Saiba se você é candango, pioneiro, brasiliense ou nenhum deles

Numa cidade que nasceu num desenho em folha de papel-manteiga, não é fácil constituir uma identidade. Quem mora há muito tempo em Brasília não sabe exatamente quem é: se candango, pioneiro ou brasiliense. São definições ao gosto do freguês, mas há fundamentos históricos e simbólicos que podem ajudar cada um a se reconhecer numa das […]

Arquivo Público do DFArquivo Público do DF

atualizado 22/01/2019 16:52

Numa cidade que nasceu num desenho em folha de papel-manteiga, não é fácil constituir uma identidade. Quem mora há muito tempo em Brasília não sabe exatamente quem é: se candango, pioneiro ou brasiliense. São definições ao gosto do freguês, mas há fundamentos históricos e simbólicos que podem ajudar cada um a se reconhecer numa das três naturalidades de quem vive no quadradinho, ou em nenhuma delas.

Candango é, por definição de dicionário, aquele que pegou no pesado. Ou, no dizer do Houaiss, “designação dada aos operários das grandes obras de construção de Brasília”. A palavra tem origem no quimbundo, língua falada em boa parte África, Angola incluída. Os africanos chamavam de kangundu os invasores portugueses. Aos poucos, passou a designar uma pessoa ruim. Há quem diga que foi Juscelino quem deu esse apelido aos primeiros operários da construção. Não há esse registro nas memórias que ele escreveu. Em “Por que construí Brasília”, ele se refere aos candangos como sendo uma designação que já lhe chegou pronta.

Juscelino se lembrava de algo que havia lido numa revista sobre operários que construíam uma igreja num país qualquer. Indagado sobre o que estava fazendo, cada trabalhador descrevia seu ofício: estava assentando tijolos, ajeitando cantoneiras, pregando madeira. Até que o mais humilde deles, o servente de pedreiro, respondeu que estava construindo uma catedral.

“Em Brasília, o que eu desejava era transformar todos aqueles candangos em ‘construtores de catedral’. E, aos poucos, consegui. A cidade, que se erguia no Planalto, não era minha. Não era do governo. Nem mesmo do Brasil. Era a cidade do humilde operário.”

Um esperto, esse Juscelino.

Juscelino gostava da palavra “bandeirante”, inspirado na leitura de Bandeirantes e Pioneiros, de Vianna Moog. Daí, Núcleo Bandeirante. Mas essa era uma denominação destinada aos mais altos escalões na hierarquia do canteiro de obras. Do mesmo modo que a palavra “pioneiro”. “Bernardo Sayão era inquieto como qualquer bandeirante. Mas acusava o ânimo de permanência do pioneiro”, escreveu Juscelino pelas mãos de seu ghost-writer, Carlos Heitor Cony.

Candango era o peão de obra. Pioneiro eram os técnicos, os funcionários públicos, os engenheiros, os arquitetos. Candango era pioneiro, mas pioneiro não gostava de ser chamado de candango. No Campo da Esperança, há uma ala destinada aos pioneiros; nenhuma aos candangos.

Durante muito tempo, os dois gentílicos foram usados para designar aqueles que tinham vindo para Brasília nos primeiros tempos, com a segregação de sentido que se mantém até hoje. Candangos, os operários; pioneiros, os que não sujavam as mãos. Desde o começo, na vida e na morte, as palavras já designavam evidente separação de classes.

A palavra “pioneiro” envelheceu. A “candango” se renovou.

As novas gerações estão tirando do limbo – um limbo heroico – a acepção que os dicionários dão ao verbete “candango”. Há muita gente jovem que se considera candanga, embora seja brasiliense, nascida em Brasília. Anunciar-se candango é um modo de reverenciar os milhares que construíram a nova capital, os que foram espancados, presos e humilhados pelas forças policiais (a famigerada GEB, Guarda Especial de Brasília), os incontáveis que morreram nas obras.

Brasiliense é acepção mais recente. Pouco mais da metade dos moradores de Brasília é brasiliense de nascimento. E boa parte é brasiliense de coração. Pioneiros e candangos são brasilienses; e candangos são pioneiros, mas pioneiros não gostam de ser candangos. Não sei se deu pra entender.

E tem gente que não é nenhum dos três. São os que moram aqui contra a vontade. Em temporada de troca de governo e troca de partido. Esses são os forasteiros, os hóspedes (com auxílio-moradia) dos palácios e do circuito do poder.

Eles passam… e nós continuamos aqui, brasilienses, candangos e pioneiros, e quanto mais junto e misturado, melhor.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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