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Distrito da Confusão - 13 (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu pai, Odylo Costa, filho

Da Redação13/06/2026 11:25
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Distrito da Confusão – 13 (Crônicas de Odylo Costa, filho)
Crian

O juiz contra o menino (Última Hora – 22/12/1978)
[Aproxima-se o Natal e instaura-se uma onda de generosidade para lembrar que 1979 é o Ano Internacional da Criança.] Se no mundo todo a sorte das crianças é patética, nesta véspera do segundo milênio cristão, a das crianças brasileiras é nossa condição, nosso destino, nosso pão quotidiano, nossa obrigação maior. Essa linda palavra — obrigação — é a que o povo usa para perguntar pela família: “— Como vai a obrigação?” Incluem-se nela, numa concepção por assim dizer feudal da vida, todos os seres e teres, haveres e deveres do cuidado humano. Porque a cada um de nós Deus pôs nas mãos vidas alheias para zelar; e ai! daquele que, não as tendo, não as inventa.

Mais desgraçado, mil vezes mais desgraçado, quem não se limita a zelar mal por sua obrigação, mas pior ainda, mal a entende e mesmo a desama.

Uma amiga me enviou de Brasília um recorte onde figurava o duro exemplo de alguém assim. Era a fala de um Juiz de Menores que considerava inimigos da sociedade os menores abandonados, e imaginava-os marchando agressivos, feito um exército adversário e temível.

Nesta casa perdem-se muitas coisas, o que não é bom, mas também não chega a ser péssimo, dado que nunca se perdeu a vergonha. Perdem-se coisas, mas não tanto que resistam a uma das buscas sistematizadas e cansativas que se sucedem com involuntária e reclamante mobilização geral. Os filhos e netos resmungam, mas procuram — e acham. Ora, um recorte justamente havia de perder-se de vez, esse que, com as mãos tremendo de indignação, Maria Letícia me enviou, como se eu fosse responsável pela boa consciência dos juízes e pela guarda dos menores desamparados. Nem uma coisa nem outra, boa Maria Letícia, mas o que tenho a dar, isso dou, e é pouco: exercer o terrível direito de não calar.

Filho de juiz, honrado a sombra afetuosa e severa de meu Pai, não gostaria de reter o nome desse estranho colega do homem bom que me deu o ser e me ensinou que não se separa o sujeito do verbo por vírgula e não se mente nem pelo telefone, ambas lições aparentemente idealistas, mas profundamente pragmáticas. Foi bom que se perdesse de vez o recorte.

Mas isso me impede de fazer a análise dos argumentos com que o juiz alarmado se alertava e alertava os demais. Não sei se teria razão ao imaginar — e creio que era essa uma das suas conjecturas, “o que até imaginado faz horror” — que, invadido o Brasil por algum inimigo, os marginais que já foram menores e os menores que serão marginais formariam uma quinta coluna de ressentidos ferozes, uma vanguarda cruel a descer contra os bons.

Gostaria de ler melhor, mais serenamente. Quem sabe estaremos apenas diante de uma nobre consciência, atormentada e revoltada, a desabar em sátira? Um Swift brasileiro?

Quem sabe não nos surge agora em Brasília o maior escritor satírico da língua, sob capa de Juiz de Menores, a nos acordar a consciência — como Swift no século XVIII a consciência dos ingleses, ao propor que os meninos miseráveis da Irlanda fossem vendidos e comidos?

No tempo de Swift, divulgou-se aquela história do soldado que, antes da batalha de Blenheim, rezou: “Ó Deus, se Deus existe, salva minha alma, se é que existe alma.”

Ora, esse não é o caso de minha amiga Maria Letícia, nem o vosso, leitores meus (se é que tenho mais de um), nem o meu, nem ouso crer que o do Juiz de Menores que mal ama, entre os menores, os menores abandonados, que se transformarão, um dia, inelutavelmente, segundo seu susto temeroso, em menores (e maiores) delinquentes. No mês de dezembro, há outro Menor, recém-nascido, num berço. Ano após ano, por este tempo, ele floresce de novo no sonho dos homens. E sobre os homens se deita seu sonho, que não exclui da salvação e da paz nenhum ser humano, nem mesmo os menores abandonados.

Esse milagre, é o do próprio Menino, que renasce todos os anos. E não será o juiz a julgar os meninos, mas o Menino a nos julgar a todos, o que esperamos se faça segundo a sua Misericórdia, aos leitores (se é que tenho mais de um), à minha amiga Maria Letícia, a mim e a todos nós, inclusive ao Juiz de Meninos que os desama e teme — como se fossem abelhas selvagens incapazes de domesticar-se para o mel da vida em comum. Segundo a Misericórdia, amém, meu Juiz, amém, meu amado, meu abandonado Menino Jesus.

Odylo Costa, filho