Andreza Matais

Polícia diz que empresário da Saúde movimentou R$ 5,6 milhões com PCC

Empresa Mediplus diz que “não praticou nenhum ato ilícito”; Telles não se manifesta

atualizado

metropoles.com

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Donke e Telles (Reprod/Instagram/Lidecampinas/26.jun.2022)
Os empresários Luiz Donke e Thiago Telles participam de evento do Lide
1 de 1 Os empresários Luiz Donke e Thiago Telles participam de evento do Lide - Foto: Donke e Telles (Reprod/Instagram/Lidecampinas/26.jun.2022)

O conjunto de empresas que, segundo a Polícia Civil de São Paulo, eram controladas e operadas pelo empresário Thiago Telles movimentou R$ 5,68 milhões com intermediários do Primeiro Comando da Capital (PCC) entre 2023 e 2025. Havia um esquema para lavar dinheiro fruto de tráfico de drogas, jogos de azar e golpes, de acordo com relatório obtido pelo Metrópoles. A reportagem identificou que parte das empresas tem contratos com hospitais de Goiás.

Esse grupo de empresas pagou R$ 3,8 milhões aos operadores do PCC e recebeu R$ 1,8 milhão deles, de acordo com levantamento de comprovantes bancários feitos em telefones celulares apreendidos em uma das fases da operação “Falso Mercúrio”, de dezembro passado.

Para a Polícia Civil, os pagamentos de Telles serviam para que ele obtivesse dinheiro em espécie do PCC para utilizar em outras atividades. Para cada depósito nas contas dos intermediários, os criminosos devolveriam a mesma quantidade de dinheiro vivo a ele depois de descontarem uma taxa de 4% pela operação.

Telles sofreu busca e apreensão na “Falso mercúrio”, que teve desdobramentos na quinta-feira (28/5) com a operação “Falsa Las Vegas”.

O empresário Thiago Telles se apresenta nas redes sociais e no site da Lide como “sócio” e “diretor de novos negócios” da L2D Telemedicina e “presidente da Medplus”, o nome fantasia da Mediplus Serviços Médicos.

Para a polícia, porém, ele é um “operador” da segunda empresa e um dos “beneficiários finais” de um esquema de lavagem da facção criminosa. Ao lado de Luiz Fernando Donke, outro integrante do comitê gestor do Lide Campinas, Telles foi sócio da matriz da TL2 Soluções Médicas até agosto de 2024. No ano passado, duas filiais da empresa, que estavam em nome dele tiveram seu cadastro suspenso na Receita Federal.

Firma contratada por Goiás enviou R$ 2 milhões ao PCC

Em dezembro passado, Telles e a Mediplus foram alvo de busca e apreensão por ordem do juiz Paulo Fernando Deroma, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro de São Paulo. Em diálogos e planilhas obtidos pela 3ª Delegacia de Fraudes Financeiras e Econômicas da Polícia Civil, os criminosos se referem a Telles como “Tom Cruise”.

A Mediplus aparece tanto nos negócios com o governo de Goiás quanto com o PCC, de acordo com a polícia e os documentos obtidos pela coluna. A empresa presta serviços a hospitais do governo de Goiás administrados pelo Imed. Ela recebeu R$ 37 milhões entre 2020 e 2025 dessa maneira.

Enquanto isso, entre 2023 e 2024, a Mediplus pagou R$ 2,3 milhões aos intermediários do PCC segundo dados da Polícia Civil. E recebeu R$ 553 mil deles.

Empresa pagou em data coincidente

Uma outra empresa de saúde também presta serviços ao governo de Goiás aparece em comprovantes de pagamento trocados entre os intermediários do PCC, todos mencionados em relatório da Polícia Civil. Trata-se da Medic360 Serviços Médicos. A Polícia Civil mencionou os pagamentos a ela, mas não a relacionou a Telles ou a outro investigado. A Medic360 recebeu R$ 34 milhões do governo de Goiás por meio do Imed em 2025.

No mesmo dia 16 de abril de 2024, quando a Mediplus, operada por Telles, pagou R$ 361 mil aos intermediários, a Medic360 pagou outros R$ 426 mil a eles. A transferência bancária foi feita a uma empresa que vende carros, a Keycar ou “R. Braga Comércio de Veículos”, que teve R$ 1,4 milhão em operações atípicas suspeitas de acordo com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Ela e a “Braga Administração de Bens” servem como intermediárias do PCC, segundo a polícia.

Procuradas pelo Metrópoles, a Medic360 e a Mediplus não esclareceram o motivo dos pagamentos às empresas vinculadas à facção.

