
O regresso da vanguarda (por Miguel Esteves Cardoso)
A IA pode ser o futuro, mas é constituída pelo passado. É uma regurgitação do que já foi dito. Mas uma regurgitação cada vez mais bem feita

Os programas de IA para detectar quais são os textos – e partes de texto – que são escritos com IA ainda são muito caros. Os que há por aí não são de fiar, já que se fartam de dar falsos positivos.
Estes falsos positivos, note-se, beneficiam a própria IA. Se consideram IA um texto original escrito por um só ser humano a partir do zero, quem é que fica bem vista? A IA, claro.
Quando eu peço à IA para me escrever uma crónica, uso o resultado para me precaver. Fujo a sete pés do que encontro. A IA é o meu passado a perseguir-me. E eu não posso deixar-me apanhar. Sou forçado a ser o fugitivo. A IA pode ser o futuro, mas é inteiramente constituída pelo passado. É uma regurgitação do que já foi dito. Mas é uma regurgitação cada vez mais bem feita.
O problema é que nós, os seres humanos, temos uma tendência 100% natural de nos regurgitarmos a nós próprios. Há milénios que já somos a nossa própria IA, repetindo e canibalizando as nossas gracinhas populares, para dar ao povo o que quer. E o povo, já se sabe, é como as criancinhas antes de adormecer: quer sempre ouvir as mesmas histórias.
Se os seres humanos fossem sempre originais – se pensassem coisas que não pensaram antes, e as escrevessem de uma maneira diferente –, a IA seria sempre muito pouco convincente. Seria um fracasso.
A IA triunfa onde aquilo que copia já era escrito por copiões: os textos burocráticos, sejam eles estritamente burocráticos ou de aplicação legal, académica, jornalística ou literária. O que pode ser escrito a metro por um ser humano, copiado de cópias anteriores que também a metro foram escritas, pode – nada sensacionalmente – ser escrito a metro pela IA.
A música grátis não matou os espectáculos e a escrita IA não matará a escrita original. Pelo contrário: a excelência do artificial ajudará a dar valor à falibilidade e à frescura do genuíno.
O que pode ser copiado pode ter muito valor, mas nada tem tanto valor como o que nunca existiu antes.
(Transcrito do PÚBLICO)
