Vamos internar os dependentes quantas vezes for preciso, diz Ramuth
Vice-governador Felício Ramuth sustenta que Cracolândia acabou e que não há ponto de uso de drogas onde o Estado não entre em SP

O vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (MDB), não demonstra hesitação ao decretar o fim da Cracolândia. O esfacelamento do fluxo principal de usuários de drogas no centro paulistano virou um dos grandes trunfos na pré-campanha à reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Escolhido por Tarcísio para enfrentar o problema histórico na captial paulista, ele afirma que as políticas adotadas até agora são diferentes de tudo que vinha sendo feito anteriormente e defende a alta de internações de dependentes químicos.
Conforme o Metrópoles revela nesta sexta-feira (19/6), na reportagem multimídia Dossiê Cracolândia, a dispersão de usuários de crack foi marcada por forte alta tanto nas internações voluntárias quanto nas forçadas. Tudo isso em um contexto de violência policial contínua, em alguns casos até com mortes de dependentes químicos.
Ramuth atendeu o Metrópoles para entrevista no Hub de Cuidados para Crack, na região da Luz. Confira abaixo trechos da entrevista:
Ao que o senhor atribui o sumiço do fluxo na rua dos Protestantes?
Não existiu sumiço. Não foi da noite para o dia, ela foi diminuindo ao longo do tempo. Ninguém entendeu aquele fenômeno de fato, 90% do público que frequentava a Cracolândia era rotativo. Vinha para um lugar onde podia se esconder da polícia, se esconder da família, porque era um lugar onde o poder público não atuava.
E 70% daquelas pessoas estavam descumprindo medidas judiciais, 90% tinham passagem pelo sistema penitenciário. Mais de 30 mil pessoas foram internadas. Como que você pode internar 30 mil pessoas se tinha só 3 mil? Essa é a prova de que aquele público era rotativo, porque não eram as mesmas 3 mil. Quando a gente começa a dar tratamento e a atuar com a segurança pública, as pessoas deixam de vir. Este é o grande segredo. Não foi para onde elas foram, foi porque elas deixaram de vir para o centro da maior cidade da América Latina para consumir drogas.
Moradores relatam que surgiram pontos de uso que não existiam antes, por exemplo, em bairros como a Barra Funda.
Não era uma Cracolândia. A gente conta todos os dias. Numa reportagem [sobre uma minicracolândia] da Barra Funda havia 30 pessoas, 3 tinham passado pela Cracolândia, os outros 27 estavam lá porque todos os dias, às 4 horas, vai uma caminhonete comprar material reciclável deles. É completamente diferente. Na Cracolândia as pessoas estavam lá com um único objetivo: consumir drogas. São públicos diferentes e ações diferentes.
Nós acabamos com a Cracolândia, nós não conseguimos acabar com o consumo de drogas na cidade de São Paulo. Não foi esse o resultado que a gente anunciou. Apenas 10,5% dos usuários que você encontrar hoje podem ter passado um dia pela cena aberta de uso. A gente atua diariamente com monitoramento e oferece serviços para essas pessoas.
Pessoas em situação de rua ouvidas por nós afirmaram haver uma regra na antiga Cracolândia de que a polícia impede qualquer aglomeração com mais de duas pessoas, e relatam agressões.
Não existe regra nenhuma de que não pode ficar mais de duas pessoas. O que existe é a operação Corte Zero, para fazer abordagem e retirar objetos perfurocortantes. Por conta dessa presença da polícia é que a gente teve queda de 60% no número de roubos da região central. Qualquer caso de abuso bem registrado, a gente vai apurar, como já fizemos e punimos. Quando a gente vê uma concentração de três, quatro, cinco pessoas, a polícia atua porque, via de regra, perto dali tem algum fornecimento de drogas.
Por outro lado, encontramos alguns dependentes que dizem que gostariam de ser internados, mas não conseguiram.
Eu vou dar uma sugestão: escuta os que estão indo para encaminhamento também, talvez você vai escutar coisas completamente diferentes do que aqueles que gostam de se manter nas ruas. Cuidado com o que você escuta e aquilo que na prática é o que é. A grande questão é dar o primeiro passo. Depois faz um teste, pergunte para esses que foram acolhidos, que toparam sair de fato das ruas. Uma coisa é eu estar na rua e dizer “eu quero sair das ruas”. A outra coisa é eu, de fato, dar o primeiro passo para sair das ruas. Você vai ver respostas completamente diferentes.
Como funciona o Hub?
