PF vê elo entre PCC e traficante sérvio entre mais procurados do mundo
Segundo investigação, Lelinho mantinha contato com Antum Mrdeza, também conhecido como Nikolas Boro, e Alejandro Salgado Vega, o El Tigre
atualizado
Compartilhar notícia

Na representação que deu origem à operação Narco Sky, deflagrada nesta terça-feira (2/6), a Polícia Federal (PF) apontou a relação entre alguns dos traficantes mais procurados do mundo e um núcleo ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) especializado na exportação de cocaína para a Europa. De acordo com as investigações, o sérvio Antum Mrdeza, também conhecido como Nikolas Boro (foto de destaque), e Alejandro Salgado Vega, o El Tigre, mantinham contato com Marco Aurélio de Souza, o Lelinho.
O traficante brasileiro foi preso em abril do ano passado na operação Narco Vela, apontado como líder de um esquema que usava pequenas embarcações para transportar drogas até o outro lado do Oceano Atlântico. A partir de informações encontradas nos celulares dos alvos, a PF descobriu que ele e seus comparsas atuavam em conjunto com com vários traficantes internacionais. A comunicação ocorria por meio do aplicativo de mensagens criptografadas Sky ECC.
Segundo a PF, os diálogos encontrados indicam que os traficantes internacionais, que estão na lista vermelha da Interpol, faziam parte de um “núcleo estrangeiro” de financiamento das ações que seriam ligadas ao PCC.
“Não se está diante de mero fornecedor periférico ou de interlocutor ocasional. Ao contrário, os elementos constantes do procedimento evidenciam que Antum Mrdeza integrava o núcleo estrangeiro de financiamento, direção e articulação de remessas internacionais de cocaína, mantendo interlocução direta com Lelinho para viabilizar operações marítimas de grande porte a partir do litoral brasileiro”, afirma a Polícia Federal.
“A interlocução de Marco Aurélio de Souza não se dava com operadores secundários, mas com indivíduo que, segundo a própria investigação, se apresenta como ‘mega narcotraficante internacional'”, acrescenta a PF.
Para a equipe de investigação, Lelinho foi cooptado pelos traficantes internacionais pelo menos desde 2020. Em uma das ações de exportação de droga, ele ficou incumbido de inserir 500kg cocaína no navio Panorea, no Porto de Santos. A PF cita ainda outras quatro operações de envio de introdução de entorpecentes em embarcações que ocorreram desde então.
Modus operandi
Segundo a Polícia Federal, Lelinho e traficantes internacionais trocavam mensagens sobre a operação, combinavam a organização das cargas de droga e mudavam de aparelhos frequentemente para evitar qualquer rastreamento.
Após combinarem o envio, os investigados usavam aeronaves para o transporte interno da droga até o litoral, onde a carga era transferida para o modal marítimo. O grupo pagava tripulantes e marinheiros para executarem uma técnica de içamento e esconder a cocaína em contêineres refrigerados para efetuar o transporte.
Na prática, a droga era levada até navios mercantes ou veleiros e içada para bordo com a ajuda de cordas. Os tabletes de cocaína eram ocultos em compartimentos específicos, como o motor de sistemas de refrigeração, onde a droga podia chegar escondida e útil na hora do desembarque.
A organização também utilizava bolsas estanques, boias de sustentação, dispositivos de GPS e lanternas para sinalização noturna em alto-mar para monitorar a localização das cargas.
Veja os alvos da operação
- Antun Mrdeza (vulgo “Jhon Gotti” ou “Nikola Boro”): apontado como um meganarcotraficante internacional, integra o núcleo estrangeiro de financiamento e direção das remessas. Ele é proprietário de ativos logísticos (como o veleiro Mobydick) e de parte das cargas de cocaína, exigindo prestação de contas dos operadores locais, de acordo com a PF.
- Alejandro Salgado Vega (vulgo “Tigre”): narcotraficante espanhol de alta relevância, responsável pela coordenação de grandes remessas para a Europa. Atua como financiador e coproprietário das drogas, monitorando riscos de fiscalização e coordenando o resgate das cargas em território estrangeiro, de acordo com a PF.
- Marco Aurélio de Souza (vulgo “Lelinho” ou “Pirata”): é o líder e coordenador central no Brasil. Atua como elo entre os fornecedores estrangeiros e a estrutura local, gerenciando a guarda, movimentação e a inserção da droga em navios e outras embarcações nos portos brasileiros.
- Pedro Alonso Camacho Fernandez (vulgo “Vince”): atua como coordenador logístico transnacional e ponto focal no Brasil. Intermedeia a comunicação entre financiadores e executores, organiza o içamento da droga para os navios e planeja detalhadamente as operações de resgate da carga no mar europeu.
- Antônio Greg Ribeiro Pinheiro (vulgo “Fisherman”): operador logístico portuário especializado em atividades marítimas. Sua função principal é a fase crítica de inserção física da droga nas embarcações, cooptando tripulantes e coordenando o carregamento clandestino.
- Klaus de Castro Rios Motta e Silva: ocupa uma posição técnica qualificada, sendo responsável pela preparação e manutenção de embarcações (especialmente veleiros) utilizadas no tráfico transoceânico, garantindo a viabilidade técnica das travessias.
- Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra (vulgo “Sapão” ou “Sapo”): Atua no suporte operacional, cuidando da movimentação e custódia da droga em solo nacional e alertando o grupo sobre fiscalizações policiais.
- Walter Pires Junior (vulgo “Waltinho”): integrante da base operacional vinculado a Lelinho, executa tarefas de armazenamento, transporte interno e preparação do entorpecente para embarque.
- Ivan de Freitas Santos (vulgo “Ivan”): agente de execução que presta apoio logístico na preparação e transporte das cargas ilícitas destinadas à exportação.
- Rafael Gonçalves Sayão (vulgo “Cabelinho”): participante ativo no fluxo de comunicações criptografadas do grupo, exercendo funções de apoio operacional e transmissão de informações estratégicas.
Frota de Lelinho
A operação Narco Vela, deflagrada pela Polícia Federal em abril de 2025, apontou o empresário Marco Aurélio de Souza, o Lelinho, como um dos principais articuladores da exportação de cocaína do Primeiro Comando da Capital (PCC) à Europa por meio de veleiros e pequenas lanchas.
Segundo a PF, ele seria o responsável pelo envio de 2 toneladas da droga à Espanha, em julho de 2022, além de uma série de outras operações. O crime foi descoberto pela Guarda Civil Espanhola na cidade de Aldea de San Nicolás.
A partir da quebra de sigilos telemáticos, foi possível identificar um número usado na contratação da embarcação seria de uma empresa, a Jacksupply Assessoria de Bordo e Comércio Exterior, que, segundo as investigações, seria controlada por Lelinho por meio de um testa de ferro e teria como base operacional a Baixada Santista.
“Indícios robustos sugerem que o investigado, embora formalmente vinculado ao setor marítimo, utiliza-se dessa posição empresarial como meio de viabilizar e dissimular atividades ilícitas”, diz a Polícia Federal.
Lelinho teria montado uma frota de pequenas embarcações para operacionalizar o envio dos entorpecentes. De acordo com a Polícia Federal, o esquema de envio de cocaína ao exterior tinha início em pequenas lanchas, que transportavam a droga até veleiros em alto-mar, que faziam a travessia pelo Oceano Atlântico.