O Alvorada é solene, despretensioso, audacioso, lírico. É nosso

A sinuosidade das colunas do Alvorada é a expressão de nossa mestiçagem, do quanto somos muitos, do quanto somos negros, índios, portugueses

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 24/01/2019 17:19

Numa terça-feira desses estranhos tempos, fui ao Palácio da Alvorada levar uma turista amiga. A primeira novidade é que, para se aproximar da área externa, é preciso apresentar documentos. “É o controle”, explica o soldado bem-educado, depois que eu reclamo que há cinco governos visito o palácio e é a primeira vez que tenho de me identificar para entrar na área pública. Os dois acessos ao palácio estão fechados por sinalizadores gigantes de trânsito. Uma muralha laranja (a cor do equipamento, que fique claro).

Ensaiei um odiozinho silencioso, que se dissolveu por inteiro quando vi ao longe a silhueta diáfana de algo que tocava o cerrado com a suavidade de um pássaro de asas brancas em fundo azul. Seria uma miragem para os olhos e o coração já cansados deste janeiro que ainda nem terminou. Ou, quem sabe, a projeção em tamanho real da pintura de um edifício que só poderia existir em sonho, tão etérea é a sua composição. Talvez seja uma música feita em concreto, vidro, mármore e um sentido de brasilidade hoje esmaecido.

Se eu for 500 vezes ao Alvorada, 500 vezes vou pela primeira vez.

É Oscar Niemeyer em sua mais suprema inspiração, técnica e percepção de Brasil, de sua arquitetura vernacular, de cerrado e de céu. Quando desenhou o Palácio da Alvorada, o arquiteto deveria estar tomado pela ideia de que estava criando um palácio para representar com altivez (e sem ostentação), com leveza (e sem arrogância), com invenção (e sem espetacularização), o país que, naquela segunda metade dos anos 1950, estava esperançoso e feliz.

Era Oscar sendo o mais perfeito Oscar. É o Brasil mostrando a si mesmo e ao mundo o quanto é inventivo, lírico. O quanto sabe miscigenar influências estrangeiras com a brasilidade que nos constitui. As colunas brancas (seriam garças de mãos dadas?) sustentam a laje com a ponta dos dedos – é o avarandado dos casarões das fazendas do período colonial brasileiro. O azul das persianas é o reflexo do azul celeste. E as colunas brancas, as nuvens fincando pernas no cerrado.

O arquiteto Claudio Queiroz identifica nas colunas do Alvorada as largas ancas da mulher brasileira. “É a beleza plástica apenas que atua e domina, como uma mensagem permanente de graça e poesia”, escreveu Niemeyer em ‘Minha experiência em Brasília’.

Nas duas vezes que entrei no Palácio da Alvorada (uma como repórter, outra como turista em visitas programadas), nas duas vezes, me debulhei em lágrimas. Tudo é muito forte: os salões abertos, a escada vermelha (quando vermelho não era a cor do PT nem do comunismo nem de qualquer delírio semelhante), a parede dourada, a economia de cortes internos (nunca vi paredes tão discretas), o volume vazado que nos deixa do lado de dentro e do lado de fora, sob a natureza e sob a civilização.

O Alvorada é altivo, solene, despretensioso, audacioso, lírico, tudo ao mesmo tempo. Tem técnica e tem arte e expressa o talento brasileiro. O Palácio da Alvorada é a obra-prima de Niemeyer, diz a professora Sylvia Ficher, da Arquitetura da UnB.

A sinuosidade das colunas do Alvorada têm algo da pureza de Mies Van der Rohe e da poética de Le Corbusier, “mas não se vê o peso do Le Corbusier, nem a frieza do Van der Rohe”, diz Claudio Queiroz. Ela é a expressão de nossa mestiçagem, do quanto somos muitos, do quanto somos negros, índios, portugueses.

Naquela terça-feira, a terceira de janeiro de 2019, saí do Palácio da Alvorada trazendo comigo o melhor do meu país, que tem muitos outros melhores. É deles que devemos nos alimentar.

*As declarações de Sylvia Ficher e Claudio Queiroz foram retiradas de um livrinho chamado ‘Palácio da Alvorada’, majestosamente simples, de Severino Francisco.

** Essa crônica foi originalmente publicada na revista Roteiro deste janeiro. Mas gostei tanto que pedi pra me plagiar no Metrópoles.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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