Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Saúde

Bebê de 1 ano morre após disputa com plano de saúde por tratamento

Mariah Victoria tinha cardiopatia congênita grave e doença no fígado. Família acionou a Justiça contra o plano de saúde várias vezes

19/08/2026 02:00
Arquivo pessoal
Foto colorida de bebê de poucos meses em leito hospitalar - Metrópoles

Mariah Victoria Soares Galvão passou praticamente toda a vida entre hospitais. Com cardiopatia congênita grave e atresia das vias biliares, doença que compromete o fígado, a menina precisava de acompanhamento especializado e chegou a ter indicação para transplante hepático. Paralelamente, a família travou uma disputa judicial com o plano de saúde para garantir transferências hospitalares e o custeio da assistência.

A batalha começou quando Mariah tinha pouco mais de um mês e se estendeu por quase um ano. Documentos médicos, e-mails e decisões judiciais obtidos pela reportagem mostram determinações para que a criança fosse transferida à Beneficência Portuguesa de São Paulo (BP), onde já era acompanhada.

Na última internação, em maio de 2026, Mariah chegou em estado grave a um hospital de Bragança Paulista (SP). A médica solicitou transferência em UTI móvel para a BP.

Após horas de tratativas com a Unimed Poços de Caldas, a mãe afirma ter pegado R$ 6 mil emprestados para contratar uma ambulância particular. A menina chegou ao hospital de referência, mas morreu poucos dias depois, com 1 ano de idade.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e Ciência

Receba no seu email as notícias de Ciência&Saúde

Frequência de envio: Semanal

Ver todas as newsletters

A batalha começou quando Mariah tinha pouco mais de um mês

Mariah nasceu em 28 de abril de 2025. Além da cardiopatia congênita, logo começou a apresentar sinais de comprometimento do fígado. Um relatório médico de 11 de junho registra que uma avaliação realizada cinco dias antes havia identificado icterícia e alteração da função hepática. Exames mostravam aumento de bilirrubinas e enzimas hepáticas, além de suspeita de atresia das vias biliares.

A doença impede o fluxo adequado da bile e pode provocar danos progressivos ao fígado. No documento, a equipe afirmava que a associação do problema hepático à cardiopatia exigia avaliação multidisciplinar urgente e considerava fundamental a transferência para a Beneficência Portuguesa, onde Mariah já era acompanhada.

A menina havia sido internada em estado grave na Unimed Poços de Caldas às 20h48 de 10 de junho. Diante do impasse envolvendo a transferência, a família recorreu à Justiça.

Decisões anexadas ao processo determinaram a transferência de Mariah para a BP com transporte especializado, incluindo UTI móvel quando necessário, além do custeio de despesas médicas, hospitalares e honorários profissionais.

Uma das determinações estabeleceu prazo máximo de 12 horas para a remoção. Em outro momento, a Justiça fixou multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento, inicialmente limitada a R$ 100 mil, e determinou o bloqueio de valores para o pagamento da equipe médica enquanto a Unimed Poços de Caldas não fizesse a transferência da paciente.

A gravidade do quadro levou a uma medida adicional: em uma das decisões, a Justiça determinou que um oficial de Justiça acompanhasse a transferência para garantir o cumprimento da ordem.

A Unimed Poços de Caldas negou o pedido e afirmou que Mariah seria transferida para um hospital da rede credenciada em Ribeirão Preto. Porém, apesar da criança ter graves problemas cardíacos, a unidade não possuía habilitação para a realização de cirurgias cardiopediátricas e nem manejo de doenças complexas.

Mariah foi transferida em 13 de junho, mas o plano de saúde não pagou a equipe médica. Cinco dias depois, passou por cirurgia para tratar a atresia das vias biliaresApós avaliação do quadro, houve indicação para transplante de fígado.

A menina recebeu alta em 21 de julho e seguiu em acompanhamento para ganhar peso antes de uma futura cirurgia cardíaca e do tratamento hepático.

Novas internações e novas decisões

Em outubro de 2025, Mariah voltou a ser internada e a família novamente acionou o Judiciário para garantir transferência e discutir despesas do tratamento. O Ministério Público de Minas Gerais se manifestou pelo cumprimento da determinação judicial, segundo documentos apresentados pela família.

Também houve decisões envolvendo pagamentos e bloqueio de valores. Um comprovante mostra depósito judicial de R$ 15 mil em 23 de outubro. Em outra manifestação, a família alegou que ainda havia diárias pendentes e ausência de tratativas sobre alguns pagamentos.

Em dezembro, uma nova internação levou a outro pedido judicial. Já em 12 de abril de 2026, uma sentença confirmou a obrigação de custeio do tratamento de Mariah na Beneficência Portuguesa pela Unimed Poços de Caldas.

