Shots para imunidade não têm benefícios significativos, afirma médica
Shot pode até fazer parte da alimentação, mas não há evidência de que misturas concentradas fortaleçam a imunidade sem hábitos saudáveis

A popularização dos chamados shots de imunidade nas redes sociais reacendeu o debate sobre o que realmente ajuda a proteger o organismo contra infecções. Misturas concentradas com limão, gengibre, cúrcuma, própolis e outros ingredientes ganharam fama como alternativas para “blindar” o corpo, mas especialistas alertam que a ciência não confirma o efeito.
Segundo a infectologista Paula Pinhão, diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, o funcionamento do sistema imunológico depende de um conjunto de fatores e não pode ser ativado por uma única receita. A médica ressalta que estratégias como sono adequado, atividade física, alimentação equilibrada e vacinação apresentam muito mais respaldo científico do que soluções rápidas divulgadas na internet.
O que a ciência sabe sobre os shots
Os ingredientes usados nos shots contêm compostos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, mas isso não significa que a combinação seja capaz de aumentar a imunidade de forma significativa. A nutricionista Taynara Abreu, do Hospital Mantevida, em Brasília, explica que os benefícios observados estão relacionados aos alimentos individualmente e ao contexto da alimentação como um todo.
“Os chamados shots de imunidade podem fazer parte de uma alimentação saudável, porém não há comprovação de que a combinação dos ingredientes potencialize a imunidade de forma relevante”, afirma Taynara.
A especialista destaca que o limão fornece vitamina C, o gengibre possui compostos antioxidantes e a cúrcuma contém curcumina, substância estudada por suas propriedades anti-inflamatórias. No entanto, a quantidade desses nutrientes presente em uma dose pequena geralmente não é suficiente para produzir grandes efeitos em pessoas que já mantêm uma dieta adequada.
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Ver todasRiscos e falsas promessas
Embora sejam vendidos como naturais, os shots não são indicados para todos. Pessoas com gastrite, refluxo, úlceras ou outras doenças gastrointestinais podem apresentar piora dos sintomas devido à acidez do limão e à presença de ingredientes irritantes, como gengibre e pimenta. Também é necessário cuidado em casos de uso de anticoagulantes e alergia a produtos derivados das abelhas.
Para Paula, um dos principais problemas é a falsa sensação de proteção criada por conteúdos virais. A infectologista observa que muitas pessoas passam a acreditar que estão protegidas apenas por consumir shots ou suplementos, deixando em segundo plano medidas comprovadamente eficazes de prevenção.
“O sistema imunológico não funciona como um interruptor que pode ser ligado por um shot ou por uma vitamina. Ele depende de um conjunto de fatores biológicos extremamente complexos, influenciados pelos hábitos que cultivamos ao longo da vida”, explica Paula.
Hábitos têm mais impacto na imunidade
As duas especialistas concordam que não existe fórmula milagrosa para fortalecer a imunidade. O que apresenta comprovação científica é a adoção de hábitos consistentes ao longo do tempo.
Entre as principais medidas recomendadas estão alimentação variada e rica em alimentos in natura, consumo adequado de frutas, verduras e proteínas, sono de sete a nove horas por noite, prática regular de atividade física, controle do estresse, boa hidratação, evitar o tabagismo, moderar o consumo de álcool e manter a vacinação em dia.
Na avaliação das especialistas, os shots podem ser consumidos como parte da rotina alimentar, desde que não sejam encarados como substitutos de cuidados essenciais. A verdadeira proteção do organismo, afirmam, está mais ligada à regularidade dos hábitos saudáveis do que à busca por receitas rápidas prometidas nas redes sociais.


