Máquina de recordes: Bolsa explode e crava máxima histórica. Dólar cai
Mercado respirou aliviado com recuo de Trump de impor novas tarifas aos países europeus. PIB dos EUA também repercutiu entre os investidores
atualizado
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O dólar encerrou a sessão desta quinta-feira (22/1) em queda firme, em meio ao alívio dos mercados após o recuo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que desistiu de impor novas tarifas comerciais contra países da Europa que não o apoiam em seu objetivo declarado de tomar posse da Groenlândia – região autônoma que pertence à Dinamarca.
Ainda no front externo, os investidores repercutiram a divulgação de uma série de indicadores econômicos nos EUA. O mais importante deles foi a segunda leitura do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano referente ao terceiro trimestre do ano passado, que foi inicialmente divulgado em dezembro de 2025.
Pelo terceiro pregão consecutivo, o Ibovespa, principal indicador do desempenho das ações negociadas na Bolsa brasileira, teve um dia de fortes ganhos, batendo sucessivos recordes e superando, pela primeira vez, a marca dos 177 mil pontos.
Dólar
- Ao final da sessão, a moeda norte-americana recuou 0,67% e foi negociada a R$ 5,284. É o menor patamar de fechamento em dois meses, desde novembro de 2025.
- Na cotação máxima do dia, o dólar bateu R$ 5,326. A mínima foi de R$ 5,281.
- Na véspera, o dólar despencou 1,13%, cotado a R$ 5,32.
- Com o resultado, a moeda dos EUA acumula perdas de 3,78% frente ao real em 2026.
Ibovespa
- O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores do Brasil (B3), disparou durante todo o pregão, engatando um recorde atrás do outro.
- O indicador fechou em forte alta de 2,2%, aos 175.589,35 pontos. É o novo recorde de fechamento da Bolsa brasileira.
- Na pontuação máxima do dia, o Ibovespa cravou 177.741,56 pontos, novo recorde histórico intradiário (durante o pregão). Foi a primeira vez que o índice ultrapassou a marca dos 177 mil pontos.
- No dia anterior, o índice fechou em disparada de 3,33%, aos 171.816,67 pontos.
- Com o resultado, a Bolsa brasileira acumula valorização de 8,75% no ano.
Mercado aliviado com recuo de Trump sobre tarifas
O mercado financeiro respirou aliviado, nessa quarta-feira (21/1), com o recuo do governo de Donald Trump nos EUA sobre a aplicação de novas tarifas comerciais sobre países da União Europeia (UE).
Trump afirmou que não irá impor as tarifas previstas e que definiu a “estrutura” de um futuro acordo envolvendo a Groenlândia e a região do Ártico após uma reunião com o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte.
Segundo o republicano, o entendimento poderá trazer benefícios tanto para os EUA quanto para os países da aliança militar. “Após uma reunião muito produtiva com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, definimos a estrutura de um futuro acordo referente à Groenlândia e, na verdade, a toda a região do Ártico”, escreveu Trump em publicação na rede Truth Social.
“Essa solução, se concretizada, será excelente para os Estados Unidos da América e para todos os países da Otan. Com base nesse entendimento, não imporei as tarifas que entrariam em vigor em 1º de fevereiro”, acrescentou.
Trump já havia sinalizado um recuo na retórica agressiva adotada contra a ilha ártica e países europeus que se opunham ao seu plano. O norte-americano descartou o uso da força para obter o controle da Groenlândia, mas afirmou que exigia “negociações imediatas” para a compra do território pertencente à Dinamarca.
O republicano também informou que novas discussões estão em andamento sobre a chamada “Cúpula Dourada”, iniciativa ligada à Groenlândia, mas não detalhou o conteúdo das negociações. “Mais informações serão disponibilizadas conforme o andamento das discussões”, disse.
A Groenlândia é um território autônomo, mas pertence ao reino da Dinamarca — a política externa e a defesa do território são responsabilidade dinamarquesa. A região é considerada estratégica pelos EUA devido à posição no Ártico.
Há bases militares norte-americanas na região, e Trump alega que é um território “essencial para a defesa dos EUA”. Como parte da comunidade dinamarquesa, a Groenlândia é membro da Otan, assim como os Estados Unidos.
Nesta quinta-feira, líderes europeus fazem uma reunião de emergência, em Bruxelas, na Bélgica, para discutir as ameaças do presidente dos EUA à Groenlândia. O encontro, convocado na última terça-feira (20/1), foi mantido após o líder norte-americano insistir na anexação do território.
Segundo o presidente do Conselho Europeu, António Costa, os líderes do bloco vão tratar da soberania, do apoio à Dinamarca e à Groenlândia e das preocupações com o acordo comercial entre EUA e UE.
Também nesta quinta, a Dinamarca e a Otan negaram que ofereceram parte da soberania da Groenlândia a Trump. Segundo o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, o acordo prevê apenas que membros do bloco poderão intervir no Ártico, onde está localizada a Groelândia, em caso de ameaças à segurança da região.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que “não houve negociação com a Otan ontem sobre soberania”. A porta-voz da organização, Allison Hart, também negou que a soberania tenha sido discutida. De acordo com Hart, Rutte não propôs qualquer compromisso em relação à soberania do território durante a reunião que teve com Trump.
A reunião aconteceu depois do discurso do presidente dos EUA no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Após o encontro, Trump afirmou que foi estabelecida uma estrutura de um futuro acordo que atende os interesses dos EUA e de todos os países membros da Otan.
Trump não detalhou o que foi acordado no encontro, mas indicou que as negociações envolvem questões estratégicas de segurança e presença no Ártico. Após a declaração da porta-voz, Rutte disse que conversou com Trump sobre como a Otan pode garantir a segurança do Ártico.
