Beliscar entre as refeições nem sempre é fome, alerta nutricionista
Segundo a nutricionista Flavia Lucena, o hábito de beliscar ao longo do dia não deve ser interpretado apenas como falta de disciplina

Comer um biscoito aqui, pegar um pedacinho de chocolate ali. O hábito de beliscar ao longo do dia pode indicar não apenas fome, mas também revelar aspectos da saúde emocional, especialmente quando a comida passa a funcionar como uma forma de aliviar desconfortos internos, afirma a nutricionista e psicóloga Flavia Lucena.
Ao Metrópoles, a especialista em comportamento alimentar explica que, em muitos casos, a pessoa não come apenas por fome fisiológica, mas como tentativa de lidar com ansiedade, estresse, tédio, frustração, solidão ou sobrecarga mental.
Do ponto de vista neurobiológico, esse processo envolve o sistema de recompensa cerebral.
“Alimentos, especialmente os mais palatáveis, ativam circuitos ligados à dopamina, neurotransmissor associado à motivação, à antecipação da recompensa e ao aprendizado de condutas que tendem a se repetir. Quando a comida é usada para gerar alívio emocional, o cérebro pode passar a registrar esse recurso como uma resposta rápida e eficaz ao desconforto.”
Por isso, é importante diferenciar o “gostar” do “querer”. O primeiro está relacionado ao prazer sensorial de comer; o segundo refere-se ao impulso de buscar aquele alimento, mesmo na ausência de fome física, alerta Flavia.
“Quando pequenos lanches são repetidamente associados ao alívio emocional, o cérebro aprende essa associação e passa a acioná-la de forma cada vez mais automática”, esclarece a profissional.

Busca por recompensas imediatas
Já do ponto de vista comportamental, esse padrão também pode se fortalecer por condicionamento. Situações como trabalhar diante de alimentos, comer enquanto responde mensagens, assistir televisão ou fazer pausas sempre acompanhadas de comida podem criar associações que levam o indivíduo a comer quase sem perceber.
Além disso, estresse crônico e privação de sono tendem a aumentar a busca por recompensas imediatas, intensificar a reatividade emocional e reduzir o controle inibitório.
“Isso torna mais difícil interromper impulsos alimentares e favorece episódios frequentes de beliscar ao longo do dia”, afirma a especialista em comportamento alimentar.

Por isso, o hábito de beliscar ao longo do dia não deve ser interpretado apenas como falta de disciplina ou de força de vontade. Segundo a nutricionista e psicóloga Flavia Lucena, muitas vezes, ele representa uma tentativa de autorregulação emocional e um reflexo da interação entre emoções, aprendizado comportamental e mecanismos neurobiológicos da recompensa.
“Em vez de julgamento, merece compreensão e uma investigação cuidadosa dos fatores que o sustentam”, finaliza a expert.

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