Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Saiba quem fez o que nesta linda cidade

Vira e mexe alguém diz ou escreve que Oscar Niemeyer é o criador de Brasília. Essa confusão já foi maior, mas ainda há quem nem saiba quem foi Lucio Costa. No máximo, é o nome de um bairro do Guará. Lucio e Oscar deveriam estar na carteira de identidade de cada um dos 3,5 milhões […]

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atualizado 20/02/2019 22:59

Vira e mexe alguém diz ou escreve que Oscar Niemeyer é o criador de Brasília. Essa confusão já foi maior, mas ainda há quem nem saiba quem foi Lucio Costa. No máximo, é o nome de um bairro do Guará.

Lucio e Oscar deveriam estar na carteira de identidade de cada um dos 3,5 milhões de brasilienses, dos nascidos e dos que assim se consideram.

Lucio é cinco anos mais velho que Oscar. Nasceu em 1902; Oscar, em 1907. Embora tenha nascido em Toulouse, na França, numa viagem do pai a trabalho, Lucio e família sempre moraram no Rio de Janeiro. Oscar também.

Oscar foi estagiário de Lucio. Chegou ao escritório do já consagrado arquiteto e pediu para trabalhar de graça. Não demorou para Lucio perceber o extraordinário talento do novo ajudante.

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Lucio era reservado, cerimonioso. Oscar, insolente. Adorava um palavrão.

Juscelino queria que Oscar fosse o inventor da nova capital do Brasil. Oscar preferiu fazer os palácios e sugeriu um concurso para brasileiros com júri composto de estrangeiros e brasileiros.

Lucio fez o projeto do Plano Piloto, escolhido num concurso com 26 participantes.

Lucio veio apenas uma vez ao canteiro de obras de Brasília, dias depois de ser anunciado o vencedor do concurso. Veio com Juscelino. O encontro ficou registrado numa única foto dos dois, escorados numa placa onde se lê “Avenida Monumental”.

Oscar fechou o escritório para se dedicar inteiramente à construção da capital. Como tinha medo de avião, fez dezenas de viagens de carro ao Rio. Numa delas, sofreu acidente e teve que ficar parado durante algum tempo.

Lucio indicou o engenheiro Augusto Magalhães Filho para ser o seu representante nas obras da capital.

Oscar coordenou a equipe de jurados e pode-se dizer que deixou transparecer o desejo de que Lucio fosse o vencedor.

Oscar fez o Palácio da Alvorada antes mesmo de se saber quem venceria o concurso do Plano Piloto.

Os palácios e o Congresso são de Oscar; a Rodoviária, a Torre de TV e a Universidade de Brasília (UnB) são de Lucio (mas as edificações são de variados arquitetos).

A Catedral, o Teatro Nacional, a Igrejinha, os ministérios são de Oscar. A localização e o volume do Conjunto Nacional e do Conic são ideias de Lucio, incluídas no projeto do Plano Piloto.

As superquadras, de Lucio. A Praça dos Três Poderes também.

A Praça do QG do Exército é de Oscar.

Oscar era filiado ao Partido Comunista Brasileiro, amigo de Luis Carlos Prestes, fundador do PCB.

Oscar foi intimidado pela ditadura militar de 1964. Sua revista, a Módulo, especializada em arquitetura, foi empastelada, e ele se exilou em Paris por algum tempo.

Lucio se considerava humanista. Quando seu genro foi preso pela ditadura militar de 1964, veio a Brasília, discretamente, para tentar libertar o então marido de Maria Elisa Costa.

Os ministérios são de Oscar; a Esplanada é de Lucio.

Lucio e Oscar eram servidores da Novacap, a empresa estatal criada para construir a capital.

Lucio deixou em conta bancária o prêmio do concurso e, quando foi resgatá-lo, valia muito pouco.

Oscar não aceitou receber da Novacap nada além do salário devido.

Nem Lucio nem Oscar vieram para a inauguração de Brasília. Oscar alegou que não gostava da pompa das grandes cerimônias. Lucio disse que não viria sem a mulher, Leleta, morta seis anos antes em acidente de carro. Lucio estava ao volante.

Lucio ganhou lotes no Lago Sul, onde queria construir casas para as duas filhas, Maria Elisa e Helena. As Casas de Brasília nunca saíram do projeto.

Oscar morou numa das casas da W3 Sul, unidades que ele projetou. E depois morou numa casa no Park Way, também obra dele. A casa hoje pertence à UnB.

Clarice Lispector, sobre Lucio e Oscar:

“Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério.”

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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