
Claudia MeirelesColunas

Dormir de boca aberta? Experts apontam os riscos do hábito noturno
Dois especialistas da área da saúde revelaram as principais consequências de dormir com a boca aberta para a saúde
atualizado
Compartilhar notícia

Nem toda “mania” é tão inofensiva quanto parece. Dormir de boca aberta, por exemplo, pode ser o jeito que o corpo encontra para sinalizar que algo não vai bem — especialmente quando o hábito se repete noite após noite.
Em entrevista à coluna Claudia Meireles, o médico Rafael Marchetti e o pós-PhD em neurociências Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues explicam como a respiração oral durante o sono pode ser, na verdade, um alarme biológico.
“Dormir de boca aberta costuma ser um sinal de que a pessoa não está conseguindo manter uma respiração nasal eficiente durante o sono. Em outras palavras: o corpo está ‘procurando’ uma via alternativa para respirar porque o nariz, por algum motivo, não está cumprindo bem sua função”, esclarece Rafael Marchetti.
O que leva os indíviduos a dormirem com a boca aberta?
Rafael Marchetti reforça que essa tentativa do corpo de compensar a entrada de oxigênio está ligada a algumas condições de saúde. “Isso pode acontecer em situações relativamente comuns, como rinite alérgica e congestão nasal crônica, mas também em alterações anatômicas, como desvio de septo ou aumento dos cornetos nasais”, explica.

De acordo com o especialista, o ponto importante é que a “mania” não deve ser vista apenas como um hábito ou uma peculiaridade do sono.
“Dormir de boca aberta pode ser a expressão visível de uma obstrução respiratória que fragmenta o sono, reduz a oxigenação noturna e altera a arquitetura fisiológica do descanso. Quando isso acontece de forma persistente, o organismo deixa de entrar adequadamente nas fases mais restauradoras do sono, e essa interrupção tem repercussões que vão muito além do desconforto ao acordar”, alerta.
Rafael reforça que essa disfunção merece atenção. “Dormir com a boca aberta pode revela desde uma doença nasal tratável até um distúrbio respiratório do sono com impacto cardiovascular e metabólico”, aponta.
Impacto diferente para cada faixa etária
Segundo o pós-PhD em neurociências Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, esse hábito representa riscos distintos em cada fase da vida. “Em crianças, as consequências podem incluir alterações no crescimento craniofacial, dificuldade na expansão do maxilar superior e desalinhamento da arcada dentária“, destaca.

Já os adultos, segundo Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, podem sofrer com a destruição do microbioma da boca e fadiga crônica.
Quando o hábito é observado em idosos, a preocupação é ainda maior. “Nesses casos, os indíviduos lidam com um impacto sistêmico fulminante. A queda na oxigenação agrava a fragilidade vascular e acelera a degeneração das funções analíticas do córtex pré-frontal”, alerta.
Saiba os principais riscos do hábito noturno
Fabiano destaca que o principal problema da respiração oral está na ausência das funções protetoras do nariz.
“O nariz filtra, aquece e umidifica o ar do ambiente. Quando se respira pela boca, a cavidade atua como um funil desprotegido e essas funções protetoras são perdidas”, salienta.

Embora a boca integre o sistema respiratório, a respiração oral favorece o aumento do risco de infecções. “O sistema imunológico pulmonar recebe uma carga direta de bactérias e patógenos infecciosos”, afirma.
Além disso, Rafael salienta que a respiração oral também “ataca” a umidade natural da boca. “A secura destrói a barreira química defensiva da saliva e instaura quadros de halitose agressiva e doença periodontal crônica”, emenda.
Consequências para o coração
Outro ponto de atenção são os impactos cardiovasculares. “Quando dormir de boca aberta está associado à apneia obstrutiva do sono, o impacto sobre o coração pode ser significativo. A condição provoca pausas respiratórias, queda de oxigênio e ativação constante do sistema de alerta do organismo”, explica Rafael Marchetti.
De acordo com ele, esse processo gera um “estresse noturno” repetido, que sobrecarrega o sistema cardiovascular ao longo do tempo.“O resultado é uma maior tendência à hipertensão, arritmias, doença coronariana, insuficiência cardíaca e até acidente vascular cerebral”, diz.

Prevenção e tratamento
Apesar dos riscos, os especialistas reforçam que, na maioria dos casos, há tratamento eficaz. “O primeiro passo é identificar a causa. Se o problema for rinite, congestão nasal ou alguma obstrução anatômica, o tratamento deve ser direcionado para isso”, explica Rafael.

Segundo ele, tratar a origem nasal pode transformar a qualidade do sono. Já em casos de apneia obstrutiva do sono, o tratamento varia de acordo com a gravidade.
Além disso, mudanças no estilo de vida fazem diferença. “Redução de peso, prática de atividade física, evitar álcool à noite e corrigir a posição ao dormir são medidas que ajudam muito. Em alguns casos, essas mudanças reduzem significativamente a gravidade da apneia”, conclui Rafael Marchetti.

Para saber mais, siga o perfil de Vida&Estilo no Instagram.