 

Telles, Donke e diretora estavam com Caiado no Lide

Telles e Donke estavam com o ex-governador Ronaldo Caiado em evento do Lide em 2024 e com a diretora do Imed, Maria Caroline Lazarini Dias. O governo goiano tem contratos com o Imed, que subcontratou empresas de Telles e Donke – que faziam parte da cúpula da instituição que escolheu o presidenciável para palestrar para os empresários

Em 2023, a L2D, então na propriedade formal de Telles e Fernando Donke, faturou R$ 53 milhões de acordo com anúncio pago na revista Lide, do ex-governador de São Paulo, João Dória. Em 2024, foram R$ 117,8 milhões, um aumento de 120%. “Para os próximos cinco anos, a expectativa é crescer 500%, avançando em áreas como telemedicina veterinária e aplicativos voltados à qualidade de vida”, continua o texto do anúncio da L2D, mencionando uma entrevista com Donke.

A TL2 e a L2D receberam R$ 171 milhões do governo de Goiás por meio de hospitais públicos administradas pelo Imed entre 2019 e 2026. Enquanto Telles fazia parte da sociedade das duas empresas formalmente, os pagamentos superaram os R$ 93 milhões.

Em 2022, duas empresas ligadas a Telles, a Mediplus e a TL2, disputaram a prestação de serviços numa UPA de Anápolis (GO) com uma empresa do médico Hilton Picelli – um dos pivôs do esquema da “planilha da propina” nas organizações sociais em Goiás. A TL2 venceu, mostra a defesa da organização social de saúde que administra a UPA em um processo trabalhista movido pelo Ministério Público.

Empresas negam irregularidades

A Mediplus, a Medic360 e a L2D Telemedicina negaram irregularidades. Ronaldo Caiado disse que sua relação com Caroline Lazarini era profissional e culpou o governo federal por não alertá-lo de possíveis crimes de fornecedores.

A empresa não praticou nenhum ato ilícito e pauta sua atuação seguindo rigorosamente os princípios legais vigentes”, afirmou a assessoria da Mediplus. A empresa disse não ter relação com Caiado e apenas relação “estritamente profissional” com a diretora do Imed, Caroline Lazarini.

A Medic360, citada pela polícia como uma das que pagaram ao grupo de intermediários do PCC, negou envolvimento em ilícitos. “A Medic360 esclarece que não integra qualquer investigação, não é alvo de apuração por órgãos de controle e não possui conhecimento sobre eventual envolvimento ilícito de empresas ou pessoas citadas no e-mail encaminhado à companhia”, rebateu a nota da assessoria (veja mais aqui).

A L2D Telemedicina disse que seus contratos seguem “critérios técnicos e legais” e afirmou desconhecer o conteúdo da investigação da polícia. “A L2D não praticou atos que comprometam sua atuação ou reputação profissional e que, portanto, nada tem a esclarecer sobre o exposto”, afirmou. “Tão logo assegurado o acesso ao conteúdo dos procedimentos, a defesa se manifestará pelos meios adequados.” A TL2 e Telles não prestaram esclarecimentos .

Intermediários do PCC movimentam dinheiro vivo

Segundo a Polícia Civil de São Paulo, os intermediários do PCC movimentam dinheiro vivo e escondem o fruto dos crimes com compras de veículos de luxo. Vários deles foram apreendidos em dezembro. “Basicamente, o alto giro de pecúnia (“dinheiro vivo”) entre os atores (pessoas físicas e jurídicas), sequenciado de transações financeiras e trocas/usufruto de bens de alto luxo (vg: veículos e
embarcações) apenas utiliza as empresas como verniz (“fachada”) para a lavagem”, afirma a representação em que a polícia pede buscas à Justiça, documento obtido pelo Metrópoles.

A Polícia Civil percebeu que outras empresas ligadas a Thiago Telles tinham contratos com órgãos públicos. “Suzupaper Com. de Papelaria, L&C Com de Papelaria e Mediplus, ambas vinculadas a THIAGO TELLES BATISTA DE SOUZA (…) essas sociedades participam de licitações públicas”, diz representação policial da 3ª Delegacia de Fraudes Financeiras e Econômicas.

A Secretaria de Saúde de Goiás disse à reportagem que encaminha várias suspeitas de irregularidades na administração terceirizada de seus hospitais às autoridades. Isso demonstraria “compromisso da atual gestão com a transparência, o fortalecimento dos mecanismos de controle e a política de tolerância zero contra qualquer indício de irregularidade ou mau uso do dinheiro público”.

Saiba mais:

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