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Pessimismo nacional (por André Gustavo Stumpf)

Há um pessimismo desenvolvido na horizontal dentro da sociedade. Nelson Rodrigues enxergou no fenômeno o famoso complexo de vira-lata

Da Redação13/06/2026 10:03, atualizado 13/06/2026 10:38
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Ezra Shaw - FIFA/FIFA via Getty Images
Pessimismo nacional (por André Gustavo Stumpf)

O Velho do Restelo é personagem de Os Lusíadas, de Luís de Camões, obra maior da literatura portuguesa, publicada em 1572. Ele aparece quando a armada de Vasco da Gama parte para a Índia. Enquanto todos celebram a viagem, um velho, parado na praia do Restelo, em Lisboa, critica a expedição e alerta para os perigos, os sofrimentos e as mortes que ela poderá causar. O autor condena a busca da glória. O brasileiro herdou a maneira portuguesa de observar fatos. É um pessimista profissional. Coloca em dúvida o país em todas suas dimensões.

O início da Copa do Mundo concede oportunidade para o mau humor e a dúvida quanto a competência dos jogadores voltem à baila. Quase todos os dias o Velho do Restelo, interpretado como a voz da experiência, a oposição à novidade e ao progresso, aparece por inteiro na vida nacional. Há um pessimismo desenvolvido na horizontal dentro da sociedade. Nelson Rodrigues enxergou no fenômeno o famoso complexo de vira-lata, que faz o brasileiro se diminuir diante dos vizinhos e das dificuldades. Cada vitória no futebol, no vôlei, no tênis ou em qualquer outro esporte, é encarada como superação das tremendas dificuldades enfrentadas pelo sofrido povo nacional. É uma sofrência sem fim.

Assisti, de corpo presente, no Estádio de France, em 1998, em Paris, o jogo Brasil versus Escócia, primeiro da seleção nacional naquela Copa. Difícil. Vencemos por 2 a 1. Emoção pesada. Torcida vibrante dos escoceses, vestidos de saia kilt, que gritavam suas palavras de ordem. Eles também não gostam de perder. Mas a tensão de ver um jogo ao vivo, no estádio, é incrível. Vale o esforço para assistir uma partida. Pena que os preços das entradas estejam caríssimos nos Estados Unidos. Inacessíveis para a maioria dos mortais. O americano médio não gosta de futebol. As plateias são constituídas de migrantes, latinos, europeus ou asiáticos, que vivem naquele país. Na Copa do Mundo de clubes, os estádios ficaram vazios. Os organizadores foram obrigados a distribuir ingressos gratuitos para evitar que a televisão mostrasse grandes áreas sem público nos estádios.

O governo dos Estados Unidos armou uma arapuca para prender latinos e asiáticos durante o torneio. Serão, ou seriam, qualificados como migrantes indesejáveis. Eles já recusaram torcedores e jogadores. Até um juiz. Vexame. Esta ameaça já esvaziou os hotéis. Em Nova Iorque as reservas estão muito abaixo das previsões. No México e no Canadá os hotéis estão repletos. Mas, assistir os jogos pela televisão também conduz a um certo pessimismo. Os locutores são exagerados na sua narração. A gritaria é geral, sem qualquer explicação razoável. E os comentaristas são lamentáveis, salvo raras exceções que conhecem bem o esporte. Na maioria dos casos, eles não estudam o contexto em que estão trabalhando. Na Copa do Mundo da Rússia, alguns jogos foram realizados em Stalingrado, local da mais violenta batalha na Segunda Guerra Mundial. Ali se decidiu o destino do conflito e a posterior derrota dos nazistas. Um jornalista brasileiro falou dos jogos nas margens do rio Volga e não foi capaz de fazer qualquer referência ao local histórico em que ele estava pisando.

Não há compromisso com a verdade. Na final de 1998, em que o Brasil perdeu de 3 a 0 para a França, ocorreu o problema com Ronaldo Fenômeno. Na véspera da final, o jogador sofreu algo parecido com surto psicótico. Foi levado para exames em hospital e nada foi encontrado. Mas o Brasil começou o jogo com Edmundo no papel de centroavante. Ronaldo entrou no correr da partida. Até hoje ninguém explicou o ocorrido. O jornalismo esportivo brasileiro é opiniático. Cada um diz o que pensa, não há preocupação em buscar verdades. O fabuloso Garrincha, um dos melhores do mundo em todos os tempos, era alcoólatra. Gostava muito da branquinha. Morreu de tanto beber. Durante sua vida, jamais algum jornal tratou do assunto. Somente na sua biografia, de Ruy Castro, a doença apareceu por inteiro.

As histórias de futebol são escabrosas. Às vezes, realmente, é melhor não descer às suas verdades para não esbarrar em decepções fundamentais. Por esta razão, o brasileiro limita-se a torcer, sofrer, e tentar adiantar resultados. O time brasileiro deste ano não é dos melhores. Melhor, desta vez, é o técnico, várias vezes campeão nos principais torneios europeus. Conhece bem o esporte. E não é teimoso. Percebe a hora de mudar. É a tênue esperança nacional que a seleção brasileira jogue um futebol parecido com o do Real Madri, ao tempo em que era treinado por Ancelotti. Ele é italiano.

E na Itália, o futebol é visto com uma simples disputa. Não se pretende dar espetáculo, nem jogar bonito. Um a zero é goleada. Assim os italianos conseguiram seus títulos mundiais. Pode ser este o único caminho de eventual sucesso da seleção nacional. Ou seja, o sofrimento e o pessimismo estarão garantidos nos próximos trinta dias. O Velho do Restelo continua muito atual.