Repressão no Recife teve ordem do alto (por Fernando Castilho)

Onde já se viu a PM formar linha de tiro de bomba, gás e bala de borracha sem que governador e vice fossem informados?

atualizado 01/06/2021 20:42

Reprodução

Aqui para nós e o povo da rua. Soldado não dá um tiro de bala de borracha, dispara uma bomba de gás lacrimogêneo ou aciona um jato de spray de pimenta sem um oficial dar a ordem.

Também nenhum batalhão desloca uma tropa de choque com equipamento de confronto sem que ao menos um major determine ao tenente que está no local da operação.

E nenhum major dá uma ordem de formação de linha com autorização de tiro sem que o coronel, a quem responda o batalhão, autorize. Isso tem consequência na hora da aposentadoria.

Portanto, a operação de sábado (29/5) pela manhã no centro do Recife foi consentida por pelo menos um coronel. Não existe hipótese de um tenente no meio da rua ter, por sua conta, decidido abrir fogo contra os manifestantes.

É verdade que Antonio de Pádua, Secretário de Defesa Social, ao qual a Polícia Militar responde, na hora do começo do confronto, pouco antes das 12h, estava com o executivo, Humberto Freire, e comandantes da Polícia Militar, no Centro Integrado de Comando e Controle Regional (CICCR).

Todos acompanhavam, em tempo real, as câmeras da secretaria. Às 12h31, quando várias cenas de violência policial eram postadas na internet e criticadas, Pádua, ainda no CICCR, concedia entrevista à TV Globo, mostrando imagens de câmeras da zona sul do Recife.

No mínimo, ele sabia que a tropa da PM estava perfilada próximo de onde falava. Se não chamou o feito à ordem, a cadeia de responsabilidade começa por ele e vai bater nos soldados que atiraram direto nas duas vítimas que ficaram parcialmente cegas.

Bala de borracha é arma não letal. Recomenda-se, contudo, que não se atire na cabeça de ninguém para evitar o risco de provocar um ferimento mais sério. Está nos protocolos.

Talvez aqui seja preciso admitir o “benefício da dúvida” e acreditar na palavra oficial do governo. Hoje, já se sabe que quem não estava acompanhando de perto a passeata era o governador Paulo Câmara (PSB) e sua vice Luciana Santos (PCdoB), o que não diminui a responsabilidade de ambos.

Onde já se viu, numa passeata em uma capital, a PM formar uma linha de tiro de bomba, gás e bala de borracha sem que os dois (governador e vice) estivessem informados? Estavam fazendo o que na manhã de sábado?

Mas, como se viu pelos vídeos dos acontecimentos, os dois estavam, literalmente, “voando” sobre o que ocorria. Os vídeos não os absolvem, incrimina-os diretamente porque passaram a ideia para os cidadãos que os dois principais executivos do Governo de Pernambuco não deram atenção a uma passeata que, como já se disse, não deveria ter acontecido conforme recomendação do Ministério Público.

E aí começa a série de equívocos nas declarações das chamadas autoridades. A PM “engatou uma ré” extraordinária dizendo em nota que quem deveria falar era o governador.

Ora, esse tipo de comportamento quer dizer o seguinte: que uma autoridade maior estava no comando do caso. A corporação apenas cumpriu ordens.

Quem conhece dois procedimentos de PM sabe que, quando o erro na cadeia de comando está na corporação, do soldado ao coronel, todos pagam a conta. Então, se a PM não fala, a operação era conhecida pelo “andar de cima”. O resto é explicação burocrática.

Com a divulgação das imagens, temos uma série de procedimentos que mostram claramente em uma cadeia de atos que a linha da ação da PM era de repressão.

Linha de atiradores? Formação em marcha com escudos? Segunda linha nas cabeceiras da ponte Duarte Coelho e apoio de dezenas de carros no suporte? Isso mostra que houve uma sucessiva cadeia de ordens. Nada aconteceu sem procedimentos estabelecidos.

O governador pode dizer que vai ajudar as vítimas; o secretário Pedro Eurico, da Justiça, jurar que não era intenção da polícia reprimir a passeata; e Pádua se justificar, mas a verdade é que, hoje, o Estado terá que arcar (com o dinheiro do contribuinte) de, ao menos, duas indenizações de lesões grave provocadas pelo Polícia Militar numa das mais agressivas ações já vistas em Pernambuco.

E aqui tem um fato que é preciso não esquecer. A PM do de Pernambuco age com protocolos e procedimentos, não improvisa. Isso é reconhecido pelas polícias de outros Estados, que mandam seus oficiais fazer cursos aqui.

Todo o mundo militar do Nordeste sabe disso. Aqui, tem manual escrito, rotina de procedimento detalhada e treinamento sobre esse tipo de ação. Não tem isso de um tenente ou sargento decidir no teatro de operações. O que só agrava a situação sobre o status de quem deu a ordem de atirar.

(Artigo transcrito do Jornal do Commercio; https://jc.ne10.uol.com.br/)

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