Bancos credores apresentam nova proposta para reestruturação da Raízen
Proposta preveria a utilização de 30% dos recursos advindos da venda dos ativos da Raízen na Argentina para o abatimento da dívida
atualizado
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Bancos credores da Raízen, um dos gigantes do agronegócio brasileiro no setor de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis, apresentaram uma proposta à empresa para o abatimento de sua dívida, atualmente estimada em R$ 65 bilhões. As informações são da agência Bloomberg.
Maior empresa de biocombustíveis do país, a Raízen é fruto da joint venture entre a brasileira Cosan, do bilionário Rubens Ometto, e a Shell, a antiga Royal Dutch Shell, multinacional petrolífera com sede em Londres. Joint venture é um modelo de colaboração empresarial que consiste na união de duas ou mais empresas com o objetivo de executar um projeto.
Em fevereiro deste ano, a Raízen protocolou aquele que é, hoje, o maior pedido de recuperação extrajudicial em curso no Brasil. O objetivo da medida é justamente a renegociação das dívidas da empresa.
Entenda
- Recuperação extrajudicial é um instrumento jurídico que permite a uma empresa que passa por dificuldades financeiras negociar diretamente com seus credores para reestruturar suas dívidas fora do sistema judicial tradicional.
- Trata-se, em linhas gerais, de uma alternativa mais rápida e menos onerosa do que a recuperação judicial, que pode ser homologada pelo juiz para conferir segurança jurídica ao acordo.
- A recuperação judicial, por sua vez, é um processo que permite às organizações renegociarem suas dívidas, evitando o encerramento das atividades, demissões ou falta de pagamento aos funcionários.
- Por meio desse instrumento, as empresas ficam desobrigadas de pagar aos credores por algum tempo, mas têm de apresentar um plano para acertar as contas e seguir em operação.
A proposta dos bancos credores
De acordo com a Bloomberg, a proposta dos bancos credores à Raízen preveria a utilização de 30% dos recursos advindos da venda dos ativos da companhia na Argentina para o abatimento da dívida.
As instituições financeiras não detalham qual seria o tamanho do aporte dos sócios na empresa. Na semana passada, os investidores que possuem títulos de dívida emitidos pela empresa pediram que os sócios fizessem uma injeção de cerca de R$ 8 bilhões no capital da Raízen.
Ainda segundo a Bloomberg, os bancos e os investidores propõem ficar com até 90% das ações da companhia em troca de 45% de sua dívida. Além disso, os bancos credores teriam passado a defender a saída do empresário Rubens Ometto da presidência do Conselho de Administração da Raízen, cargo que ocupa desde 2011.
Até o momento, os bancos credores da Raízen, como Bradesco, Itaú, Santander e Banco do Brasil, não se manifestaram oficialmente sobre o assunto. Raízen, Shell e Cosan também não se posicionaram.
“Incerteza significativa”
Em fevereiro, a Raízen informou, em suas demonstrações financeiras do terceiro trimestre da safra 2025/26, a presença de eventos e circunstâncias que “indicam a existência de incerteza significativa quanto à continuidade operacional da companhia”. A ressalva foi feita no Anexo XIII do relatório de resultados.
De acordo com a companhia, tal incerteza era resultado do fato de a “estrutura de capital permanecer pressionada pelo nível de endividamento e pelos respectivos encargos financeiros”. No período de nove meses encerrado em 31 de dezembro de 2025, a Raízen registrou prejuízo de R$ 19,8 bilhões, superando em mais de 1.000% as perdas de R$ 1,66 bilhão contabilizadas em igual intervalo de 2024/25. O patrimônio líquido ficou negativo em R$ 1,1 bilhão.
Naquele trimestre, o prejuízo líquido ficou em R$ 15,65 bilhões, ante perdas de R$ 2,57 bilhões no mesmo período da safra anterior. A variação negativa foi de 508,6%. A dívida líquida cresceu 43,4%, alcançando R$ 55,3 bilhões.
Havia algum tempo, portanto, que a possibilidade de recuperação extrajudicial rondava o mercado. Gigante dos biocombustíveis, a continuidade da operação da companhia preocupava tanto o governo brasileiro, pela dimensão da empresa no mercado, como a Shell, que tem na Raízen parte substancial de seus planos de energia limpa e, no Brasil, um dos mercados mais importantes para a petrolífera britânica.
O que diz a Raízen
De acordo com a Raízen, o prejuízo bilionário foi impactado pelo “impairment” de R$ 11,1 bilhões no quarto trimestre do ano passado, em função da piora do crédito e do rebaixamento de notas de classificação por parte de algumas das principais agências de risco.
“Impairment” é um procedimento contábil que verifica se o valor contábil de um ativo excede seu valor de recuperação, garantindo que bens não sejam superavaliados no balanço. Ele é feito quando o valor de mercado ou uso de um ativo cai abaixo do registrado, exigindo um ajuste de redução.
Segundo a Raízen, isso “decorreu da revisão de procedimentos contábeis aplicáveis às premissas utilizadas nos testes de recuperabilidade de determinados ativos – incluindo tributos diferidos e a recuperar, ágio sobre rentabilidade futura e outros ativos não financeiros”.
“Tais provisões não possuem efeito caixa e poderão ser futuramente revertidas à medida que as circunstâncias macroeconômicas da indústria melhorem e a companhia equacione sua estrutura de capital”, afirmou a Raízen, à época.
A companhia informou, ainda, que “continua operando no curso normal de seus negócios” e reforçou “o compromisso com a continuidade regular das operações e na manutenção da relação com nossos parceiros de negócios – clientes, revendedores e fornecedores, ainda mais essenciais neste período”.
Ações
Diante desse quadro, as ações da Raízen negociadas na Bolsa de Valores do Brasil (B3) se desvalorizaram mais de 60% em 12 meses e passaram a ser negociadas a centavos. A empresa também perdeu sua classificação de crédito de investimento seguro das principais agências avaliadoras de risco.
No pregão da última sexta-feira (17/4), as ações da Raízen fecharam em queda de 1,89%, cotadas a R$ 0,52.
