Com CPF brasileiro, El Tigre já transportou cocaína de Santos à China
Documentos da DEA mostram que traficante espanhol se uniu ao PCC para coordenar o envio de remessas milionárias de cocaína ao exterior
atualizado
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O traficante espanhol Alejandro Salgado Vega, o El Tigre, um dos alvos da operação Narco Sky, deflagrada nessa terça-feira (2/6) pela Polícia Federal (PF), foi apontado nas investigações como um dos responsáveis por despachar dois carregamentos de cocaína, entre dezembro de 2020 e março de 2021, para a China. A droga saiu do Porto de Santos, no litoral sul de São Paulo, em um navio porta-contêineres, com destino a Hong Kong.
Documentos do DEA (departamento norte-americano de combate ao tráfico internacional) indicam que as duas cargas somadas estariam avaliadas em U$ 89,5 milhões, ou cerca de R$ 447 milhões, na cotação dessa terça-feira.
El Tigre, conforme relatórios do DEA e do Ministério da Justiça espanhol, é considerado o maior narcotraficante da Espanha, responsável pela coordenação de grandes remessas de droga para a Europa.
A PF descobriu ligações do narcotraficante espanhol e seus comparsas com um núcleo do Primeiro Comando da Capital (PCC) — juntos, eles teriam montado uma frota de veleiros e pequenas embarcações para transportar cocaína à Europa. As informações são do jornal El Mundo.
Entre os elos com o PCC está o empresário Marco Aurélio de Souza, o Lelinho, ligado à facção brasileira e preso em abril do ano passado no âmbito da operação Narco Vela. Lelinho é apontado como líder de um esquema que usava pequenas embarcações para transportar drogas até o outro lado do Oceano Atlântico.
Meia tonelada de cocaína em casco de navio
A relação comercial dos narcotraficantes mundiais e a maior facção criminosa do Brasil, conforme o noticioso espanhol, permitiu que o grupo conseguisse acoplar 425 quilos de cocaína no casco do MSC Desiree, um navio porta-contêiner sujeito à jurisdição dos Estados Unidos, com destino à China. A reportagem do jornal espanhol não especifica se as drogas foram apreendidas pela alfândega chinesa.
El Tigre e o comparsa sérvio Antum Mrdeza, também conhecido como Nikolas Boro, — ambos com documentos emitidos no Brasil, conforme apuração do Metrópoles — podem ter lucrado quase meio bilhão de reais com este carregamento, detalha estimativa feita pela agência norte-americana.
A pedido da PF, a Justiça brasileira decretou a prisão preventiva de El Tigre e Nikolas Boro. Ambos são considerados foragidos e estão inclusos na lista de difusão vermelha da Interpol.
Documentos brasileiros
O Metrópoles apurou que El Tigre emitiu um CPF no Brasil. A origem de emissão seria o estado do Pará. A reportagem também apurou que o narcotraficante espanhol registrou um endereço na Vila Regente Feijó, na região do Tatuapé, zona leste da capital paulista, como moradia.
A situação do sérvio Antum Mrdeza é semelhante, embora ele tenha mais endereços cadastrados em São Paulo.
Ligação com PCC
A operação Narco Vela apontou que Lelinho é um dos principais articuladores da exportação de cocaína do PCC à Europa por meio de veleiros e pequenas lanchas.
O traficante brasileiro foi apontado pela PF como líder do esquema de transporte de drogas. A partir de informações encontradas nos celulares dos alvos, a PF descobriu que ele e seus comparsas atuavam em conjunto com com vários traficantes internacionais. A comunicação ocorria por meio do aplicativo de mensagens criptografadas Sky ECC.
Segundo a PF, Lelinho seria o responsável pelo envio de 2 toneladas da droga à Espanha, em julho de 2022, além de uma série de outras operações. O crime foi descoberto pela Guarda Civil Espanhola na cidade de Aldea de San Nicolás.
A partir da quebra de sigilos telemáticos, foi possível identificar que o número usado na contratação da embarcação seria de uma empresa, a Jacksupply Assessoria de Bordo e Comércio Exterior. Segundo as investigações, a Jacksupply seria controlada por Lelinho por meio de um testa de ferro e teria como base operacional a Baixada Santista.
“Indícios robustos sugerem que o investigado, embora formalmente vinculado ao setor marítimo, utiliza-se dessa posição empresarial como meio de viabilizar e dissimular atividades ilícitas”, diz a Polícia Federal.
Alvos da Operação Narco Sky
- Antun Mrdeza (vulgo “Jhon Gotti” ou “Nikola Boro”): apontado como um meganarcotraficante internacional, integra o núcleo estrangeiro de financiamento e direção das remessas. Ele é proprietário de ativos logísticos (como o veleiro Mobydick) e de parte das cargas de cocaína, exigindo prestação de contas dos operadores locais, de acordo com a PF.
- Alejandro Salgado Vega (vulgo “Tigre”): narcotraficante espanhol de alta relevância, responsável pela coordenação de grandes remessas para a Europa. Atua como financiador e coproprietário das drogas, monitorando riscos de fiscalização e coordenando o resgate das cargas em território estrangeiro, de acordo com a PF.
- Marco Aurélio de Souza (vulgo “Lelinho” ou “Pirata”): é o líder e coordenador central no Brasil. Atua como elo entre os fornecedores estrangeiros e a estrutura local, gerenciando a guarda, movimentação e a inserção da droga em navios e outras embarcações nos portos brasileiros.
- Pedro Alonso Camacho Fernandez (vulgo “Vince”): atua como coordenador logístico transnacional e ponto focal no Brasil. Intermedeia a comunicação entre financiadores e executores, organiza o içamento da droga para os navios e planeja detalhadamente as operações de resgate da carga no mar europeu.
- Antônio Greg Ribeiro Pinheiro (vulgo “Fisherman”): operador logístico portuário especializado em atividades marítimas. Sua função principal é a fase crítica de inserção física da droga nas embarcações, cooptando tripulantes e coordenando o carregamento clandestino.
- Klaus de Castro Rios Motta e Silva: ocupa uma posição técnica qualificada, sendo responsável pela preparação e manutenção de embarcações (especialmente veleiros) utilizadas no tráfico transoceânico, garantindo a viabilidade técnica das travessias.
- Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra (vulgo “Sapão” ou “Sapo”): Atua no suporte operacional, cuidando da movimentação e custódia da droga em solo nacional e alertando o grupo sobre fiscalizações policiais.
- Walter Pires Junior (vulgo “Waltinho”): integrante da base operacional vinculado a Lelinho, executa tarefas de armazenamento, transporte interno e preparação do entorpecente para embarque.
- Ivan de Freitas Santos (vulgo “Ivan”): agente de execução que presta apoio logístico na preparação e transporte das cargas ilícitas destinadas à exportação.
- Rafael Gonçalves Sayão (vulgo “Cabelinho”): participante ativo no fluxo de comunicações criptografadas do grupo, exercendo funções de apoio operacional e transmissão de informações estratégicas.