecemos?
Emprestando da Anita: Pega o meu balanço, mas não se lambuza que eu nunca dei mole pra filha da pu…
Verdade que Lula, o PT, as esquerdas e uns bons milhões de democratas estão encarando a onda ultra conservadora mundial, acolá e aqui, azeitada pela costumeira Mídia tradicional, calhorda como sempre, além da montanha de dólares de Mister Trump e os seus. O Brasil, suas riquezas, sua postura na geopolítica mundial são pontos chaves pros do outro lado.
Momento difícil? É. Mas nunca foi fácil.
A gente avança aqui. Eles vêm babando de lá. Zero novidade. Sempre foi e será assim.
Pra celebrar. Erika Hilton (PSOL/SP), trans e travesti, foi a mulher mais votada na história da Câmara dos Deputados e a terceira entre os 50 federais mais votados. Na mesma lista, o pequeno PSOL somou 9 deputados. (Tem o tal do coeficiente eleitoral?)
Erika é autora do projeto que acaba com a draconiana escala de trabalho de 6X1 no Brasil.
Ana Elisa Santos (PT/MG), 21 anos, criadora de conteúdo, preta da periferia da Belo Horizonte, em sua primeira eleição, foi a segunda deputada federal mais votada de Minas Gerais. Está convocada para a campanha de agora.
Se há quem vota com o descompromisso de quem escolhe jurado para o Programa Raul Gil e elege exóticos como os deputados federais Delegado Caveira (PL-PA) ou Bolsonaro Shopee (Novo-MT), ou o perdedor Plinio Trump (Novo/MG), sósia do demônio americano, que só conseguiu 161 votos, há a resistente e digna Luísa Erundina, nordestina porreta, que, aos 91 anos, foi reeleita deputada Federal (PSOL/SP) para seu sétimo mandato. Antes foi vereadora, deputada estadual e prefeita de São Paulo.
Pra saber: Os muitos que votaram de preto, no domingo, seguiam um combinado. Eram bolsonarista de armário. Mais confortável, né?
A mediocridade convoca, atiça e fortalece a resistência. O fundo do poço nunca é infinito. Dá sempre para achar chão firme, tomar impulso e subir de novo. O jogo (da vida, inclusive) só acaba quando termina.
Bora!

