Orgulho no balcão: casas gay friendly fazem questão de contratar LGBTs

Funcionários de restaurantes, cafés e bares amigáveis à população LGBT contam como é trabalhar em um ambiente onde a tolerância é regra

atualizado 28/06/2019 13:31

Igo Estrela/Metrópoles

Se um cliente a tratar no masculino, Petra Moreira Cruz tem liberdade para corrigir o gênero. A mulher trans ocupa o cargo de garçonete no café Objeto Encontrado, na Asa Norte: por ali, até a La Marzocco (máquina de espresso) ostenta uma bandeira arco-íris. A casa não é bem um ponto de encontro da comunidade LGBT, mas a tônica inclusiva e militante atrai um público diversificado.

“É óbvio que nunca brigo com a pessoa, sempre falo tranquila, descontraída. Tenho a oportunidade de dizer que sou trans. Geralmente, o cliente pede desculpas, alguns ficam sem graça. Nunca aconteceram reações negativas, da pessoa insistir em me tratar no masculino, ou de parar de falar comigo. Eu percebo que em algumas situações eles ficam mais quietos, mas nunca rolou nada esquisito”, comenta a jovem, que cursa engenharia de redes na Universidade de Brasília (UnB).

SQN, 102. Foto: Igo Estrela/Metrópoles
Petra Moreira é garçonete no Objeto Encontrado: seu primeiro emprego fora do armário

Para ela, trabalhar em uma cafeteria localizada em uma região nobre de Brasília é, ao mesmo tempo, uma alegria e uma batalha: sente-se aliviada por ser tratada respeitosamente pelos colegas e entende que, ali, seu cargo é uma maneira de desconstruir noções sobre ser transexual.

“Chama atenção das pessoas, mas elas são amigáveis. Isso está começando agora, sei que a maior parte da população trans não está no mercado formal de trabalho. Minha presença no café, servindo mesas, me apresentando como trans, demonstra que esse é meu espaço. A gente está na sociedade e tem que se mostrar”, defende.

Fora do armário

O chileno Diego Guaita, por sua vez, garante que nunca escondeu ser homossexual. “No âmbito laboral, a orientação sexual é acessória, mas as pessoas precisam de espaço para serem elas mesmas. Essa liberdade de podermos contar quem nós somos é muito saudável. Minha criatividade aflora mais fácil se eu estiver à vontade, do contrário, não entregaria 100% do meu trabalho”, comenta o bartender, recentemente contratado como mixologista pelo Lah.

Topar fazer parte da equipe do pub, no entanto, não se deu pelo fato de ser um ponto de encontro da comunidade LGBT, ele garante. “Eu simplesmente me sinto mais confortável porque sei como são os vários tipos de cliente. Em bares frequentados por héteros, acontecem problemas, como brigas. Homens héteros ficam violentos quando bêbados, já vi um jogar garrafa no outro. Enquanto isso, os gays dão uns berros e vão embora”, brinca.

Eleita melhor bartender no festival Bar em Bar em 2017 e em 2018, Dayane Dias pediu ajuda ao antigo chefe para conquistar uma vaga de mixologista no La Rubia Café: ela queria trabalhar num ambiente onde a inclusão era a regra. “Tem lugar em que você precisa se esconder, tem pessoas que acham que como você faz sexo influencia no seu trabalho. Eu não tive problemas, embora tenha trabalhado em lugares que não eram voltados ao público LGBT. Quando soube da vaga no La Rubia, pedi indicação porque sabia que ali poderia ser eu mesma”, lembra a jovem.

Igo Estrela/Metrópoles
A bartender Dayane Dias procurou o La Rubia Café quando soube da vaga: queria trabalhar com o público LGBT

Dayane acredita que a experiência de trabalhar estando fora do armário é uma mudança da água para o vinho. “Não é porque eu sou lésbica que não sei fazer meu trabalho, são coisas diferentes. Quando eu me assumi, queria que as pessoas olhassem para o que eu faço, não para quem eu sou. Ninguém coloca orientação sexual no currículo. Mas também me senti mais acolhida quando saí do armário, me deu a confiança de dar a cara a tapa”, lembra a mixologista.

Um dos chefes de Dayane é o arquiteto Marcelo Galo, sócio do La Rubia. Ele conta que embora Brasília sempre tivesse espaços confortáveis para a população LGBT viver seus afetos com relativa tranquilidade, faltava um lugar que fugisse da lógica heteronormativa. “Queria montar um espaço que atendesse da Barbie à crossdresser. A política sempre foi essa: nunca presumimos a sexualidade e o gênero do cliente, ou que ele seja assumido. Usamos termos mais neutros até que a pessoa se apresente”, descreve o empresário.

Ficar dentro do armário é ruim porque você nunca fica à vontade. É como dizem na Bíblia, ‘conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará’. Sexualidade não é detalhe, mas o que me importa é a eficácia e a honestidade da pessoa com quem trabalho

Marcelo Galo, sócio do La Rubia

Mesmo com tanta inclusão na proposta, Marcelo conta que a porcentagem de clientela trans é ínfima perto dos outros perfis que o La Rubia recebe. “Não temos muito público transexual. Me pergunto onde está essa população?”, indaga. Petra, a garçonete do Objeto Encontrado, pode ter essa resposta: como vários estabelecimentos não estão preparados para receber essa comunidade, muitos não se sentem confortáveis em comer e beber fora de casa.

“As pessoas não sabem como nos tratar, tem um desconforto. Eu vejo isso acontecer, os rolês são bem internos. No Plano Piloto a coisa até funciona, mas no Entorno [e nas Regiões Administrativas], fica ainda pior. Falta capacitação de todo mundo, não só no setor gastronômico. As pessoas têm que aprender a se portar. Às vezes, elas te veem como algo que não tem definição certa, assumem uma opção ou outra e falam de qualquer jeito”, lamenta a estudante.

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Inclusão

Com inauguração prevista para esta sexta-feira (28/06/2019), data em que o mundo celebra os 50 anos de Stonewall, o marco inicial da construção dos direitos LGBT, o Rainbow Gastro Drinks terá equipe formada exclusivamente por gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. “Temos poucos espaços para ocupar na cidade. Além de oferecer um ambiente agradável e seguro, decidimos mostrar esse DNA LGBT na raiz do bar”, comenta o assessor de comunicação do empreendimento, Julio Cardia.

Depois do anúncio, a equipe recebeu mais de 700 currículos. “Muitos vieram com cartinhas contando histórias de preconceito, de gente que foi expulsa de casa, que não consegue trabalho. É uma realidade muito triste. Não vamos conseguir empregar todos, mas o Centro LGBT de Brasília vai tentar dar vazão aos perfis de quem não foi contratado para o Rainbow”, afirma Cardia.

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