Com piora da crise, Raízen enfrenta represália de credores e parceiros
Pedido de recuperação extrajudicial da empresa, entregue à Justiça na quarta (11/3), elenca ao menos 7 pontos que compõem a crise do grupo
atualizado
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O pedido de recuperação extrajudicial (RE) da Raízen, o maior em curso no país, foi fundamentado em pelo menos sete pontos que traçam uma espécie de anatomia da crise do grupo, que é líder na produção de açúcar e etanol no Brasil. Todos os problemas enfrentados pela companhia foram expostos no documento de RE encaminhado à Justiça, na quarta-feira (11/3).
De acordo com a empresa, uma joint venture entre a Shell e da holding brasileira Cosan, houve um primeiro momento de pesados investimentos na expansão dos negócios. Esses aportes, no entanto, foram azedados com a piora progressiva do cenário macroeconômico tanto no Brasil como em outros países em que a Raízen atua, caso da Argentina.
Isso fez com que o alto endividamento passasse a conviver com juros elevados. A situação agravou-se com a queda nas margens de lucro e na geração de caixa. Além disso, eventos climáticos provocaram a quebra de safras de cana-de-açúcar.
A dívida, nesse quatro, disparou. Ela superou os R$ 65 bilhões, sendo R$ 13 bilhões com vencimento nos próximos 24 meses. O pedido de RE também destaca que credores e parceiros da Raízen começaram a adotar medidas de corte, restrição e/ou encarecimento das linhas de crédito anteriormente concedidas, no momento da expansão. Daí, fechou-se o cerco em torno do balanço do grupo, agravado por prejuízos sucessivos. Veja, a seguir, os principais pontos que ergueram a crise da Raízen, segundo o pedido de recuperação extrajudicial.
1.Expansão acelerada
Na petição à Justiça, os advogados da empresa indicam que o Grupo Raízen implementou uma pesada estratégia de expansão, com investimentos expressivos em aquisições e na implantação de fábricas de biocombustíveis avançados, o etanol de segunda geração (E2G).
Nesse contexto de aportes, a companhia destacou duas aquisições. Uma delas foi a compra do negócio de distribuição de combustíveis na Argentina, realizada em 2018. A outra foi a da Biosev, em 2021, que, à época, era a segunda maior empresa brasileira do segmento de etanol, açúcar e bioenergia (EAB, no jargão), atrás somente da própria Raízen.
Houve ainda a compra da planta de lubrificantes da Shell no Brasil e da participação na distribuição de combustíveis no Paraguai. Por fim, a Raízen formou uma joint-venture com a FEMSA para explorar o segmento de lojas de proximidade e conveniência, além da expansão em atividades no setor de energia elétrica. “Toda essa estratégia exigiu investimentos substanciais e elevou os níveis de endividamento e alavancagem”, diz o o pedido de recuperação extrajudicial.
2. Aumento da dívida
Tais decisões também resultaram no aumento do endividamento e na consequente elevação da alavancagem do grupo. Elas, contudo, foram “tomadas em contexto macroeconômico substancialmente mais favorável do que o atual”, destaca o texto.
Desde então, o quadro mudou. Verificou-se relevante deterioração das condições econômicas no Brasil e em outros países em que o grupo atua, notadamente na Argentina, em meio à escalada nacional e global das taxas de juros e ao agravamento dos indicadores macroeconômicos.
3. Juros altos
“Nesse novo cenário, a manutenção da taxa básica de juros em patamares superiores a 12% ao ano, por pelo menos 20 meses, alcançando 15% ao ano, nos últimos oito meses, elevou de forma significativa o custo financeiro da dívida”, acrescenta o pedido. Essa condição teria comprometido a “geração de caixa e impedindo, ao menos temporariamente, a redução orgânica do nível de endividamento”, diz a empresa.
Na Argentina, destaca o documento, “a inflação persistentemente elevada (superior a 40% ao ano) e a volatilidade macroeconômica resultaram em desafios severos, pressionando custos operacionais e toda a dinâmica de precificação dos produtos”.
4. Vencimentos curtos
A empresa alega que, como consequência desses fatores, na safra 2024/2025, a Raízen divulgou prejuízo acumulado de R$ 4,2 bilhões. Na safra 2025/2026, o prejuízo acumulado até o momento está na ordem de R$ 18,4 bilhões.
Hoje, a dívida bruta consolidada do grupo Raízen é de R$ 65,14 bilhões. “Embora o perfil de vencimento das obrigações financeiras seja majoritariamente de longo prazo (com período médio de 7,6 anos em dezembro/2025), o elevado nível de endividamento impõe pressão relevante de juros e amortização, estimando-se desembolso de aproximadamente R$ 13 bilhões já nos próximos 24 meses, apenas para amortização da dívida bancária/financeira.”
5. Margens e eventos climáticos
Além disso, houve redução relevante de margens (EBITDA). No agregado, verificou-se retração de 12% no EBITDA da Safra 2025/2026 em relação à Safra 2024/2025, principalmente em razão de eventos climáticos severos no Centro-Sul — redução de chuvas, estresse hídrico, 17 temperaturas elevadas e queimadas sem precedentes — que provocaram quebra de safra. Isso além da queda da produção de cana-de-açúcar (–4,4% no Sudeste e –3,9% no Centro-Oeste). Paralelamente, a retração dos preços globais de commodities, o aumento da produção asiática de açúcar e o crescimento do etanol de milho no Brasil pressionaram adicionalmente as margens, reforçando um viés baixista predominante no mercado.
6. Geração de caixa
A redução dos resultados e o aumento substancial da despesa financeira comprometeram a geração de caixa. “Para fins de perspectiva, entre abril de 2025 e dezembro de 2025 a companhia consumiu R$ 7,2 bilhões de caixa para manter o curso normal de suas operações”, diz a empresa. “Isso ocasionou um aumento da alavancagem do grupo ao maior patamar histórico (com um múltiplo de alavancagem da ordem de 5,3x).”
7. Represálias
Não fosse o bastante, os credores e parceiros da Raízen – tanto financeiros quanto operacionais –, cientes da sua atual situação econômico-financeira, já começaram a adotar medidas de corte, restrição e/ou encarecimento das respectivas linhas de crédito e financiamento originalmente concedidas. Isso levou o grupo à utilização de ainda mais caixa para manter o curso regular de seus negócios, ampliando prejuízos operacionais, deteriorando liquidez e aprofundando o fluxo de caixa negativo.
As agências de rating (Moody’s, S&P e Fitch), além disso, rebaixaram suas classificações de risco de crédito dos títulos de emissão do Grupo Raízen (seu rating corporativo e dos diversos títulos emitidos, como debêntures) no fim de 2025. Elas também mantiveram os títulos sob monitoramento especial (Credit Watch), indicando que revisitariam o rating caso houvesse qualquer alteração nos resultados.
No pedido de recuperação extrajudicial, a empresa alega que, mesmo diante de um cenário desafiador, o grupo detinha, no fim de 2025, R$ 17,3 bilhões em caixa e aplicações, sendo 90% com liquidez imediata. “O que reforça a sua plena viabilidade econômico-financeira para implementar a reestruturação ora pretendida”, afirma o texto.
