Em 1 ano, Faria Lima vira cenário de operações contra crime organizado
Principal centro financeiro do país, Av. Faria Lima teve endereços alvos de diversas operações policiais contra PCC, fraudes e golpes
atualizado
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A Avenida Faria Lima, principal centro financeiro do país, tornou-se palco de grandes ações policiais contra esquemas de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) e fraudes sofisticadas no último ano. As principais operações no endereço da zona oeste de São Paulo incluem as operações Carbono Oculto e Fluxo Oculto, parte da Compliance Zero, Operação Quasar e a ação que resultou no fechamento de uma “central de fraudes”.
Em agosto do ano passado, a megaoperação Carbono Oculto, por exemplo, teve ao menos 65 alvos localizados na avenida e no entorno do cinturão financeiro do país.
A ação mais recente aconteceu na manhã desta quinta-feira (28/5). A Fluxo Oculto, desdobramento da Carbono Oculto, de agosto do ano passado, colocou na mira empresários e operadores suspeitos de reestruturar um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC dentro do mercado de combustíveis.
O grupo lavava dinheiro proveniente do crime e obtinha altos lucros na cadeia de produção e venda de combustíveis. A ação, realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Receita Federal, cumpriu 59 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Mato Grosso do Sul.
Segundo a Receita, foram identificadas seis novas fintechs que atuavam como bancos paralelos do PCC. Elas formavam um núcleo financeiro usado para compensações entre distribuidoras, postos de combustíveis, empresas e fundos de investimentos ligados à organização.
As seis fintechs movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Já entre 2022 e 2025, uma delas recebeu mais de R$ 1 bilhão em depósitos em espécie, de acordo com a investigação.
Carbono Oculto
Origem da investigação, a Carbono Oculto foi uma das maiores operações policiais da história do país contra o crime organizado. A investigação revelou que o PCC deixou de ser um cartel de narcotráfico para se transformar em um sofisticado conglomerado empresarial.
O foco da operação foi desarticular um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro que conectou postos de gasolina da periferia aos escritórios da Faria Lima. A rede criminosa nacional operava em duas frentes integradas: a primeira focada em fraudes estruturadas no setor de combustíveis e a segunda voltada ao mercado financeiro.
A ação revelou que Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, são considerados os responsáveis por articular o esquema bilionário de fraudes envolvendo o PCC e a Faria Lima.
A dupla está foragida e fechou um acordo de delação premiada com o Ministério Público da Bahia recentemente, após ter o mesmo acordo recusado pela promotoria de São Paulo no início de maio.
Beto Louco é apontado como gestor financeiro do grupo Copape/Aster, que opera a produção e distribuição de combustíveis. Junto do sócio Mohamad Hussein Mourad, o Primo, ele integrava um grupo que dominava toda a cadeia de produção de combustível, desde as usinas de etanol até postos de gasolina por todo o país. Para baratear a fabricação, o grupo adulterava os combustíveis com a adição de metanol.
Compliance Zero
A segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga o banqueiro Daniel Vorcaro e fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, aconteceu em janeiro deste ano. Parte das diligências ocorreu em endereços localizados na Avenida Faria Lima.
O pai, a irmã, o cunhado e um primo de Vorcaro estiveram entre os alvos de buscas, todos suspeitos de envolvimento em operações financeiras fraudulentas ligadas ao Banco Master. A ação foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e resultou no cumprimento de 42 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
Durante as buscas, agentes da Polícia Federal (PF) apreenderam carros importados, incluindo modelos da BMW e Land Rover, além de armas de fogo com munições e relógios de alto valor, bens que agora serão analisados no contexto da investigação patrimonial.
Operação Quasar
Em setembro passado, uma investigação da PF desmontou uma organização criminosa voltada para a lavagem de dinheiro e suspeitas de ligação com PCC. A ação apontou que a Reag Investimentos, uma das maiores gestoras de fundos da Faria Lima, foi a “principal responsável” por ocultar bilhões de reais do grupo investigado.
“Como anteriormente expôs a RFFP, a Reag seria a principal responsável pela ocultação de valores sem origem, que alcançaria bilhões de reais”, diz trecho da decisão que autorizou as ações da PF na Operação Quasar.
Segundo a PF, o grupo usava múltiplas camadas societárias e financeiras, nas quais fundos de investimento detinham participação em outros fundos ou empresas. Entre as estratégias utilizadas, estavam transações simuladas de compra e venda de ativos — como imóveis e títulos — entre empresas do mesmo grupo, sem propósito econômico real.
A corporação também aponta que o dono da gestora Reag Investimentos, João Carlos Mansur, inflou artificialmente seu patrimônio para obter favorecimento comercial.
“Central de fraudes”
Em janeiro deste ano, o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) fechou uma “central de fraudes” instalada na Avenida Faria Lima. Segundo o Deic, a localização da base na região funcionava para dar legitimidade às cobranças fraudulentas.
O esquema operava com uma empresa híbrida, parte dedicada a cobranças legítimas, parte dedicada a cobranças ilegais.
A partir de informações obtidas de maneira ilícita, os criminosos entravam em contato com pessoas alegando recuperação de “créditos podres”. As vítimas, principalmente idosos, eram convencidas a ressarcir valores que não estavam devendo.
“O sucesso era possível devido ao nível de ameaças dos operadores. A estratégia consistia em envio massivo de mensagens simulando principalmente ordens judiciais e bloqueios de CPF. As pessoas eram direcionadas ao atendimento telefônico. Os operadores alegam ser de setores de cobrança, jurídico e do Judiciário. Então os argumentos prometiam penhoras, protestos e bloqueios em benefícios”, informou a polícia.





