Nem no céu nem na arquitetura. A mais bela Brasília está sob nossos pés

Juntar chão e cidade deve ter sido “o mais intenso dos compromissos” de Lucio Costa, diz a professora Maria Manuel Oliveira

Arquivo Público do DFArquivo Público do DF

atualizado 01/02/2019 16:44

O banqueiro francês girou em torno do próprio corpo, parou e disse ao anfitrião: “Parece que o terreno estava esperando pela cidade.” Da Praça do Cruzeiro, Henri Burnier e Israel Pinheiro observavam a vastidão de cerrado onde Brasília começava a ser construída. Meio século antes, outro francês, o botânico Auguste Glaziou, foi igualmente tomado pelo impacto da paisagem. E anteviu um lago artificial onde, muitas eras geológicas antes, deve ter havido um lago natural, o Paranoá.

Muito se festeja (e se critica) o urbanismo e a arquitetura do Plano Piloto, sem saber que a cidade só é o que é porque algum deus da geologia desenhou um único lugar para uma única cidade, o encaixe perfeito de natureza e civilização, continente e conteúdo, terreno e urbe.

Lucio Costa percebeu a grandeza e a singularidade do sítio onde a nova capital deveria pousar e obedeceu ao desejo divino de deitar a cidade onde a topografia assim pedia. Era mais que um pedido, era quase uma súplica tanta era a solidão daquele lugar escondido dentro de um anel de chapadas.

É por isso que o horizonte está sempre ao nosso alcance, salvo nos lugares onde a arquitetura ostentatória nos rouba a paisagem. Como se ondas de um mar pétreo nos circundasse o tempo todo.
Para os dois franceses, não foi difícil perceber que aquela cratera singular rodeada de altiplanos esperava pela cidade. (Singular porque, embora seja cratera em relação às chapadas, ela é estufada, como uma bacia grande de boca para cima contendo uma bacia menor emborcada).

Muito tempo depois, quando Brasília já era o que é, a portuguesa Maria Manuel Oliveira, professora da Universidade do Minho, desviou sua atenção da arquitetura dos palácios, da conformação das superquadras, do cruzamento dos eixos, para algo que só se vê “em voo de pássaro”, como escreveu em ‘A invenção de Brasília: modelar o chão’.

“O desenho amarra-se, muito intencionalmente, à morfologia do terreno: para além do Eixo Residencial [o Eixão] que, em arco, acompanha as curvas de nível, o Eixo Monumental implanta-se exatamente sobre a cumeeira do esporão que conforma a orografia local”. Ou seja: o Eixo Monumental foi desenhado no divisor de águas (na parte mais alta do terreno) e o Eixão acompanha o declive do sítio.

Como se o Plano Piloto chegasse no meio da noite e se deitasse sobre o solo quase silenciosamente, sem muitos sustos, sem muita movimentação de terra, sem ter de cavar grandes buracos nem fazer grandes aterros.

Houve, sim, alterações na morfologia do terreno, mas elas foram ao mesmo tempo volumosas e sutis, como tudo o que fez Lucio Costa.

Para que da Rodoviária se pudesse ver nitidamente a Praça dos Três Poderes, quase como se os símbolos da República fossem ofertados ao povo, para que houvesse esse efeito, se fez um terrapleno oito metros acima do nivelamento original. Ou seja, uma grande obra de terraplenagem para diminuir a inclinação que ia da Torre de Tevê ao Lago Paranoá.

Portanto, a mais sofisticada das qualidades do projeto de Lucio Costa talvez seja a mais imperceptível. A naturalidade com que o Plano Piloto se encaixa no terreno foi “minuciosamente controlada”, escreve Maria. Juntar chão e cidade deve ter sido “o mais intenso dos compromissos” de Lucio Costa, diz a professora.

Igualmente encantado com a maestria de Lucio Costa, o arquiteto Antônio Carlos Carpintero, professor da Universidade de Brasília, acredita que o urbanista tenha sido o único entre os 26 candidatos ao concurso do Plano Piloto a ler “de fato” o Relatório Cruls e o Relatório Belcher, os dos inventários da topografia deste lugar que nos protege. Daí, ter feito uma cidade que parece ter pousado pronta sobre um terreno igualmente pronto.

E se era para construir a nova capital de um país continental, singular e esperançoso, era preciso que ela fosse monumental. E essa envergadura já era uma característica intrínseca ao terreno.

(E como havia algo ainda mais monumental, Lucio Costa conteve o volume dos edifícios. Desse modo, inventou o céu de Brasília.)

Uma cidade para um chão e para um céu.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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