disq Brasília, a cidade que nos ensina, não sem desespero, a amar
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Os que aqui estavam quando a cidade foi construída aprenderam que o recém-chegado passava por três etapas na iniciação para se tornar um candango: o encantamento, o desespero e a loucura.

Não importava se vinham do Sudeste, origem de boa parte dos arquitetos, engenheiros, executivos e técnicos em geral; ou do Nordeste e Centro-Oeste, o peão de obra, as lavadeiras, as prostitutas. (Naquele tempo, eram raras as mulheres em funções especializadas). Não importava de que lado do Brasil eles vinham. A vastidão telúrica e cósmica abria um clarão no peito. Era céu demais, estrelas demais, nascentes e poentes afogueados, luas do tamanho do sol e uma Via Láctea que nos tirava do chão. (Eu não estava aqui, mas de algum modo estava).

Até o mais pragmático dos engenheiros por certo se deixava encantar. A percepção de que se estava inventando um novo modo de morar em cidade para um Brasil que se afirmava ao mundo, esse sentimento de construção coletiva arrebatava o candango noviço. Longe das famílias, eram livres como crianças e adolescentes em viagens escolares. Era o começo do mundo, extasiante e extenuante.

A rotina era árdua, a terra vermelha grudava na pele, o vento fustigava o corpo, o sol abrasador queimava o sangue, a chuva molhava os ossos. A família distante, o trabalho insano, as moradias desconfortáveis. A rotina de agruras logo diminuía o encanto, e o desespero do lado de fora ia para o lado de dentro. “Era uma prisão ao ar livre”, como escreveu Clarice.

Depois do encantamento e do desespero, a loucura. Era quando o candango se percebia apaixonado por Brasília, pelo barulho incessante dos martelos (pam-pam-pam, pam-pam-pam, como me disse uma vez uma japonesa que aqui chegou em 1957), pelas trilhas que mudavam de lugar da noite pro dia, pela cidade que acordava sempre outra.

Pronta, transferida e consolidada a capital, o modo de se apaixonar por Brasília mudou, já não se tem mais aquelas condições extremas. A cidade não se entrega facilmente. Não se deixa revelar, é avarenta, marrenta. Não facilita o amor.

Brasília não é como as outras. Há nela uma certa altivez de rainha, um coração que se esconde numa cartografia de emaranhados sentidos.

É preciso querer muito o amor. Mais do que querer, precisar do amor – deve ser muito difícil morar num lugar que se odeia ou que causa indiferença, o ódio gelado. Brasília foi feita para os desesperados, os que não têm mais onde se ancorar, para os que conseguem ver beleza numa casca grossa de árvore, num fiapo de flor, em estranhas fachadas de triste cimento.

Brasília não faz nenhuma questão de te conquistar. Não te oferece ruas estreitas, calçadas cordiais, gente por perto, sombras e banquinhos a esmo. Brasília não dá bom-dia e te olha de cima para baixo antes de decidir se você existe ou não. Brasília te joga aos leões.

Daniel Ferreira/Metrópoles

Os brasileiros que, por dever de ofício, vêm morar em Brasília se sentem estrangeiros na capital do seu país. É de se entender. Nada aqui se parece com nada que conste do registro afetivo brasileiro. Até mesmo a Esplanada, presença diária nos telejornais, é hoje uma imagem malvista. E monumental demais para caber num coração.

Para os que carecem de amor como quem necessita de água e de ar, é preciso paciência e coração aberto. Há que esquecer as paixões que ficaram para trás, a cidade natal, as cidades dos sonhos, e deixar que Brasília se aproxime.

Quando, do nada, você ficar feliz só de ver em algum ponto do Plano Piloto uma nesga do Lago Paranoá, ou adorar o frio na barriga ao passar debaixo do Eixão, ou tiver vontade de parar no Eixo Monumental para catar manga ou no Eixinho de baixo para fotografar um ipê florido ou largar tudo para ver o pôr do sol na Praça do Cruzeiro… é sinal de que já está enamorado da cidade. Se quiser tirar uma foto na parede das gaivotas do Athos na Igrejinha, ou levar uma canga e um isoporzinho para um piquenique no parque, pronto… está irremediavelmente entregue a essa cidade esquisita e apaixonante.



 


BrasíliaConceição Freitas