É um acervo da memória brasiliense. Mas é também uma história de amor

O Arquivo Público do DF atiça o desejo de conhecimento de pesquisadores, jornalistas e artistas plásticos, entre muitos outros profissionais

Mário Fontenelle/Arquivo Público do DF

atualizado 28/03/2019 12:54

Um dos modos de se ganhar força para enfrentar esses dias terríveis é se alimentar do melhor que há em si mesmo. Vale para pessoas, para povos e para países. Um dos grandes feitos deste pobre país para se transformar numa nação de sólidos laços democráticos foi a construção da capital no coração do território para unir os brasis até então isolados uns dos outros.

Lugar onde a memória desses dias épicos surge em todo o seu esplendor e paixão, o Arquivo Público do Distrito Federal (ARPDF) vem sendo repetidamente desprezado pelos governantes, que dele se utilizam como moeda de pagamento pelos serviços prestados na campanha eleitoral.

O Arquivo Público atiça o desejo de conhecimento de pesquisadores, jornalistas, artistas plásticos, escritores, documentaristas, fotógrafos, estudantes tamanha a riqueza da documentação disponível para consulta. Estão lá, por exemplo:

. Conjunto de 540 fotos aéreas, de meados da década de 1950, que cristalizaram em imagens o que havia no quadrado antes de ele se transformar em Distrito Federal. Ou, como diz de modo mais rico e preciso, o historiador Elias Manoel da Silva: “É uma janela que permite aos historiadores e pesquisadores de diversos outros campos do conhecimento acessar com uma acuidade extraordinária um tempo que não nos pertence mais: campos, matas, agricultura, picadas, hidrografia, casas de fazenda… e uma infinidade de outros dados”.

. Milhares de fotos da construção, milhares. E, dentro delas, o precioso acervo do fotógrafo Mário Fontenelle.

. Centenas de cartas enviadas a Juscelino Kubitschek por brasileiros de todo o país. Há nelas pedidos dos mais diversos, a maioria deles por trabalho, lote e moradia.

. Dossiês das empreiteiras que construíram Brasília.

. Dezenas de filmes feitos no canteiro de obras desde os primeiros movimentos de terra, de candangos e de tratores.

. Originais da Sinfonia da Alvorada, com poema de Vinicius de Moraes e partitura de Tom Jobim.

. Documentos Goyaz, coleção de registros que foram produzidos antes da construção de Brasília. Cartografia, inventários, processos de fazendas, jornais, publicações sobre a pré-história do DF. Trinta acervos públicos e particulares cederam cópia de suas peças para o ARPDF.

. Depoimentos de 101 candangos, de arquitetos a peão de obra, de empreiteiro a lavadeira, sobre a construção da cidade. Entre eles, Lucio Costa e Oscar Niemeyer. É o Programa de História Oral, desenvolvido entre os anos 1980/1990.

. Toda a coleção da Revista Brasília, publicação da Novacap que registrou com imagens e textos toda a construção da capital.

. Diários de viagens da Missão Cruls, a Comissão Exploradora do Planalto Central que, em fins do século 19, trouxe cientistas de várias áreas do conhecimento para escanear miúda e intensamente, com a melhor tecnologia da época, a região onde se instalaria a nova capital do Brasil.

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Nesses diários, há uma desesperada história de amor registrada em seis cadernetas pelo engenheiro militar Hastimphilo de Moura, integrante da Missão Cruls. Hastimphilo mandava cartas do sertão goiano para a mulher amada, que morava no Rio de Janeiro. Os manuscritos saíam de Pirenópolis, Cidade de Goiás, Corumbá, Formosa e Planaltina, em lombo de boi, até chegar às mãos de Clarinda, ou Lilinda, como o marido a chamava.

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Quatro meses depois de se enfurnar no Planalto Central, Hastimphilo anotou: “Ultimamente muito tenho sofrido, porque quero ir para junto dela e não posso. É um verdadeiro desespero!”.

O engenheiro apaixonado adoeceu e teve medo de morrer. Louco de amor, pediu à amada: “Se conservares sempre vivo na imaginação o nosso amor, se não esqueceres o teu Timphinho, se fores fiel aos juramentos dados, se compreenderes bem a vida, poderás te conservar viúva e honesta e virtuosa a vida toda, e feliz, embora pobre.”

Com a saúde recuperada, mas morto de saudade, Hastimphilo quis abandonar a missão. Para acalmar o marido, Clarinda veio passar uns dias com ele no cerrado. Naquela época, não era uma viagem, era uma expedição de desbravamento. E ela só tinha 18 anos.

O acervo do Arquivo Público do DF é muito maior do que cabe numa só crônica. Fica aqui o registro daquilo que mais acelera meu coração brasiliense.

  • Crônica em solidariedade aos apaixonados, especializados e bem preparados servidores do Arquivo Público que protestam contra a nomeação de pessoal sem qualificação e sem conhecimento do acervo e do ofício de arquivista para cuidar e guardar deste bem tão valioso para a formação da cidadania brasiliense e brasileira.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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