Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Andreza Matais

Lindbergh manda emendas para MST do Paraná, base eleitoral de Gleisi

Lindbergh Farias namora a ministra Gleisi Hoffmann. Paraná é o estado que mais recebeu emendas dele no PAA. Petista nega favorecimento

17/07/2026 04:00, atualizado 17/07/2026 18:54

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) destinou R$ 1,7 milhão em emendas parlamentares que foram parar em três cooperativas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Paraná. As entidades beneficiadas integram a base eleitoral da namorada dele, Gleisi Hoffmann, também deputada e ex-ministra das Relações Institucionais.

O montante de R$ 1,7 milhão destinado por Lindbergh foi executado no ano passado, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

O valor enviado ao Paraná é 2,5 vezes maior do que o montante destinado por Lindbergh ao PAA em seu próprio estado, o Rio de Janeiro. Para a agricultura familiar fluminense, ele destinou R$ 680 mil. O deputado nega que tenha direcionado os recursos para a namorada (leia mais abaixo). 

No Paraná, as emendas chegaram a três cooperativas ligadas ao MST, localizadas em Jardim Alegre, Centenário do Sul e Londrina. Em Jardim Alegre, a beneficiada foi a Cooperativa de Comercialização Camponesa Vale do Ivaí (Cocavi), braço local do MST visitado por Gleisi Hoffmann em abril deste ano. A Cocavi recebeu R$ 1,06 milhão em emendas de Lindbergh.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

“Foi uma alegria participar da festa de 29 anos do Assentamento Oito de Abril, em Jardim Alegre. São 550 famílias que, com muito trabalho e organização, constroem a reforma agrária popular e produzem uma grande variedade de alimentos que abastecem escolas e chegam à população por meio da Cooperativa Cocavi”, escreveu Gleisi em publicação no Instagram.


A emenda de Lindbergh destinada à Cocavi foi apresentada em 2024 e empenhada (isto é, teve os recursos reservados para pagamento) em novembro de 2025, meses após a visita de Gleisi ao assentamento.

Além da Cocavi, a Cooperativa de Produção, Industrialização e Comercialização Agrícola Ribeirão Vermelho (Coprari), em Centenário do Sul (PR) recebeu R$ 374 mil de emenda de Lindberg. Outros R$ 260 mil foram para a Cooperativa Agroindustrial de Produção e Comercialização Conquista (Copacon), em Londrina (PR).

No mesmo ano de 2024, o ministro Flávio Dino proibiu o envio de emendas para outro estado diferente daquele pelo qual o deputado se elegeu. O ministro apontou que essa prática abre espaço para distorções, favorecimentos políticos e desvios de finalidade, o que justificaria a restrição.

Dino quer saber se dirigentes indicam emendas

Na quarta-feira (15/7), Dino intimou os dirigentes dos 21 partidos com representação no Congresso para que informem, no prazo de 10 dias, se exercem influência sobre a destinação de emendas parlamentares.

Na decisão, o ministro cita entrevista recente de Valdemar Costa Neto à GloboNews, na qual o presidente do PL afirmou que outros dirigentes partidários também interferem na distribuição das emendas.

Gleisi Hoffmann exerceu mandato de deputada federal até março de 2025, ao assumir a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. Na ocasião, ela também renunciou à presidência do PT, cargo que ocupou de 3 de junho de 2017 a 7 de março de 2025.

Na semana passada, um relatório da Polícia Federal (PF), elaborado com base em mensagens extraídas do celular de servidores do Congresso, apontou que Valdemar teria indicado a destinação de 21 emendas parlamentares, no valor de R$ 119 milhões.

Ao Metrópoles, Valdemar disse que sempre “tomou cuidado” com a destinação dos recursos de emendas parlamentares. Pontuou ainda que é procurado com frequência por deputados e prefeitos para tratar dessas verbas de emendas.

“Todas as nossas sugestões foram todas dentro da lei. Os próprios deputados me consultam, às vezes através das emendas. Por quê? Porque o deputado só tem visão sobre o seu estado e seus municípios, não tem visão sobre o Brasil, e tem muitos prefeitos que não são atendidos. Então eles vêm falar comigo e eu sugiro à liderança”, disse ele.

O que diz o deputado Lindbergh Farias

À coluna, Lindbergh Farias diz que não foi o responsável por escolher a destinação das emendas. Segundo ele, essa decisão é feita pela Conab, a empresa pública responsável pelo PAA.

Eis a nota de Lindbergh na íntegra:

“É falsa a alegação de que Lindbergh teria enviado emendas para o MST do Paraná, base eleitoral de Gleisi. A emenda foi indicada para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com objetivo de atacar a insegurança alimentar e distribuir alimentos para famílias vulneráveis em periferias e favelas do Rio de Janeiro.

