Projeto Padrão: jovem mostra o que é preciso para ter o corpo perfeito
Influencer documentou a transformação do corpo para mostrar o que está por trás da aparência "padrão" valorizada nas redes

Quando ficou desempregada, em dezembro de 2025, a analista de dados Marcela Cruz, 29 anos, decidiu virar influenciadora. “Vi mulheres bonitas ficando cada vez mais bonitas e ganhando dinheiro com isso na internet. Por que não tentar?”, conta.
A tentativa virou uma espécie de experimento pessoal e, em fevereiro deste ano, começou a ganhar espaço no Instagram com o nome de Projeto Padrão.
A proposta era tentar se aproximar do corpo e da aparência valorizados nas redes e documentar o caminho. Alimentação, exercícios e acompanhamento profissional entraram na rotina, assim como cuidados com cabelo e pele, clareamento dental e até uma mudança no guarda-roupa.
No decorrer da experiência, a pergunta deixou de ser apenas “como chegar ao padrão?” e incluiu “o que é necessário para chegar até lá?”.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e Ciência“As pessoas tentam vender na internet que corpos perfeitos são fruto apenas da disciplina, quando, na verdade, envolvem muito dinheiro, organização e tempo. O Projeto Padrão veio pra desmascarar isso”, afirma.

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Quanto custa tentar ser uma “mulher padrão”?
Segundo as contas de Marcela, foram investidos cerca de R$ 30 mil no projeto. Do total, aproximadamente R$ 13 mil foram recebidos posteriormente por meio de permutas, cosméticos e subsídios relacionados ao processo de emagrecimento, incluindo medicação com análogo de GLP-1. Segundo a influenciadora, porém, as parcerias apareceram durante a trajetória e não deram origem ao projeto.
A transformação apareceu no corpo. Marcela passou de 80 kg para 66 kg, enquanto o percentual de gordura corporal caiu de 40% para 25%. Em vez de perseguir um determinado número na balança, ela afirma que estabeleceu limites relacionados ao que considerava saudável.
O que muda além do espelho?
A transformação física pode ser visível, mas não é suficiente para dizer se uma pessoa ficou mais saudável. É justamente aí que a experiência de Marcela encontra um ponto importante para a saúde.
A nutricionista Tatiane Lourenço, especialista em nutrição funcional em São Paulo, explica que mudanças consistentes na alimentação e a prática de exercícios podem melhorar sensibilidade à insulina, colesterol, triglicerídeos, sono, disposição, humor e capacidade cardiorrespiratória, além de favorecer força e composição corporal.
Por outro lado, um corpo que aparenta estar “em forma” não é um atestado de saúde. “É possível ter uma aparência física considerada exemplo e, ainda assim, apresentar alterações de saúde que não são visíveis externamente. Por isso, a avaliação não deve se basear apenas na aparência ou no peso”, afirma Tatiane.
Marcela conta que realizou exames antes do projeto e percebeu resultados positivos no segundo check-up. Para avaliar uma transformação de maneira mais ampla, Tatiane recomenda olhar também para energia, sono, desempenho físico, exames laboratoriais e, entre mulheres, regularidade do ciclo menstrual.
A lógica também vale para o treinamento. Emy Suelen Pereira, doutora e mestre em Educação Física, defende que a mudança estética não precisa ocorrer às custas da saúde. “Não separo estética de saúde e performance. Para mim, um corpo esteticamente melhor é consequência de um organismo que funciona melhor e de um treinamento bem estruturado”, explica.
Segundo Emy, musculação, exercícios aeróbicos e recuperação devem ser combinados de acordo com as necessidades de cada pessoa. Mudanças relevantes podem surgir em aproximadamente oito a 12 semanas, mas não existe um prazo universal: alimentação, sono, idade, intensidade do treino e características individuais interferem na resposta.
Quando o “padrão” continua se afastando
Mesmo depois de perder 14 kg e reduzir 15 pontos percentuais de gordura corporal, Marcela continuou recebendo comentários dizendo que ainda precisava mudar.
O público sugeria novas perdas de peso, cirurgias plásticas e até uso de hormônios para que ela chegasse ao que alguns seguidores consideravam uma mulher verdadeiramente “padrão”. Foi quando a analista de dados decidiu até onde estava disposta a ir.
“As pessoas me falavam nas redes sociais: ‘Para você ser padrão, precisa fazer algumas plásticas, tomar hormônio, emagrecer mais’. E eu, consciente do teor do meu conteúdo e das minhas metas, entendi que esses são os tipos de intervenções que as pessoas esperam de uma mulher padrão, e eu não estava disposta”, relata.
A experiência ajuda a ilustrar um risco apontado pelas especialistas: quando a referência principal passa a ser uma aparência idealizada, continuar emagrecendo ou treinando mais não significa necessariamente continuar melhorando a saúde.
Tatiane cita fome constante, queda de cabelo, alterações menstruais, cansaço, perda de desempenho e pensamentos obsessivos sobre alimentação como sinais de alerta.
Dietas muito restritivas ou déficits calóricos prolongados podem provocar perda de massa muscular, deficiências nutricionais e alterações hormonais. No exercício, a lógica é parecida. Mais treino não significa automaticamente mais resultado.
“O melhor treinamento não é aquele que mais destrói o corpo. É aquele que oferece o estímulo necessário para que o corpo evolua e consegue ser sustentado ao longo do tempo”, afirma Emy.
O que fica escondido no antes e depois
Ao colocar os gastos e as estratégias na própria narrativa, Marcela acabou expondo uma parte que normalmente não aparece nas fotografias de transformação corporal: as condições necessárias para produzir aquele resultado.

E o cuidado vale também para quem acompanha histórias semelhantes. Segundo Tatiane, genética, histórico de saúde, hormônios, alimentação, treinamento e rotina fazem com que duas pessoas possam responder de maneiras completamente diferentes a estímulos parecidos. Copiar dietas ou protocolos vistos nas redes, portanto, não garante o mesmo resultado e pode trazer riscos.
No fim do Projeto Padrão, Marcela havia mudado o corpo, mas também encontrado um limite para a experiência. O padrão que decidiu perseguir no início continuava exigindo novas mudanças aos olhos de parte do público.
Talvez seja justamente aí que o projeto encontre sua principal provocação: o antes e depois cabe em duas fotografias. Dinheiro, tempo, acompanhamento profissional, escolhas e limites impostos e metas saudáveis para chegar até a segunda imagem, não.



