O Agente Laranja dá uma força a Lula (por Mary Zaidan)

Suspensão do visto de trumpista e proposta de exportar presos para o Brasil abrem chances para Lula recuperar o mote pró-soberania

atualizado

Compartilhar notícia

Revayat-e Fath / Divulgação
Imagem colorida, Irã usa animação estilo Lego para atacar EUA e Israel em propaganda - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida, Irã usa animação estilo Lego para atacar EUA e Israel em propaganda - Metrópoles - Foto: Revayat-e Fath / Divulgação

Na sexta-feira 13, o Itamaraty rejeitou todas as contrapropostas dos Estados Unidos às sugestões feitas pelo Brasil para ações colaborativas no combate às facções criminosas. No mesmo dia, o conselheiro de Donald Trump, Darren Beattie, que omitiu e mentiu sobre os motivos de sua visita ao Brasil, teve seu visto suspenso. Ainda que a série de nãos brasileiros arrisque a “química” entre Trump e Lula, ela pode provocar uma onda favorável ao petista em meio ao baixo-astral dos últimos tempos.

Trump serviu muito à Lula no ano passado. Ao entrar no jogo do ex-deputado e auto-refugiado Eduardo Bolsonaro, determinando punições descabidas em nome da “liberdade” do ex – tarifas estratosféricas, cassação de vistos e aplicação da Lei Magnitsky a autoridades do país -, Trump deu ao presidente brasileiro, de bandeja, o mote da defesa da soberania nacional. Lula surfou.

Em setembro, Trump já declarava amor a Lula, reiterado no encontro presencial de outubro, na Malásia. Por várias vezes repetiu que Lula era “um cara legal” e que sairia “muita coisa boa” da parceria de ambos. O tratamento vip foi descrito por analistas de toda parte do mundo como consequência de Lula não ter abaixado a cabeça, mesmo sob pressão. Trump não respeitaria os fracos. Lula surfou de novo.

Uma visita formal à Casa Branca foi anunciada para março – e até agora, nada. O Brasil mandou propostas para trabalho conjunto contra facções criminosas, entre elas o rastreamento de dinheiro ilícito de facções. Os Estados Unidos nada disseram. E Trump foi à guerra. Primeiro na Venezuela, agora no Irã. O repúdio do governo brasileiro às incursões não provocou qualquer reação no mandatário norte-americano.

Lula perdeu espaço na agenda trumpista e, internamente, pontos na preferência do público.

De repente, os Estados Unidos de Trump ofertaram a Lula não apenas um, mas vários presentes. Primeiro, uma contraproposta absurda de o Brasil receber em suas prisões imigrantes capturados, tal como ocorre em El Salvador. Indecorosa e ilegal, a ideia foi rechaçada de imediato pelos negociadores brasileiros. Destino idêntico tiveram as sugestões de compartilhamento de dados de estrangeiros refugiados no Brasil e de se criar, sob controle de Trump, um plano para acabar com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

A cereja do bolo foi Darren Beattie, um dos conselheiros mais à direita de Trump. Sua vinda ao Brasil estava prevista para o dia 18. Ele pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, na Papudinha. Os advogados do ex chegaram a pedir autorização para o encontro, concedido e depois negado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Ao Itamaraty, Beattie omitiu suas intenções. Disse que estaria no seminário sobre minerais críticos patrocinado pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil, que acontecerá em São Paulo nesta semana. Mas a Amcham desconhecia a participação dele no evento. Teve seu visto suspenso pelo Itamaraty.

A proibição foi anunciada de forma veemente por Lula  – “eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que está bloqueado”.

Na coxia do presidente, o pessoal espera (e torce para) que Trump reaja contra a cassação do visto e, assim, Lula possa reavivar o comportamento anti-Brasil e o lambe-botismo da turma de Bolsonaro a Trump. Afinal, será no mínimo desconfortável – e eleitoralmente terrível – defender o visto para um assessor americano enquanto autoridades brasileiras continuam impedidas de entrar nos Estados Unidos. Reciprocidade que pode valer ouro para Lula.

Na mesma toada, é indefensável a acolhida pelo Brasil de estrangeiros presos nos Estados Unidos, proposta que só evidencia a visão trumpista de que o país é quintal da “grande América”, onde ela deposita trastes que a incomodam. Mais uma que vai para conta do adversário Flávio Bolsonaro, que, assim como o resto do clã, vangloria Trump e conta com o seu apoio.

A posição pró-Trump pode custar caro ao Zero Um. De  acordo com pesquisa Genial/Quaest, a rejeição do brasileiro a Trump só aumenta. Em 2023, a opinião favorável ao norte-americano batia em 56%. Hoje, está em 25%. Lula comemora.

Há chance de nada acontecer. De Trump deixar para lá e nada dizer ou fazer sobre as negativas brasileiras. Mas a trupe lulista se animou com a sexta-feira 13. Como tudo anda mesmo pelo avesso, Trump, o Agente Laranja que por onde passa tudo destrói, pode, mais uma vez, ser útil a Lula.

 

Mary Zaidan é jornalista 

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?