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O que é preciso para um outsider nascer? (por Leonardo Barreto)

O pano de fundo para a emergência de um presidente outsider é alguma crise sentida de forma profunda, mas que nem sempre é econômica

15/06/2026 09:34
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Tomas Cuesta/Getty Images
Presidente da Argentina Milei

Os principais candidatos à presidência possuem rejeição maior do que 50% e, segundo pesquisa feita pela Quaest em 2025, 54% dos brasileiros não são nem de esquerda nem de direita.

Olhando para esses dados é possível dizer que, em tese, há espaço para um outsider. A rejeição dos principais candidatos e o não alinhamento da maioria das pessoas são, no entanto, condições suficientes para uma surpresa em outubro? Se sim, quando um outsider com chances se torna uma opção visível?

Análises de eleições na América Latina nos últimos 30 anos listam cinco casos típicos de outsiders eleitos: Javier Milei (Argentina, 2023); Nayib Bukele (El Salvador, 2019); Hugo Chavez (Venezuela, 1998); Rafael Correa (Equador, 2006); Jimmy Morales (Guatemala, 2015); Alberto Fujimori (Peru, 1990).

O pano de fundo para a emergência de um presidente outsider é alguma crise sentida de forma profunda, mas que não é necessariamente econômica.

No caso do Peru, da Argentina e da Venezuela, o componente econômico foi apontado como fator decisivo. Nos dois primeiros países, havia uma inflação de 7.000% e 140% ao ano, respectivamente. A situação da Venezuela ocorreu em razão de uma queda do preço do barril de petróleo de mais de 50% comprometeu o PIB do país e acentuou a condição de pobreza.

Com Bukele em El Salvador, a crise foi de segurança pública. A economia crescia de forma modesta e era estável. O país, no entanto, estava completamente refém das gangues (maras), ostentando uma das maiores taxas de homicídio do mundo, maior do que 100 para cada 100 mil habitantes, índice pelo menos 5 vezes maior do que o do Brasil (20,8). A população topou romper o bipartidarismo em troca de uma promessa radical de ordem e segurança.

Nos casos do Equador e da Guatemala o outsider em um contexto de crise institucional (a economia estava crescendo em ambos os países). O Equador teve 7 presidentes em apenas 10 anos, com sucessivas quedas e deposições pelo Congresso. Correa venceu canalizando a insatisfação contra a classe política.

Na Guatemala, o sistema político foi abalado pelo escândalo “La Línea” (uma rede de fraude aduaneira) e protestos massivos forçaram a renúncia e a prisão do presidente e da vice-presidente em pleno ano eleitoral. Morales, um comediante de TV sem histórico político, venceu em poucos dias se valendo da indignação moral.

A segunda pergunta é: havendo crise, quando fica claro para os observadores a disposição das pessoas de darem um “salto no escuro”?

Não há um padrão. Bukele passou a liderar as pesquisas 180 dias antes das eleições. Chavez também liderou todo o processo eleitoral. Milei estava em terceiro lugar até vencer as primárias. A partir daí, liderou as pesquisas por 70 dias até o pleito.

Morales se tornou líder das pesquisas a 5 dias da eleição e Corrêa ultrapassou concorrentes tradicionais de esquerda e de direita faltando 20 dias para o pleito.

O caso mais surpreendente foi o de Fujimori que tinha apenas 9% das intenções de voto até 15 dias antes das eleições. Ele chegou ao segundo lugar com 25% faltando dois dias para o segundo turno e derrotou o mundialmente conhecido escrito Mario Vargas Llosa com 62% dos votos no segundo turno.

Possíveis conclusões dessa leitura são de que é preciso haver algum tipo de crise profunda (não necessariamente econômica) que leve os eleitores a rejeitarem fortemente as opções tradicionais e tomarem risco para apostar em uma alternativa desconhecida. O timing de decisão pelo outsider não obedece a uma regra, podendo ele já ser uma figura conhecida do mundo político (Chavez, Milei e Bukele) ou alguém totalmente fora da política (Morales, Corrêa e Fujimori).