Saiba o que são as escalas que definem a identidade urbana de Brasília

Brasília tem as quatro escalas urbanas: a escala monumental, a residencial, a gregária e a bucólica. Nelas não se pode mexer

Cristiano Gomes/Especial para o MetrópolesCristiano Gomes/Especial para o Metrópoles

atualizado 02/04/2019 9:46

É outra a medida das coisas e dos corpos nesta cidade que nos abriga. É uma medida cristalizada em volumes e vazios que não podem ser alterados, a menos que um maluco – e eles estão à solta – decida desobedecer às leis que protegem o tombamento do Plano Piloto.

Se o Rio tem o mar e as montanhas, Brasília tem as quatro escalas urbanas, os quatro modos de ocupar o espaço acima do chão e abaixo do céu. São elas: a escala monumental, a residencial, a gregária e a bucólica. Nelas não se pode mexer, caso se queira respeitar a lei e a condição de patrimônio da humanidade.

(Quando da conquista do título, a Unesco considerou Brasília um dos maiores feitos da história do urbanismo).

Para começar do começo e de um modo bem simplificado, em urbanismo/arquitetura escala é a proporção do corpo humano em relação ao espaço, seja ele construído ou não. É uma medida objetiva, mensurável, mas não apenas. Ela é influenciada pela cultura, pelo modo como o ser humano lida com a natureza, as divindades e as cidades de seu tempo.

Lucio Costa diz isso muito bem: “[…] a chamada escala humana é coisa relativa. Um italiano da Renascença, por exemplo, se sentiria diminuído se a porta de sua casa tivesse menos de cinco metros de altura”. A citação é do arquiteto Matheus Gorovitz em Brasília, uma questão de escala, página 53.

A palavra “escala”, tão presente no vocabulário brasiliense-apaixonado, não aparece no Memorial Descritivo do plano-piloto de Brasília, (plano-piloto em caixa baixa e com hífen, porque àquela altura não era nome de um bairro, era um substantivo comum).

É como se o criador só nomeasse as partes substantivas da criação depois de tê-las criado. Elas estavam lá, existiam como realidade, mas não haviam sido nomeadas. Então, eram a alma ainda não revelada de Brasília.

Até onde se sabe, Lucio Costa só deu nome à coisa em 1961, numa preciosa entrevista ao repórter Omar Abbud, do Jornal do Brasil, publicada em 8 de novembro.

Lá, ele diz: “É o jogo das três escalas que vai caracterizar e dar sentido a Brasília. A escala residencial ou cotidiana; a dita escala monumental, em que o homem adquire dimensão coletiva, a expressão urbanística desse novo conceito de nobreza. Finalmente, a escala gregária, onde as dimensões e o espaço são deliberadamente reduzidos e concentrados a fim de criar clima propício ao agrupamento. Poderemos ainda acrescentar mais uma quarta escala, a escala bucólica das áreas abertas destinadas a fins de semana lacustres ou campestres.”

Estava nomeada a alma da cidade: quatro escalas que compõem um só corpo.

A escala monumental e a residencial são fáceis de identificar: a Esplanada dos Ministérios e as superquadras, respectivamente. As outras duas, a gregária e a bucólica, são as que nos juntam numa convivência coletiva (ou pelo menos deveriam fazê-lo).

A gregária: o setores Comercial, Bancário, de Autarquias, Hospitalar e a Rodoviária, mistura de arquitetura e urbanismo, de estrada e edifício, de comércio e rua. É ela, a Rodô do Plano, que faz a ponte Plano-Piloto/cidades-satélites.

A bucólica: os parques, as áreas verdes, o lago, os gramados, o espraiamento às vezes telúrico, não poucas vezes divino, e muitas vezes desumano. Extensos vazios que nos proíbem de ter contato mais próximo com gente de todo o tipo, a toda hora, em qualquer lugar.

Quando Lucio Costa nomeou e distinguiu as quatro escalas, deu a deixa que seria fundamental para que Brasília conquistasse o título de patrimônio da humanidade. Era a primeira cidade moderna a ser tombada – e como tombar uma cidade, que é um corpo essencialmente vívido, mutante, que vai se sedimentando no tempo? Era o mesmo que a transformar numa ruína sem destroços. Decidiu-se, então, tombar as escalas, ou seja, proteger o volume dos edifícios, a proporção entre eles, os espaços vazios, a alma da identidade urbana brasiliense.

A alma de Brasília está no corpo de Brasília.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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