Foto colorida de decisão judicial da Mariah - Metrópoles
Decisão judicial sobre transferência para a BP e custeio

A última internação

Às 23h de 25 de maio de 2026, Mariah deu entrada no Hospital Universitário São Francisco na Providência de Deus, em Bragança Paulista. O relatório médico assinado por Julia Bonelli Barbosa registra que a criança chegou com cianose central — coloração azulada relacionada à baixa oxigenação — e desconforto respiratório. A mãe relatou tosse e coriza que duravam seis dias, com piora nos dois anteriores.

Como o hospital não dispunha de cardiologia pediátrica, a médica solicitou transferência para a Beneficência Portuguesa em ambulância UTI móvel. Às 23h56, a advogada da família comunicou a Unimed Poços de Caldas e encaminhou relatório médico, sentença judicial e outros documentos. Durante a madrugada, porém, as tratativas passaram a envolver a disponibilidade e a formalização de uma vaga na BP.

Às 4h24 de 26 de maio, o Gerenciamento de Leitos da Beneficência Portuguesa informou por e-mail: “Em nenhum momento foi informado que não haveria vaga de PA, pois hospital é portas abertas, realiza atendimento”.

Na mesma mensagem, o hospital ressalvou que não realizava transferência diretamente para o pronto atendimento devido ao risco assistencial, trabalhando com transferência mediante leito cedido.

Às 9h07, a BP enviou uma relação das autorizações necessárias para a transferência, incluindo custeio integral, honorários médicos e transporte em UTI móvel. As tratativas continuaram.

Mais de 10 horas de espera e R$ 6 mil por uma ambulância

Mais de 10 horas passaram desde o primeiro contato da família com a operadora sem que a transferência tivesse sido efetivada, segundo a cronologia apresentada à Justiça e os e-mails anexados ao processo.

Às 13h55, segundo os documentos, a operadora informou que o transporte permanecia “em logística”. Às 14h20, foi comunicada previsão de chegada da UTI móvel às 17h.

Diante da espera e do estado da filha, a mãe decidiu providenciar o transporte. Segundo o relato apresentado à Justiça, ela pegou R$ 6 mil emprestados para contratar uma ambulância particular e levar Mariah à Beneficência Portuguesa.

A família afirma ainda ter desembolsado R$ 2.235 por um exame considerado necessário durante a internação e posteriormente solicitado o custeio à operadora.

Mariah conseguiu chegar ao hospital onde era acompanhada, mas morreu poucos dias depois. A menina, que passou praticamente toda a vida em tratamento, encerrou uma trajetória marcada por sucessivas idas da família à Justiça para garantir a assistência prescrita pelos médicos.

Os documentos analisados pela reportagem comprovam determinações judiciais relacionadas à transferência e ao custeio do tratamento. Eles, porém, não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito entre os impasses envolvendo a assistência e a morte da criança.

A família entrou com um processo para responsabilizar a Unimed Poços de Caldas sobre a conduta durante o caso de Mariah, e um inquérito criminal foi instaurado. A existência da investigação não significa, por si só, responsabilização criminal da operadora ou de seus representantes.

O que diz a Unimed

Em nota enviada ao Metrópoles, a Unimed Poços de Caldas afirma que acompanhou Mariah desde o período gestacional e que não houve negativa de cobertura ou interrupção da assistência. Segundo a operadora, os atendimentos, internações, transferências e procedimentos indicados pelas equipes médicas foram autorizados e custeados, inclusive após as decisões judiciais.

A versão da Unimed diverge de pontos apresentados pela família e nos documentos anexados ao processo, especialmente em relação às dificuldades para efetivar as transferências e aos pagamentos discutidos judicialmente.

Sobre a última internação, a Unimed sustenta que acionou o transporte especializado à 1h15 de 26 de maio e que a remoção dependia da confirmação de vaga e do aceite da Beneficência Portuguesa. A operadora afirma que, às 14h20, a transferência estava programada, com saída prevista para as 17h35, mas que a família optou por contratar uma ambulância particular antes da remoção disponibilizada pelo plano.

A Unimed acrescenta que ainda não recebeu os documentos necessários para analisar eventual reembolso dos R$ 6 mil. O exame de R$ 2.235 já teria sido custeado e a cobrança feita à família ocorreu por uma inconsistência da Beneficência Portuguesa, que deverá restituir o valor pago em duplicidade.

A Unimed nega ainda a existência de pendências relacionadas às despesas e aos honorários médicos e informa que Mariah permaneceu internada na Beneficência Portuguesa até 3 de junho de 2026, quando, segundo registros assistenciais citados pela operadora, teve alta a pedido da família. A empresa explica que a criança morreu em casa em 11 de junho.