“Discutimos como garantir que russos e chineses não tenham acesso militar ou à economia da Groenlândia”, concluiu.
Nova leitura do PIB dos EUA vem acima do esperado
Na agenda de indicadores econômicos, o principal destaque desta quinta-feira é a divulgação do resultado do PIB dos EUA no terceiro trimestre de 2025.
A economia dos EUA avançou 4,4% no terceiro trimestre. É o que mostrou a segunda leitura dos dados, divulgada pelo Departamento de Comércio do governo norte-americano.
O resultado veio ligeiramente acima das estimativas de analistas do mercado, que projetavam expansão de 4,3% no terceiro trimestre.
No segundo trimestre de 2025, o PIB dos EUA avançou 3,8%, na base anual (dado revisado). No primeiro trimestre, recuou 0,5%.
De acordo com a primeira leitura, divulgada em dezembro pelo Departamento do Comércio, a economia norte-americana cresceu 4,3% no período entre julho e setembro do ano passado. O resultado veio bem acima das estimativas de analistas do mercado na ocasião, que projetavam expansão de 3,3% no terceiro trimestre.
O dado sobre a atividade econômica é um daqueles levados em consideração para a definição da taxa básica de juros pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano).
Na última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed, em dezembro, o corte nos juros foi de 0,25 ponto percentual, acompanhando as projeções da maioria dos analistas do mercado. Agora, os juros estão no patamar entre 3,5% e 3,75% ao ano.
Foi a terceira redução consecutiva na taxa de juros pelo BC dos EUA. Na reunião anterior do Fed, em setembro, o corte também havia sido de 0,25 ponto percentual.
A votação não foi unânime. Stephen Miran, novo integrante do Fed, indicado por Donald Trump, votou por um corte maior, de 0,5 ponto percentual, enquanto Jeffrey R. Schmid e Austan D. Goolsbee votaram pela manutenção da taxa de juros.
O próximo encontro da autoridade monetária para definir a taxa de juros, o primeiro de 2026, está marcado para a semana que vem, nos dias 27 e 28.
A taxa básica de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação. Quando a autoridade monetária mantém os juros elevados, o objetivo é conter a demanda aquecida, o que se reflete nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Assim, taxas mais altas também podem conter a atividade econômica.
Análise
De acordo com Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, a sessão foi “marcada por maior apetite ao risco”. “A suavização da retórica geopolítica de Donald Trump em relação à Groenlândia, em conjunto com a suspensão de tarifas contra países europeus previstas para fevereiro, figuram entre os principais vetores externos para o bom humor observado nas bolsas globais”, analisa.
“Também houve divulgação de dados econômicos relevantes nos EUA: o PIB veio acima do esperado, reforçando a leitura de atividade ainda aquecida, enquanto o PCE (inflação do consumo e medida de inflação preferida do Fed) ficou em linha com o consenso, não gerando impacto mais amplo nos preços dos ativos hoje”, explica Shahini.
“No mercado doméstico, o cenário segue marcado por forte fluxo estrangeiro direcionado a ativos brasileiros, que atuou como o principal vetor de baixa sobre o dólar na sessão. O Brasil permanece como uma das moedas com maior ‘carry’ entre os emergentes, fator que, combinado a um ambiente global construtivo para risco, segue favorecendo a valorização do real frente ao dólar esse ano.”
Para João Duarte, sócio da One Investimentos, o desempenho do dólar reflete “um ambiente global claramente mais favorável ao risco”. “O principal gatilho veio do exterior. Em Davos, o presidente Donald Trump adotou um tom bem mais conciliador, descartando o uso de força para assumir a Groenlândia e recuando das ameaças de tarifas adicionais contra a Europa. A leitura do mercado é de redução do risco geopolítico imediato, o que desencadeou uma rotação para ativos de maior risco, derrubando o dólar globalmente”, explica.
Duarte observa ainda que o enfraquecimento do dólar também “é reforçado pelo pano de fundo monetário”. “A ata do Banco Central Europeu indicou uma economia mais resiliente e expectativas de inflação bem ancoradas perto de 2%, fortalecendo o euro e pressionando ainda mais a moeda americana. Além disso, o mercado seguiu atento aos dados de inflação dos EUA (PCE), que podem consolidar a visão de juros mais baixos à frente”, afirma.
“No Brasil, o movimento é amplificado pelo forte fluxo estrangeiro. O apetite por ativos locais impulsionou o Ibovespa a novas máximas históricas, enquanto o diferencial de juros continua extremamente favorável ao real. A combinação de dólar globalmente fraco e melhora do sentimento externo explica a apreciação mais intensa da moeda brasileira hoje”, conclui Duarte.
Segundo Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, “o vento ainda é favorável, pelo menos até a reabertura do Congresso, em março, com o investidor estrangeiro se voltando para o Brasil”. “A truculência de Donald Trump tem tornado os títulos do Tesouro norte-americano menos atrativos. Então, se você tem gente que ganhou muito dinheiro no mercado querendo dar uma diversificada, forma-se o cenário perfeito para um mercado barato, como o brasileiro, para atrair esses recursos”, afirma.
“O fator técnico tem propiciado a alta e, se acompanhado de uma queda de juros agora em março, uma atividade crescente e uma agenda eleitoral que não precisa necessariamente resolver a agenda fiscal, mas que traga a discussão do equilíbrio fiscal, temos tudo para um ano positivo no Brasil. Talvez não tanto quanto o ano passado, mas um ano positivo por aqui para os ativos de renda variável”, projeta Cima.
