O desprezo eterno pela Rodoviária, a obra seminal de Brasília

A Rodoviária é o marco zero, o cruzamento dos eixos. É onde a Brasília periférica se apropria do Plano Piloto, onde ela é mais brasileira

Arquivo Gabriel Gondim/BrasíliaArquivo Gabriel Gondim/Brasília

atualizado 27/06/2019 14:22

Se Brasília nasceu “do gesto primário de quem assinala um lugar e dele toma posse”, esse gesto, lugar e posse é a Rodoviária. Síntese de Brasília e do Brasil, ferida aberta no epicentro da capital, mistura de arquitetura, urbanismo e vida, a Rodoviária é o próprio sinal da cruz de Lúcio Costa. É o lugar onde o Brasil real toma posse do Brasil idealizado pelos modernos.

A Rodoviária é o marco zero, o cruzamento dos eixos, lugar de chegada e partida. É onde a Brasília periférica se apropria do Plano Piloto. É onde a utopia se realiza de seu modo caótico, imperfeito, sofrido, desprezado, injusto, como o Brasil.

Engenhosa e lírica, simbólica e funcional, a Rodoviária são várias: pista, viaduto, terminal de ônibus, shopping, feira, praça, estacionamento. É o Buraco do Tatu e o Salão de Passos Perdidos. O primeiro é um nome que a população inventou; o segundo, tão poético, está no desenvolvimento do projeto, segundo o Inventário Nacional da Plataforma Rodoviária, feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2002.

(O Salão dos Passos Perdidos são os dois pátios do piso inferior, o leste e o oeste, nos quais ficam os pontos de ônibus e os muitos e diversos comércios. Dele, chega-se também à estação do metrô.)

As fissuras estruturais da Rodoviária começaram a surgir já nos primeiros anos após a inauguração da obra, a 12 de setembro de 1960, dia do aniversário de Juscelino. Feita às pressas, como tudo o mais na cidade, a Plataforma Rodoviária sempre avisou a quem se dispusesse a ouvi-la que precisava ser tratada como Brasília trata o aeroporto.

O destino dado aos dois é tão cruelmente diferente tal qual o tratamento que o país historicamente dá aos ricos e aos pobres. O aeroporto de Brasília é considerado um dos melhores do país; a Rodoviária, uma das piores.

Há estudos, os mais detalhados, sobre as feridas estruturais da Rodoviária. Um deles é o Inventário Nacional feito em 2012 pelo Iphan. Nele, revela-se o que poucos sabem: que a proposta inicial de Lúcio Costa era o de uma grande laje contínua e completa, conectando os setores centrais (diversões, comércio, bancos, culturais).

“Porém, devido ao elevado custo que teria a execução dessa proposta, acabou-se adotando uma solução vazada, em “H”, cujo projeto de adaptação ficou a cargo da Novacap. Essa adaptação acabou resultando em uma solução “mais elegante” do que a ideia inicial de laje contínua, permitindo maior iluminação e ventilação”, relata o Inventário. Lúcio Costa, com sua rara capacidade de reconhecer que a emenda ficou melhor do que o soneto, comenta em Brasília Revisitada: “O projeto desenvolvido pela Divisão de Urbanismo (da Novacap) resultou mais elegante e arejado”.

A construção da Rodoviária deu-se como o nascimento do mundo – tudo de uma só vez. Para que a cidade surgisse, era preciso demarcar o marco zero, calcular o exato lugar onde a borboleta (ou o avião, como queiram) pousaria em relação aos pontos cardeais, ao nascer e ao pôr-do-sol, ao relevo do terreno e às chapadas que o contornam.

Feitos os cálculos, demarcado o chão, foi preciso cavá-lo em 10 metros de profundidade – movimento colossal de terra, que foi levada para a Praça dos Três Poderes, como se Deus mudasse o lugar de uma montanha para que a cidade pudesse finalmente pousar sobre o cerrado.

A Rodoviária foi o mais intenso casamento do urbanismo com a arquitetura, de Lúcio Costa com Oscar Niemeyer. As equipes dos dois trabalharam simultânea e conjuntamente para desenvolver o projeto viário dos eixos e dos viadutos e o projeto arquitetônico do terminal rodoviário.

Invenção, capacidade, compromisso, soberania – tudo junto e misturado.

As ruínas da Plataforma da Rodoviária são o retrato trágico das ruínas do Brasil.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

Últimas notícias