Militância partida: grupos rompem e Brasília terá duas paradas LGBT

A capital terá duas celebrações do Orgulho LGBT, uma no dia 30 de junho e outra em 14 de julho. Ativistas divergem na pauta política

Giovanna Bembom/MetrópolesGiovanna Bembom/Metrópoles

atualizado 19/06/2019 12:16

A polarização política virou tema central dos debates no Brasil desde a campanha eleitoral de 2018. Nem mesmo a vitória do presidente Jair Bolsonaro (PSL), com 57,7 milhões de votos, foi capaz de acalmar os ânimos. Ao contrário, o debate segue dividindo diversos grupos: um deles é o movimento LGBTI, que, neste ano, promoverá duas paradas do Orgulho LGBT em Brasília.

No dia 30 de junho, pela primeira vez, a Associação da Parada do Orgulho LGBTQI+ de Brasília, organização composta por seis sócios, pretende levar seu lado da discussão às ruas da capital do país. “A gente espera ser uma opção para este público que se sentia esquecido pelos outros eventos”, afirma Bruno Rodriguez, um dos articuladores.

O outro grupo, Brasília Orgulho, há 21 anos promove a parada em Brasília. Ao longo dessas duas décadas, eles se uniram a diversos movimentos sociais e expandiram a agenda de lutas. “Sou, pessoalmente, um militante pela causa dos direitos humanos”, comenta Michel Platini, presidente da associação.

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A Brasília Orgulho organiza a parada há 21 anos e tem história de luta ao lado de movimentos sociais
Movimentos sociais

A ligação com os movimentos sociais é o principal ponto de divergência entre os dois grupos. Michel Platini, por exemplo, foi candidato pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas últimas eleições. Essa ligação com a esquerda e a agenda explicitamente contrária a Bolsonaro causa discordância entre os militantes dos dois lados.

“A ideia da nossa parada é ser menos politizada, queremos retirar da pauta a discussão sobre ser ou não oposição ao governo [de Jair Bolsonaro]. Precisamos de medidas que ajudem a população LGBTI agora. Somos empresários que acreditamos em outra forma de luta”, explica Julio Cardia, da assessoria de imprensa da Associação da Parada do Orgulho LGBTQI+ de Brasília.

A ideia é reforçada pelo líder do grupo. Empresário com boates e festas LGBTs e “convencionais” no currículo, Bruno Rodriguez acredita que apenas se opor ao governo não trará benefícios a gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. “Nossa pauta é trazer mais ações práticas do que discursos abertos”, argumenta.

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Polarização

Dentro do clima polarizado, um grupo acusa o outro de promover uma agenda excludente. Para os ativistas do 30 de junho, os outros colegas combatem os empresários que atuam no meio LGBT e querem seguir uma agenda exclusiva “de esquerda”. A acusação, porém, é rebatida por Platini.

Para o militante, o outro coletivo ignora que se manifestar contra Bolsonaro é se posicionar contra práticas consideradas “homofóbicas” – o presidente já fez declarações contrárias à militância LGBT, inclusive durante seus 28 anos como deputado federal.

Outra acusação refutada por Platini é de que a parada organizada por seu grupo seja focada somente em pautas da esquerda. “Brasília tem várias entidades LGBT, cada uma tem sua leitura da luta. No fundo, porém, queremos a mesma coisa. Dentro do nosso grupo, temos um companheiro, o Welton Trindade, que é de direita. Eu e ele divergimos nas ideias, mas temos consciência do nosso ideal de uma sociedade mais justa”, avalia.

Dentro da pauta específica LGBT, as associações discordam também quanto a quais lutas devem ser priorizadas. A Brasília Orgulho, por exemplo, entende a necessidade de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para retomar o julgamento da criminalização da homofobia. Já o outro grupo prega que o evento precisa ser um local com mais conforto e segurança aos frequentadores no momento de levantar bandeiras.

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Redes sociais

Na internet, campo no qual a polarização parece cada vez mais intensa, o debate segue de forma intensa. Na página do Facebook da Brasília Orgulho, apoiadores defendem a parada do dia 14 e criticam a outra iniciativa. Michel Platini, por exemplo, gravou um vídeo enumerando as diferenças.

Um dos internautas, por exemplo, coloca: “O resto [outro grupo] é artimanha de um ‘bolsominion’ querendo desarticular a parada de Brasília”. Apesar das críticas, Julio Cardia defende que a nova iniciativa tem recebido incentivo nas redes sociais. “O apoio é grande, há pessoas que não se sentem representadas pela militância atual”, opina.

A Associação da Parada do Orgulho LGBTQI+ de Brasília afirma que não está ligada ao atual governo, mesmo que alguns de seus membros tenham declarado publicamente apoio a Jair Bolsonaro. O grupo, inclusive, reforça que os integrantes não têm ligações político-partidárias.

Organização

O Metrópoles questionou a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) sobre a existência de duas paradas. O órgão confirmou o pedido das duas organizações e o policiamento na área.

“A partir das 14h de 30 de junho, está prevista a Parada LGBT de Brasília, com concentração no Eixão, na altura da 112 Sul. De acordo com o informado pelos organizadores, o evento ocorrerá até as 23h, com destino final a Praça do Museu da República. A Manifestação Parada do Orgulho LGBTS de Brasília, a partir das 10h de 14 de julho, segundo os organizadores, irão contornar o Eixo Monumental e descer até a Torre de TV, para finalizar o evento às 22h”, informa a SSP.

Michael Melo/Metrópoles

Rompimento

A disputa entre os dois grupos teve início na parada de 2018, realizada em 1º de julho daquele ano. Os representantes da Associação da Parada do Orgulho LGBTQI+ de Brasília colocaram um trio dentro do evento – representando a boate Capital Club, que já fechou as portas. A Brasília Orgulho argumenta que os empresários não deram a contrapartida necessária (15 seguranças e duas ambulâncias), e o fato iniciou uma discussão. “No dia, administramos os problemas e deixamos quieto. Depois, eles nos acusaram de não dar voz a eles. Não foi isso que aconteceu”, relembra Platini.

A Associação, porém, tem outra versão. “Tentamos realizar a conversa com a Brasília Orgulho. Tivemos uma reunião em conjunto na Secretaria de Segurança Pública na qual eles estavam exaltados e irredutíveis”, relata Bruno. Apesar das divergências, o empresário se diz aberto ao diálogo: “O objetivo do nosso evento é mostrar que podemos estar unidos mesmo não estando ‘juntos e shallow now’”.

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