Todos os alimentos foram distribuídos no Rio de Janeiro. A CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) foi a responsável por contratar os fornecedores de alimentos. Entre eles, estão cooperativas do Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul, pois a agricultura familiar do Rio de Janeiro não produz quantidade suficiente de arroz e feijão, diferente de hortigranjeiros.

A CONAB contrata os fornecedores, a partir dos produtos e quantidades demandadas e do enquadramento nos critérios da agricultura familiar. As Cooperativas do Rio de Janeiro são: UNACOOP (União das Associações e Coopetativas do Pavilhão 30) e COOPARIO (Cooperativa dos Agricultores e Agricultoras de Rio Pardo).”

Lindbergh é o campeão de emendas para fora do Estado no PAA

Ao todo, 80 deputados e senadores destinaram emendas individuais para o PAA no Orçamento de 2025. Desses, 50 tiveram algum valor empenhado (isto é, reservado para pagamento).

Entre esses 50 parlamentares, apenas três — o senador Chico Rodrigues (PSB-RR), Lindbergh Farias e o deputado Pastor Henrique Vieira (PSol-RJ) — tiveram emendas empenhadas para cooperativas localizadas fora de seus Estados.

Nos outros 47 casos, a Conab comprou alimentos de cooperativas situadas nos Estados dos próprios parlamentares.

Ao todo, deputados e senadores destinaram R$ 15,3 milhões em emendas individuais para o PAA em 2025.

Desse total, apenas R$ 2,7 milhões foram destinados a entidades localizadas em Estados diferentes daqueles pelos quais os parlamentares foram eleitos. Em outros R$ 443 mil, o local de destino não está identificado na nota de empenho.

Dos R$ 2,7 milhões enviados para outros Estados, nada menos que 93,2% (R$ 2,59 milhões) foram destinados por Lindbergh Farias.

Os 6,8% restantes (R$ 188 mil) foram destinados por Chico Rodrigues. Eleito por Roraima, ele direcionou recursos para uma cooperativa de Pernambuco, coincidentemente seu Estado natal.

Chico Rodrigues ficou conhecido nacionalmente em outubro de 2020, quando policiais federais encontraram maços de dinheiro em espécie escondidos entre suas nádegas durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão expedido pelo STF.

Além de Lindbergh Farias e Chico Rodrigues, o deputado Pastor Henrique Vieira também teve parte de suas emendas ao PAA em 2025 destinada ao Paraná, no valor de R$ 203 mil. No entanto, nesse caso, nenhum valor foi pago até o momento.

Conab: alimentos foram distribuídos no Rio

Em nota, a Conab disse que os alimentos comprados com as emendas de Lindbergh foram distribuídos por ONGs no Rio de Janeiro, mesmo tendo sido adquiridos no Paraná.

Leia a íntegra da nota da Conab:

“A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) esclarece que os recursos mencionados foram aplicados no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), política pública regida pela Lei nº 14.628/2023, e destinaram-se ao atendimento de pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, no Rio de Janeiro.

O PAA articula duas pontas de uma mesma política: de um lado, a aquisição de excedentes da produção de alimentos da agricultura familiar; de outro, a doação desses alimentos a quem deles necessita, onde a vulnerabilidade social se concentra. Essas duas pontas nem sempre coincidem no mesmo território  ou Estado e é precisamente essa distância, entre produção e consumo, que o programa busca superar, visando permitir o acesso a alimentos de pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional.

No caso mencionado, a demanda por alimentos é do Rio de Janeiro. Toda a distribuição dos alimentos ocorreu no Estado, junto à população em situação de insegurança alimentar e nutricional, por entidades como Ação da Cidadania e a Central Única das Favelas (CUFA).

As compras do PAA são feitas junto à organizações da agricultura familiar,  por meio de associações e cooperativas, sendo os assentados da reforma agrária público prioritário, dentre os fornecedores de alimentos, conforme legislação do PAA. 

Como a agricultura familiar fluminense não dispõe de escala para suprir a demanda de todos itens básicos demandados, tais como arroz, feijão e farinha de mandioca, a Conab contratou organizações de assentamentos da reforma agrária do Paraná e do Rio Grande do Sul para o fornecimento desses gêneros alimentícios, que não são produzidos em escala pela agricultura familiar fluminense. Mesmo assim, no estado do Rio de Janeiro foram contratadas organizações fornecedoras de hortaliças, verduras e frutas.

Esse forma de aquisição faz parte do PAA e vem sendo adotada rotineiramente pela Conab há mais de 20 anos visando contribuir para cumprir o direito humano à alimentação das pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional. Emendas ao PAA são apresentadas por diversos parlamentares, em vários Estados, e todas seguem os mesmos critérios técnicos e legais do Programa, que se orientam pela finalidade social do gasto público, e não pela origem geográfica da produção”.