
O eleitor encurralado (por Hubert Alquéres)
O grupo que tende a decidir a próxima eleição presidencial é também aquele que hoje se sente menos representado pelo sistema político

Há um fenômeno novo nas eleições de 2026. Uma fatia expressiva do eleitorado — os independentes, que representam cerca de 32% do total — manifesta forte desejo de renovação, de superação da polarização e de surgimento de uma liderança capaz de oferecer uma alternativa aos dois polos que dominam a disputa nacional. Mas não encontra no mercado eleitoral uma candidatura que expresse essa expectativa. Sem alternativa, esses eleitores sentem-se encurralados pelos dois campos e desconfortáveis diante da perspectiva de escolher novamente o “menos pior”.
Duas pesquisas qualitativas realizadas recentemente pela Quaest ajudam a compreender esse fenômeno. Uma delas acompanha, desde agosto do ano passado, um mesmo grupo de vinte eleitores. A outra reuniu grupos focais em diferentes regiões do país. Os resultados apontam para uma conclusão semelhante: o desejo de renovação continua vivo, mas os eleitores não enxergam quem possa transformá-lo em realidade.
A coordenadora de pesquisa da Quaest, Luciana Andrade, resume o sentimento predominante: “Embora exista um forte desejo por renovação, o eleitor se sente encurralado por uma polarização que parece inevitável”. Segundo ela, há entre os independentes um clima de apreensão diante da ausência de uma liderança capaz de romper a lógica reinante. “O que eles dizem é: por mais que eu queira uma alternativa, não acho que ninguém hoje vai ter força suficiente para tirar Lula ou Flávio do segundo turno.”
A situação lembra um conceito conhecido da economia: o descompasso entre oferta e demanda. Existe uma demanda relevante por uma candidatura que represente renovação, moderação e pragmatismo. Mas a oferta política disponível não consegue atender essa expectativa.
Esse diagnóstico ajuda a explicar por que uma terceira candidatura continua enfrentando enormes dificuldades para se viabilizar. O problema não é apenas a falta de espaço político. Tampouco a inexistência de eleitores dispostos a apoiá-la. O desafio está na ausência de uma liderança que reúna simultaneamente conhecimento nacional, capacidade de mobilização, identidade própria e viabilidade eleitoral.
Diversos nomes tentam ocupar esse espaço, mas nenhum conseguiu até agora reunir esses atributos. O resultado é que a demanda por renovação permanece sem uma oferta política correspondente.
Mais importante ainda é compreender por que isso ocorre. A dificuldade não decorre apenas da ausência de lideranças. O próprio ambiente político passou a premiar identidades mais nítidas e eleitorados mais mobilizados. A polarização tornou-se um ativo eleitoral. Em um sistema político cada vez mais influenciado pelas redes sociais, pela comunicação instantânea e pela mobilização permanente das bases militantes, posições moderadas encontram maiores dificuldades para ganhar visibilidade e construir narrativas capazes de competir com discursos mais polarizadores.
Diante desse quadro, milhões de eleitores acabam ficando sem representação efetiva. Não porque sejam indiferentes à política, mas porque não encontram uma candidatura capaz de reunir suas expectativas. Surgem então duas reações possíveis. A primeira é o chamado voto defensivo: escolher o candidato considerado o “menos pior”. A segunda é a abstenção, manifestação silenciosa de desencanto com o processo político.
Esse comportamento ajuda a entender por que as disputas presidenciais recentes têm sido marcadas por elevadas taxas de rejeição. Muitos eleitores não votam por entusiasmo, mas por exclusão. Escolhem não o candidato que mais desejam, mas aquele que menos rejeitam.
O livro A Vida Antes do Voto – Reputação e Decisão Eleitoral no Brasil, do sociólogo Fábio Gomes, oferece elementos importantes para compreender esse fenômeno. Segundo o estudo, apenas 14,5% dos brasileiros afirmam priorizar o alinhamento ideológico na definição de seu voto. Em contraste, 56% declaram escolher candidatos por suas propostas e pelos resultados percebidos de sua atuação, independentemente da ideologia.
A pesquisa identifica fatores como emprego, estabilidade econômica, educação, saúde, segurança pública, infraestrutura, qualidade dos serviços e combate à corrupção como os principais elementos que influenciam a decisão eleitoral dos brasileiros.
A conclusão é significativa. O voto do brasileiro médio é muito menos ideológico do que frequentemente sugerem os debates políticos e as redes sociais. Estudo recente da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo indica que 69% da população não participa da chamada polarização afetiva. Para esse enorme contingente de brasileiros, a decisão eleitoral decorre muito mais da experiência cotidiana do que das grandes narrativas partidárias.
Essa constatação converge com as conclusões do cientista político Jairo Nicolau em seu livro O País Dividido. Segundo sua análise, os eleitores fortemente identificados ideologicamente, tanto à direita quanto à esquerda, representam uma parcela relativamente pequena do eleitorado.
O paradoxo brasileiro está justamente aí. Embora sejam minoria, os grupos mais mobilizados acabam dominando o debate público, influenciando a cobertura política, as redes sociais e as estratégias dos partidos. Com isso, impõem sua lógica de confronto a uma maioria de eleitores mais pragmáticos, moderados e preocupados com questões concretas da vida cotidiana.
A polarização, portanto, não reflete necessariamente a composição do eleitorado. Ela reflete a capacidade de mobilização de suas franjas mais engajadas.
É justamente por isso que o eleitor independente se tornou tão relevante. Em um cenário de relativa estabilidade dos núcleos lulista e bolsonarista, é esse grupo que tende a decidir eleições equilibradas e a definir o vencedor nos momentos decisivos da campanha. Não por acaso, foi o único segmento que apresentou movimentações significativas nas pesquisas mais recentes.
Como observou o colunista Renato Meirelles, as torcidas permanecem relativamente estáveis. O que continua em disputa é justamente o eleitor que não possui fidelidade permanente a nenhum dos campos.
Uma metáfora futebolística utilizada por Meirelles ajuda a ilustrar o momento atual. O eleitor que hoje se afasta de um dos polos não vestiu automaticamente a camisa de outro candidato. Apenas recuperou a bola no meio de campo. E recuperar a bola não significa marcar um gol.
A eleição de 2026 ainda está longe de estar definida. Muitas variáveis poderão alterar o cenário. Mas uma constatação já parece evidente: o grupo mais decisivo da próxima disputa presidencial pode ser justamente aquele que hoje se sente menos representado.
Enquanto a polarização continua ocupando o centro do palco, milhões de brasileiros seguem procurando uma alternativa que ainda não apareceu.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.