A gente foi escutar muita gente e ver também experiências que estavam acontecendo em outros lugares do mundo. Baseado nessas boas práticas, a gente foi escutar a população e os especialistas, principalmente da área. A partir daí, criamos o HUB de cuidado com crack e outras drogas, que é um serviço de saúde, além dos serviços da área social e também da área de segurança pública.
O que nós tínhamos era uma Cracolândia onde o poder público não atuava. O que nós temos hoje é a extinção da Cracolândia e nenhum lugar da cidade de São Paulo onde o Estado não atua. O que a gente propõe é justamente isso: atuação da saúde, segurança e do social.
Aqui no HUB é analisado individualmente e a pessoa pode ir para uma comunidade terapêutica fazer um acolhimento ou para um hospital especializado. Nós tínhamos 120 vagas na rede estadual para acolher. Hoje nós temos 728 vagas em hospitais especializados, 625 vagas em clínicas especializadas, casas terapêuticas com 536 vagas e comunidades terapêuticas com mais 675 vagas.
A gente teve prisão de mais de 1.800 traficantes dentro da cena aberta de uso, recorde de apreensão de drogas. O grande erro do passado é que a Cracolândia era vista como um território, mas na verdade era um sistema. A favela do Moinho alimentava esse sistema, hoje faltam 30 famílias para serem transferidas e acabou o crime organizado lá. Fechamos dezenas de pensões, ferros-velhos que faziam parte do ecossistema do crime organizado.
Essa política de fechar pensões e prender traficantes já não vinha sendo feita pela Polícia Civil, em operações como a Caronte?
Não tem absolutamente nada a ver. A Operação Caronte foi uma operação de segurança pública. Por isso que não deu certo, não era uma operação multidisciplinar, onde a gente entrava com saúde, social e segurança pública. A pperação Caronte abordava os usuários como se fossem criminosos. A gente separou o joio do trigo: para o usuário, o acolhimento; para o crime, a gente foi forte. Você conhece algum estabelecimento comercial que foi fechado pela operação Caronte que continua fechado? Nenhum. Os que foram fechados por nós continuam fechados.
Por que o senhor fala que o Estado não entrava na Cracolândia, se os agentes de saúde sempre estiveram atendendo as pessoas?
Quem controlava era o crime organizado. As ações de saúde não tinham o hub de acolhimento e nem vagas de internação. Como é que você oferece uma internação para alguém se você não tem vaga para internar? Era uma ação paliativa. Fizemos 5 mil notificações para o Tribunal de Justiça de pessoas descumprindo medidas judiciais. Desses 5 mil, 150 regrediram para o regime fechado, foi o suficiente, porque os outros passaram a ver que poderiam ser o próximo. O segredo não é como a gente tirou as pessoas de lá. O segredo é como a gente evitou que novas pessoas fossem para lá.
A gente tinha muita gente fazendo coisa boa na Cracolândia, ONGs, igrejas, só que sem coordenação. Era como se todos estivessem no mesmo barco, cada um remando para uma direção diferente. O que a gente fez foi criar um trabalho coordenado entre prefeitura e Estado.
Usuários que recaíram reclamam da falta de acompanhamento depois das internações.
É um tratamento que dura pela vida inteira. Raramente é a primeira internação que vai fazer com que a pessoa não tenha mais recaída. A gente está aberto para internar essas pessoas quantas vezes forem necessárias. Eu proponho que você visite uma casa terapêutica onde nós temos 600 pessoas hoje que passaram por toda essa jornada, algumas já empregadas pelo programa Operação Trabalho da Prefeitura, que remunera com 1.200 reais, outras já de volta para suas famílias. A gente tem um grande número de experiências exitosas.
Qual é o papel das internações involuntárias no plano de vocês?
A grande maioria das internações involuntárias só acontece por recomendação médica. Não existe internação involuntária sem recomendação médica. Nós já internamos mais de 30 mil pessoas e, desse total, não estamos falando de 800 pessoas internadas involuntariamente, e compulsoriamente, nenhuma. Nós não precisamos fazer internação compulsória para conseguir os resultados.
A política de redução de danos foi escanteada?
Não existe política de redução de danos escanteada. Oferecemos implante anticoncepcional para as mulheres na cena de uso. Fazemos todos os exames de doenças sexualmente transmissíveis. Isso é redução de danos. O que a gente quer é autonomia e independência, esse é o nosso objetivo para cada pessoa. O Hub, a partir do ano que vem, será implementado nas cidades do interior, que já começam a sofrer com uso de drogas em ruas abertas. A gente vai ter hubs regionais no interior do estado de São Paulo.

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