Vida saudável nem sempre garante colesterol controlado. Entenda

Apesar de muito importantes para saúde cardíaca, dieta saudável e exercícios físicos nem sempre são suficientes para controlar o colesterol

atualizado 19/10/2022 20:09

Na imagem colorida, uma pessoas está centralizada e segura um coração de pelúcia rosa. Ele usa camiseta branca e está com um estetoscópio Getty Images

O colesterol alto favorece o acúmulo de gordura nas paredes nos vasos sanguíneos, causando a diminuição do fluxo de sangue para regiões importantes do corpo, como o coração e o cérebro. Uma das principais indicações para a prevenção do problema é adotar um estilo de vida saudável, com boa alimentação e exercícios físicos, mas nem sempre a receita é suficiente.

O cardiologista Raul Santos, diretor da Unidade Clínica de Lípides, do Instituto do Coração (InCor), explica que quase 80% das pessoas, têm valores de colesterol considerados inadequados, suficientes para prejudicar a saúde cardíaca. “Todo mundo precisa saber o seu colesterol e controlá-lo”, aconselha Santos.

Um grupo menor, mas que também é numeroso corresponde às pessoas que têm o colesterol muito alto, com necessidade de usar medicação para baixar o colesterol ruim (LDL). Aproximadamente uma em cada 300 pessoas no mundo está nessa situação e tem um risco de 10% a 15% maior de desenvolver problemas cardiovasculares.

O especialista pontua alguns dos principais mitos sobre o controle do colesterol:

Dieta saudável

Segundo Raul Santos, não há dúvidas de que o estilo de vida contribui para a saúde do coração. Mas quando o colesterol é alto, o impacto dos hábitos cotidianos pode ser pequeno. Uma dieta mediterrânea, pobre em gorduras saturadas, é capaz de reduzir o colesterol entre 10% e 15%, por exemplo.

“Se o paciente tem níveis de colesterol muito altos, essa redução não será suficiente. Não significa que as pessoas precisam tomar remédio, mas é necessário avaliar o risco de problemas cardiovasculares para esse paciente. Para isso, precisamos olhar o contexto: se a pessoa fuma, é diabética, hipertensa, obesa. É uma somatório de parâmetros”, afirmou o cardiologista no 77º Congresso Mundial e Brasileiro de Cardiologia.

Atividade física

O médico explica que os exercícios físicos protegem o coração de doenças cardiovasculares, como a hipertensão. Também evitam inflamações no sangue, a formação de trombos e reduzem os triglicerídeos, outro tipo de gordura presente no sangue. No entanto, os exercícios não têm ação direta na redução do colesterol.

“É claro que as taxas de colesterol podem ser reduzidas com a perda do excesso de peso, mas quando o paciente tem um risco cardiovascular alto, ele terá que tomar remédios para baixar o colesterol para um nível saudável”, afirma Santos.

Obesidade e sobrepeso

As pessoas obesas e com sobrepeso correm um risco maior, mas isso não significa que todos os obesos terão níveis altos de colesterol ou que indivíduos magros terão sempre colesterol baixo. De acordo com o cardiologista, o histórico familiar precisa ser avaliado pois fatores genéticos estão associados ao problema. Nesses casos, se diz que há uma hipercolesterolemia familiar (HF).

Risco relacionado ao gênero

O colesterol é ruim para ambos os gêneros. As mulheres têm uma proteção maior do que os homens à formação de placas dentro dos vasos sanguíneos quando estão na idade reprodutiva. Isso ocorre por conta da ação dos hormônios sexuais femininos. Ao entrar na menopausa, no entanto, o risco de desenvolver colesterol alto aumenta entre 15% e 20% para elas.

Os hormônios sexuais agem diretamente nos vasos sanguíneos com ação antiaterosclerótica, anti-inflamatória e antitrombótica, evitando a formação de placas de aterosclerose.

“Quando se perde essa proteção hormonal, passa-se a ficar suscetível aos efeitos ruins do colesterol e a outros fatores de risco, como cigarro, hipertensão e diabetes. Por isso o risco de problemas do coração acelera muito entre elas depois dos 50 anos”, explica.

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Frequência dos exames

A frequência da realização de exames de sangue para medição das taxas de colesterol depende do perfil de cada paciente. Uma pessoa sem histórico de colesterol alto na família e que tem níveis estáveis pode repetir o exame a cada três a cinco anos.

Já os pacientes que fazem tratamento farmacológico para baixar o colesterol devem repetir os testes por duas vezes depois do início da medicação até acertar o valor adequado. Depois disso a frequência pode ser anual, desde que tome o remédio corretamente.

“À medida que envelhecemos, o colesterol vai aumentando. Mas se você mantém o peso estável, a mesma alimentação e o grau de risco de problemas do coração está em um valor adequado, o check-up de colesterol não precisa ser feito todo ano”, afirma o médico.

E os ovos?

O cardiologista afirma que uma dúvida frequente dos pacientes diz respeito ao consumo de ovos. Segundo Santos, o efeito do ovo na alimentação depende de fatores como a capacidade de absorção de colesterol e a genética, mas esta interferência é observada apenas com quantidades grandes.

“Comer um ovo por dia praticamente não muda o colesterol de ninguém e não aumenta o risco de problemas cardíacos. Um terço das pessoas que comem de dois a três ovos por dia vão absorver bastante colesterol e ter, consequentemente, valores mais altos.”

De acordo com o médico, o principal vilão são as gorduras saturadas. “Se o paciente focar em uma dieta predominantemente de gorduras animais, ele naturalmente vai ter o colesterol alto, por isso é importante ter uma alimentação diversificada, com vegetais”, afirma.

Papel dos suplementos

Uma dúvida frequente no consultório de Santos é sobre a relação entre o consumo de ômega 3 e de suplementos vitamínicos com o controle do colesterol. O médico, no entanto, afirma que não há comprovação sobre os benefícios deles para os pacientes. Segundo Santos, elas não atuam no metabolismo direto do LDL, logo não reduzem o valor do colesterol ou a oxidação do colesterol.

“Não tem efeitos, mas é um dos mitos que mais se fala por aí. O que adianta contra os problemas cardíacos é tentar levar um estilo de vida adequado e controlar os fatores de risco: pressão, colesterol, glicemia e não fumar. Infelizmente a grande maioria dos pacientes não segue as nossas recomendações”.

*A repórter Bethânia Nunes esteve no Rio de Janeiro a convite do grupo farmacêutico Novartis para acompanhar o 77º Congresso Brasileiro de Cardiologia.

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