Desde a origem, o Setor Placa da Mercedes burlou a rigidez de Brasília

Lá, não se vendem placas de coisa nenhuma e muito menos caminhões e carros de luxo. Quando surgiu, vendia outra coisa, bem mais prazerosa

Conceição Freitas/MetrópolesConceição Freitas/Metrópoles

atualizado 13/05/2019 21:03

Quem desce a BR-060 em direção ao Plano passa pelo Riacho Fundo I e, ao se aproximar do Núcleo Bandeirante, vê uma placa de endereçamento: Setor Placa da Mercedes. Meu filho, brasiliense de nascimento, ironizou: aqui em Brasília tem até um setor que vende só placa de caminhões da Mercedes-Benz? Seria estapafúrdio, porém não de todo improvável. Ou seria lugar de moradia de todas as mulheres de nome Mercedes? Na cidade segmentação urbana obsessiva, não seria impossível. Mas não é.

Afinal, Brasília tem setores os mais esdrúxulos, até setor de cavalo, o Setor Hípico. Tem setor de garagem, de abastecimento, de polícia, de motéis, de oficinas, de recreação, de hospital, de autarquias, de bancos, de diversões, de cultura, de armazéns. Tem até o SPP, que vem a ser o Setor Palácio Presidencial, SPP, de fama duvidosa.

E tem outros que a cidade apelidou para dar um pouco de malemolência à rigidez cartesiana do urbanismo moderno: Setor Carnavalesco Sul, que muda de lugar de acordo com a vontade dos foliões; o Setor de Perfumes Norte, aquele conjunto horroroso de edifícios espelhados que, oficialmente, se chama Setor Hoteleiro Norte, mas também poderia se chamar Setor da Ostentação Norte ou Setor Miami Candanga Norte.

O Setor Placa da Mercedes é nome oficial. Faz parte do Núcleo Bandeirante. Vem de uma ocupação lúbrica nos tempos em que Brasília estava sendo construída. Era um ermo que antecedia a chegada à Cidade Livre para quem vinha de Goiânia, pelo fio de terra vermelha que viria a se chamar BR-060. O setor luxuriante em questão não vende placa do que quer que seja, nem caminhões nem carros de luxo. Não vende nem nunca vendeu.

É desobediente o Setor Placa da Mercedes, pois não reúne comércio de placa de carro, nem de placa-mãe de computador nem de celular, nem placa de endereço e menos ainda placa tectônica. Se não seguiu à risca a divisão do Plano Piloto em setores de distintos usos urbanos, é nitidamente um setor subversivo.

É o único setor de Brasília que tem o nome da história do lugar, do mesmo modo que Bixiga, bairro de São Paulo, vem de um matadouro do século 18 que vendia bexigas de boi, com as quais eram feitas as primeiras bolas de futebol. Há outras versões, menos aceitas para o topônimo, entre elas a de que no lugar havia uma chácara que abrigava portadores de varíola, também chamada bexiga. O Bixiga com i é por conta da pronúncia dos migrantes italianos que ocuparam o bairro.

A história do Setor Placa da Mercedes começou assim: uma das primeiras e mais importantes portas de entrada de Brasília, no início da construção da cidade, era a que vinha de Goiânia. Não havia, portanto, melhor lugar para que a Mercedes-Benz fincasse uma placa anunciando a potência de seus caminhões para atravessar o lamaçal, a buraqueira e o poeirão da estrada.

Era um lugar providencial para as trabalhadoras do sexo. (Pode-se também chamá-las por qualquer um dos 109 sinônimos que o Houaiss apresenta para o substantivo prostituta.)

Placa da Mercedes era o lugar mais famoso de Brasília. Todos sabiam onde ficava e o que ele oferecia. A cidade cresceu, as moças mudaram de ponto, a placa caiu, mas a cidade nunca deixou de chamar aquele fim do Núcleo Bandeirante de Placa da Mercedes. Até se transformar em nome oficial, Setor Placa da Mercedes, hoje um bairro que reúne empreendimentos beneficiados pelo programa Pró-DF e pequenos apartamentos e quitinetes nas sobrelojas.

E como tudo em Brasília termina em sigla, o inusitado setor é também o SPLM, que antes poderia significar algo como um Setor de Prazeres, Luxúrias e Malícias, mas é lugar de trabalho e moradia. O Setor de Motéis Sul fica a menos de 2 km.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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