Parou o Ozempic e engordou tudo de volta? Nutri explica o que acontece
Juliana Andrade, nutricionista do Metrópoles, explica como o corpo reage com o fim do uso da medicação

“Parei com o Ozempic e engordei tudo de novo!” Quem usou semaglutida ou tirzepatida e parou sabe do que se trata essa afirmação: a fome que havia sumido volta com uma intensidade que parece desproporcional, o peso que levou meses para sair retorna em semanas, e a sensação que fica é de ter perdido tempo, dinheiro e paciência para acabar no mesmo lugar.

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Ver todasEsse fenômeno tem nome, efeito rebote, e está longe de ser invenção ou exagero. Está documentado em ensaios clínicos sérios, que acompanharam milhares de pacientes com obesidade durante e após o uso da semaglutida. Os dados mostram que, após a interrupção do medicamento, boa parte dos participantes recuperou mais da metade do peso perdido ao longo de cerca de um ano. Em alguns casos, o reganho foi ainda maior.
Entender por que isso acontece é o primeiro passo para lidar com isso de forma mais inteligente.
O que a canetinha fazia que o corpo para de fazer sozinho
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Vida & EstiloA semaglutida e a tirzepatida não funcionam apenas cortando a fome de forma superficial. Elas agem no sistema nervoso central imitando um hormônio chamado GLP-1, que sinaliza saciedade para o cérebro, retarda o esvaziamento do estômago e influencia a liberação de insulina. Na prática, a pessoa come menos porque o corpo recebe sinais contínuos de que já está satisfeito.
Quando o medicamento é interrompido, esses sinais somem. O corpo não passa a produzir mais GLP-1 por conta própria para compensar. Ele simplesmente volta ao padrão anterior, como se o período de uso tivesse sido um parêntese no funcionamento do metabolismo. A fome que estava suprimida reaparece, e muitas vezes vem acompanhada de uma vontade intensa por exatamente os alimentos mais calóricos: açúcar, gordura, carboidrato refinado.
Isso não é fraqueza. São circuitos neurológicos e hormonais voltando ao estado em que estavam antes, sem o amortecedor que o medicamento fornecia.
O músculo perdido complica ainda mais a conta
Aqui entra um problema que agrava o rebote e que muita gente não conecta à situação. As canetinhas reduzem o apetite de forma tão significativa que a pessoa come menos de tudo, inclusive proteína. Quando a ingestão de proteína é insuficiente durante o tratamento, o corpo perde não só gordura, mas também massa muscular.
E músculo importa muito para o metabolismo. Quanto menos músculo, menos calorias o corpo gasta em repouso. Isso significa que, ao parar o medicamento, a pessoa enfrenta uma fome maior do que antes, com um metabolismo que ficou mais lento do que estava. É a combinação mais desfavorável possível para manter o peso.
Como sair do medicamento de forma menos abrupta
Uma das estratégias que tem mostrado mais resultado é a redução gradual da dose, em vez de parar de uma vez. A semaglutida leva entre quatro e cinco semanas para sair completamente do organismo após a última aplicação. Quando a saída é abrupta, o choque de fome é mais intenso. Quando é feita em doses menores ao longo do tempo, o cérebro tem mais espaço para se reajustar sem o colapso repentino dos sinais de saciedade.
Essa decisão precisa ser tomada com o médico que acompanha o tratamento, mas é um caminho que pode fazer diferença real na transição.

O que ajuda a segurar o peso depois
Não existe fórmula que elimine completamente o risco de reganho após parar as canetinhas. Mas algumas estratégias reduzem significativamente esse risco:
- Proteína em todas as refeições é a medida mais concreta e mais subestimada. Ela ajuda a preservar a massa muscular, tem alto poder de saciedade e estabiliza os níveis de açúcar no sangue, o que reduz os picos de fome ao longo do dia.
- Treino de força durante e depois do uso do medicamento é o que sustenta o metabolismo. Músculo construído durante o tratamento continua queimando calorias depois que o medicamento sai. Quem usou as canetinhas sem se exercitar pode ter chegado ao peso desejado com um corpo mais frágil do que o de partida.
- Cortar ultraprocessados é o ajuste que mais impacta o comportamento alimentar no longo prazo. São esses produtos que mais ativam o desejo de comer além da necessidade, especialmente quando o medicamento não está mais fazendo esse trabalho.
- Evitar ficar muitas horas sem comer ajuda a não chegar às refeições com uma fome que derruba qualquer intenção de escolha mais cuidadosa.
O recado mais honesto sobre as canetinhas
As canetinhas funcionam. Mas funcionam como uma janela de oportunidade, não como uma solução permanente por si mesmas. Quem usa esse período para construir hábitos alimentares mais sólidos, preservar ou ganhar músculo e reduzir a dependência de ultraprocessados chega ao momento da parada em condições muito melhores de sustentar o resultado.
Quem usa o medicamento apenas para ver o número na balança cair, sem tratar os hábitos que fizeram o peso chegar onde chegou, tende a encontrar tudo de volta, mais ou menos no mesmo prazo em que levou para perder.
No final das contas, as canetas exigem preparo até mesmo para interromper o uso delas.























