INSS: empresário alvo da PF tinha agradecido a Deus por não ter sido pego
Felipe Macedo Gomes foi um dos alvos da operação deflagrada pela PF nessa 4ª feira contra fraudes bilionárias em aposentadorias do INSS
atualizado
Compartilhar notícia

Alvo da Polícia Federal (PF) nessa quarta-feira (27/5) por envolvimento no esquema bilionário de fraudes contra aposentados do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), o empresário Felipe Macedo Gomes havia postado nas redes sociais, há cerca de um mês, uma oração agradecendo a Deus por tê-lo protegido desde a deflagração da primeira fase da Operação Sem Desconto, em abril de 2025.
“Aos olhos humanos, tudo apontava para o impossível. Não havia cenário favorável, não havia lógica, não havia caminho. Mas eu e a minha casa tínhamos uma Palavra liberada”, escreveu Gomes em seu perfil no Instagram, no dia 23 de abril, referindo-se à “Palavra do Deus Todo-Poderoso”. Na sequência, ele emendou: “Passou-se 1 ano… E a Palavra continua de pé”.
Um mês e quatro dias depois da publicação, Gomes voltou a ser alvo de busca e apreensão da PF, na nova operação contra a farra dos descontos indevidos sobre aposentadorias, revelada pelo Metrópoles. Ele presidiu a associação Amar Brasil Clube de Benefícios, que atuava em conjunto com a Master Prev, AASAP e ANDAPP — juntas, as quatro entidades lucraram cerca de R$ 700 milhões do INSS.
Além de Gomes, as associações eram comandadas por Américo Monte Júnior, Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Igor Dias Delecrode — todos foram alvo da operação dessa quarta. Com idades entre 30 e 45 anos, eles ostentavam uma vida de luxo em Alphaville, bairro de alto padrão de Barueri, na Grande São Paulo, e ficaram conhecidos como Golden Boys na CPMI do INSS.
Em Alphaville também fica a igreja evangélica Sete Church, que conta com parte dos investigados da Farra do INSS como fiéis. Em um culto, Gomes chegou a celebrar os lucros que havia ganhado quando a “mão de Deus” tocou em seus negócios. O período de maior ganho do empresário coincidiu com o crescimento da arrecadação da Amar Brasil com descontos indevidos de aposentados.
Gomes chegou a dar um relógio da marca Rolex e uma BMW como dízimo a Sete Church. Segundo o apóstolo Cesar Belluci, principal líder da igreja, o empresário da Farra do INSS pediu o carro de volta após doá-lo.
Ao todo, o escândalo de descontos associativos, revelado pelo Metrópoles em uma série de reportagens iniciada em dezembro de 2023, provocou um rombo de mais de R$ 6 bilhões no INSS. O caso culminou nas demissões do presidente do instituto à época, Alessandro Stefanutto, do ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT), em várias prisões, como a do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e na devolução do dinheiro roubado dos aposentados pelo governo federal.
Relação com políticos
Além da arrecação milionária por meio da associação que descontava dinheiro de aposentados, Felipe Macedo Gomes também cobiçava entrar na política, com pretensão de disputar eleição.
Informações de movimentações financeiras obtidas pelos investigadores mostram que Gomes doou R$ 60 mil para a campanha do ex-ministro da Previdência Onyx Lorenzoni (PP), quando tentou se candidatar ao governo do Rio Grande do Sul em 2022. Onyx foi derrotado por Eduardo Leite (PSD).
Ao Metrópoles o ex-ministro disse que não conhecia Felipe Gomes, que a doação foi legítima, e que a Amar Brasil obteve autorização para fazer descontos do INSS após sua saída do Ministério da Previdência, no governo Jair Bolsonaro (PL).
A família de Gomes também tem uma amizade antiga com parentes de José Carlos Oliveira, que também comandou o INSS e foi ministro da Previdência no governo Bolsonaro. O tio de Felipe foi morto junto com um primo de Oliveira ao sair de um restaurante de alto padrão na zona sul de São Paulo, em 2013.
Além dos ex-ministros, Gomes era dono da sala alugada pelo deputado federal Fausto Pinato, que trocou o PP pelo União Brasil neste ano, e usada como escritório político em Alphaville. Segundo o parlamentar, ele não sabia a quem pertencia o imóvel quando o alugou.
Frota luxuosa apreendida
Essa não foi a primeira vez que o grupo de jovens ricaços do qual Gomes faz parte foi alvo da PF. Em 9 de outubro do ano passado, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a apreensão de 29 carros dos empresários de Alphaville. À época, a frota foi estimada em R$ 27,7 milhões.
Também em outubro daquele ano, Gomes foi à CPMI do INSS, onde exerceu o direito de ficar calado, que foi concedido a ele por meio de um habeas corpus do ministro Dias Toffoli, do STF.
O advogado Rogerio Cury, que defende Felipe Gomes, disse que seu cliente sempre esteve espontaneamente à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos.




















