Stonewall é importante para se refletir sobre o movimento LGBT

O ataque a boate marca o surgimento de um modelo de organização na luta por inclusão

Cris Faga/NurPhotoCris Faga/NurPhoto

atualizado 24/06/2019 14:03

Em 28 de junho de 1969, a polícia de Nova York fez, como de costume, uma batida no bar Stonewaal Inn. As autoridades, no entanto, não esperavam que o barril de pólvora estava prestes a explodir, gerando 6 dias de revolta violenta, responsável pela origem do movimento LGBT como conhecemos hoje. Nesta semana, mais precisamente na próxima sexta-feira (28/06/2019), completa-se 50 anos daquele fatídico dia.

A cidade de Nova York, e os Estados Unidos como um todo, tinha leis extremamente duras contra a homossexualidade. Era proibido homens se vestirem de mulher, bares venderem bebidas para homossexuais e, claro, a prática de sexo sodomita. Neste contexto, o bar Stonewall se torna ponto de encontro dessas pessoas excluídas legalmente. Seus proprietários pertenciam à máfia e pagavam propina a policiais corruptos.

Pela sua localização, Stonewall era frequentado sobretudo pela “casta gay” mais baixa da sociedade: negros, latinos, afeminados, travestis e prostitutos. Digo isso porque muitos filmes e séries sobre o tema são acusados de white washing, ou seja, um embranquecimento das suas figuras históricas e apagamento dos não brancos. Como a lendária Marsha P. Johnson, drag queen que teria atirado a primeira pedra contra o carro da polícia.

 

O final dos anos 1960 pegaram fogo nos EUA. É o período das manifestações pelos direitos civis. Sem sombra de dúvidas, uns inspiraram os outros. O movimento feminista e pelo direito dos negros deram mais força para os LGBTs irem às ruas denunciarem as opressões sofridas pelas mãos da polícia – esta representando a ponta da lança de um longo sistema de violências.

A forma como esses grupos se organizaram serviu de inspiração ao redor do mundo e despertou a consciência do quanto é importante se aglutinar para ter influência política e alcançar a mudança desejada. Porém, não é correto afirmar que só depois de Stonewall nasceu um movimento organizado LGBT. Não é verdade. Apenas surgiu um modelo de movimento.

Só este ano, a NYPD (departamento de polícia de Nova York) pediu perdão pelos seus procedimentos para com essa população e, por causa da revolta, 28 de junho tornou-se o Dia do Orgulho LGBT.

Aliás, a revolta de Stonewall Inn é uma ótima metáfora para quem quer tirar a expressão política das paradas gays – lembrando que a primeira aconteceu exatamente 1 ano depois a revolta e ainda hoje denunciamos que a sociedade nos mata. Esses pioneiros perceberam que nem só de festa a nossa luta deve ser feita, mesmo nossa alegria sendo nossa principal arma política!

História LGBT brasileira

Aproveitando o assunto, quem estiver interessado em conhecer a história LGBT no Brasil, pode ir a exposição Devassos no Paraíso: O Brasil Mostra Sua Cara, no Museu da Diversidade, que fica na Estação República do Metrô de São Paulo. A mostra segue em cartaz até 23 de setembro.

Um destaque dessa mostra é que ela conta com um gruia-robô com a personalidade de João Silvério Trevisan – escritor, historiador e curador da exposição baseada em seu livro. O chatbot também apresenta uma interface de voz, possibilitando a acessibilidade do conteúdo a deficientes visuais. A tecnologia desenvolvida pela Certsys Labs foi criada com base nesta persona real e ainda viva, com o objetivo de guiar o público durante a exposição, interagindo com os visitantes.

Divulgação

O projeto contou com a colaboração do Escritório Piloto da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e prevê que o chatbot irá se aperfeiçoar ao longo do tempo, baseado na interação do público – sendo capaz de dar respostas mais completas com o decorrer do tempo. Inclusive, o projeto desenvolvido foi de cunho social, sem cobrança e a equipe da Certsys envolvida na elaboração é toda LGBT.

SOBRE O AUTOR
Ítalo Damasceno

Formado em direito pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Escreveu sobre cultura em portais do Distrito Federal. É roteirista e já fez curso com o novelista Aguinaldo Silva. Recebeu o prêmio Beijo Livre de Direitos Humanos LGBT 2017 na categoria Mídia, pela coluna Vozes LGBT.

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