
O Brasil virou um cassino? (por Roberto Caminha Filho)
O dinheiro sai do mercadinho, cresce e voa no “rolentrando” ...

O brasileirinho sempre gostou de uma fé-zinha. Está na nossa cultura, impulsionada pela Família Real através do salvador “Jogo do Bicho”. Adoramos apostar no futebol, no carnaval, no namoro que começou no pagodinho e até na próxima cartada do “Trúmpi”, como fala o nosso presidente.
O problema começa quando o Brasil inteiro passa a viver dentro de um cassino como os de Las Vegas, aberto 24 horas por dia, com o Governo servindo dívida, em ficha de Vale Desgraça, para uma outra geração pagar.
Atualmente, o celular dos brasileirinhos virou uma mistura de Caixa Econômica, Igreja da Desesperança e caça-níquel. Você abre a tela para pagar um boleto e aparece um croupier sorridente prometendo que, com apenas cinco reais, você vai mudar de vida.
É a chegada do amigo “tigrinho”, da roleta, da raspadinha digital, do foguete que sobe, do aviãozinho que cai e de uma fauna inteira de bichos eletrônicos, famintos pelo Bolsa Miséria, que entra e só exige que você não trabalhe de “Carteira” assinada.
O japonês da esquina, o Hirano, vestido de Rubro-Negro e cansado de trabalhar 15 horas por dia, vendendo seus tomates e folhas, sentiu que o Flamengo perderia para o Palmeiras. O rasgado não titubeou, jogou 1000 pratas no Palmeiras. O Carrascal entendeu, operou o nariz do Alan e o Japa ganhou 5000 pilas. Até nisso o Brasil perde. E o Mengão também. Essa eu presenciei e me inspirei.
O mais espetacular dessa tragédia é que o Brasil conseguiu fazer algo inédito: transformou o desespero político em modelo de negócio. Deveríamos pedir para o Vorcaro, que já inventou tanto, pensar em uma aposentadoria assistida para os recebedores do Bolsa Tragédia.
Antigamente, o brasileirinho estudava para melhorar de vida. Hoje, uma parte da juventude acredita mais no seu método de apostar do que no estressante diploma. O garoto que aprendia inglês está estudando “estratégia” para liquidar o covarde Cassino. E o pior: ninguém percebe que, no fundo, não está jogando para ficar rico. Está jogando para tentar respirar.
O brasileirinho, aquele Super Homem que já não conseguia poupar, agora, faz fé-zinha…e perde. Os tigrinhos estão, a cada dia, mais fortes.
Na economia real, a coisa vai ficando parecida com churrasquinho de gato: sobra fumaça, gordura e alguém perguntando quem levou a picanha, o chopp e a abóbora. Pequenos comerciantes reclamam que o dinheiro sumiu da praça. Nas bancas do Mercadão, não existe mais troco para R$5,00.
O dinheiro sai do mercadinho, cresce e voa no “rolentrando”. Sai da livraria e entra no “pix dourado e premiado”. Sai do restaurante e entra no “aposte já”. O brasileirinho troca produtividade pelas fortes emoções. E fica mais liso a cada dia.
Somos um grande cassino incentivado. O cidadão aposta no aplicativo. O governo aposta no crescimento milagroso. O mercado aposta que as contas fecham. E o brasileirinho aposta que o boleto se perca antes do salário acabar.
O grande Roberto Campos dizia que “a inflação aleija, mas o câmbio mata”. Se estivesse vivo, talvez acrescentasse: “e a ilusão econômica hipnotiza”.
O meu professor de Economia Brasileira, o Senador Jefferson Peres, com sua reconhecida seriedade amazônica, talvez resumisse tudo numa frase seca: “uma sociedade desesperada vira presa fácil da fantasia”.
Japão, Coréia, Malásia, Tailândia, enriquecem, investindo em educação e produzindo tecnologia, ciência, aumentando eficiência e formando pessoas educadas e mão de obra qualificada. Já sociedades cansadas, universidades idiotizadas e colégios indisciplinados, costumam buscar atalhos emocionais: loterias, populismo, pagamentos à mídia, crédito fácil e promessas de felicidade no Enter e no click.
Os nossos cassinos adoram clientes esperançosos, principalmente os desesperados. E o brasileirinho anda bastante desesperadinho.
A inflação come, pelas beiradas, silenciosamente, no prato dos brasileirinhos. O crédito virou armadilha decorada com juros sorridentes. O aluguel sobe como foguete de São João. Os comércios tradicionais dos centros, fecham. O café virou artigo de luxo. O ovo já é filé mignon. Enquanto isso, alguém fantasia os números do IBGE.
Porque a verdade é simples: o brasileirinho não usa o aplicativo de apostas acreditando em matemática. Usa esperando o milagre. As nossas miraculosas igrejas e seus pastores já sentem o murro no fígado, no queixo e nos bolsos.
E enquanto a roleta gira, o brasileirinho continua apostando não para ficar milionário, apenas para sobreviver ao próximo mês sem perder a dignidade e o Bolsa Tragédia. O Céu só exige a virgindade da Carteira Profissional.
Roberto Caminha Filho, economista, querendo saber o motivo, continua jogando na Megasena, mesmo sem acreditar nela.
