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Comportamento

Vai na fé: Covid-19 promove corrida por religião e gurus espirituais

O isolamento social e as dúvidas com o futuro aumentaram a busca pela elevação espiritual. A psicologia explica

Repórter de Comportamento05/07/2020 05:00, atualizado 06/07/2020 14:19
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Hugo Barreto/ Metrópoles
Cruz em igreja Catedral

A fé não costuma falhar. A sentença famosa na voz do cantor Gilberto Gil nunca fez tanto sentido quanto agora, quando o mundo se vê mergulhado em incertezas por conta da pandemia de coronavírus. O isolamento social e as dúvidas com o futuro promoveram uma verdadeira corrida digital por religião e gurus espirituais.

No Google, pesquisas que envolvem “palavras de fé” e “esperança” aumentaram mais de 70% desde que o isolamento começou. Já “budismo para iniciantes” cresceu 140% nos últimos meses.

No YouTube, por sua vez, a busca pelo termo “missa” subiu 226% desde que a Covid-19 freou a rotina em todo o mundo (e padres registraram um aumento de fieis). Recentemente, os ingressos para um culto evangélico em um drive-in esgotaram em menos de 40 segundos. E nunca se viu tanta lives de meditação quanto antes.

Obviamente, essa alta procura se deve, também, à atual formatação de quase todas as atividades consideradas não essenciais, que migraram para o on-line.

Ainda assim, especialistas acreditam que essas mudanças são definitivas.

A doutora em psicologia clínica e cultura pela Universidade de Brasília (UnB) Aline Ferreira Campos ressalta que 97% dos brasileiros se consideram espirituais ou religiosos. Segundo ela, diversos estudos dos últimos 20 anos indicam que ter uma vivência espiritual ou religiosa traz benefícios físicos e psicoemocionais.

“É saudável buscar apoio emocional na espiritualidade, que pode ser definida como procura de um sentido para a vida, conexão com o sagrado e um transcendente, ou vivida nas práticas religiosas ou de religiosidade”, avalia.

O sentimento de “perder o contato com o mundo” serviu como impulso para milhões de indivíduos buscarem um novo contato com si mesmo e com as próprias crenças.

Ela ressalta, porém, que essa busca não substitui os cuidados com outras dimensões do humano: cuidar do corpo, da vida concreta, da mente e das emoções, das relações sociais e políticas. Meditar, por exemplo, é algo que deve ser levado em consideração não apenas no campo filosófico, como da saúde. Outra medida fundamental é, se possível, se submeter a algum tipo de terapia psicológica. Independentemente do credo.

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Rede de apoio

Segundo a especialista, além do acalanto espiritual, as religiões também oferecem uma rede de apoio social.

Todavia, é preciso ter discernimento. “A questão é que as religiões também podem atrapalhar. Por exemplo, tivemos igrejas que se recusaram a fechar durante a pandemia, então, muitas pessoas se contaminaram em encontros religiosos. Às vezes, a pressão de um grupo religioso pode levar uma pessoa a tomar decisões contrárias à sua saúde”, pondera Aline.

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Além do que se vê

“Mentor” de nomes como Luciano Huck, Padre Fábio de Melo e Luiza Trajano, com os quais já gravou algumas lives, o rabino Nilton Bonder, autor do livro Cabala e a arte de preservação da alegria, finalizado em plena pandemia, acredita que muitas religiões e experiências com a elevação espiritual cresceram porque as pessoas precisam preservar sentimentos genuínos dos quais estão se afastando.

“Os desafios exigem positividade, não o negacionismo ou a crença de que tudo se resolverá por si só ou por privilégio. As pessoas estão mais interessadas porque a espiritualidade está no avesso do materialismo e do consumismo”, define.

O fato de nos voltamos para nossos vínculos e nossa interdependência dá relevância ao mundo espiritual, diz o rabino. “Infelizmente, muitos resistem a isso e não veem a hora de retornar a um novo normal que está delapidando o planeta e nossa humanidade”, argumenta.

Para Bonder, o momento atual pode ser definido como uma breve janela de oportunidade que irá rapidamente desaparecer “se as pessoas continuarem a equivaler a vida a coisas, a consumo e a exterioridades, ao invés de uma vida mais interior”. Foi preciso constatar a fragilidade da vida para que, finalmente, a olhássemos por outros ângulos, defende.