No começo de Brasília tudo era de madeira, até o pecado

No começo, tudo era madeira. Como se o adobe, o tijolo e o cimento ainda não tivessem sido inventados

Edson BeúEdson Beú

atualizado 14/03/2019 20:20

Sempre que vai apresentar Brasília a arquitetos brasileiros e estrangeiros, Sylvia Ficher começa o percurso por um lugar inesperado: o Museu Vivo da Memória Candanga. Por que ela, professora de arquitetura da UnB, orientadora de mais de duas dezenas de teses de mestrado e doutorado sobre Brasília, começaria o roteiro na cidade por um conjunto de barracos de madeira que um dia abrigaram o HJKO? Agá-Jota-Ka-Ó era como os candangos chamavam o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, o Hospital de Base daquela época.

As casinhas coloridas de madeira são o ponto de partida da cidade de concreto e mármore. Foi da madeira que surgiu a arquitetura moderna brasiliense. A primeira obra de Oscar Niemeyer na nova capital foi um palácio de tábuas, o Catetinho, volume suspenso em pilotis com um avarandado genuinamente brasileiro. Pouco tempo depois, a Escola Júlia Kubitschek, nome da mãe de Juscelino, também tinha as pernas compridas e elegantes dos pilotis.

No começo, tudo era madeira. Os galpões da Novacap, as casas dos engenheiros, os acampamentos das empreiteiras, os barracos dos candangos, as igrejas, as escolas, os bares, os hotéis, tudo era de madeira. Como se o adobe, o tijolo e o cimento ainda não tivessem sido inventados.

Em pouquíssimo tempo, um extenso povoado de construções amadeiradas abriu-se num sertão goiano de casas de adobe dos séculos 18 e 19. As edificações mais distintas eram pintadas com cores fortes para se diferenciar da palidez da madeira nua dos barracos. Algumas igrejas, como a de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, na Vila Planalto, eram envernizadas. A igrejinha da Metropolitana, que tão poucos conhecem, foi pintada de um azul interiorano que até hoje é preservado.

As madeiras do começo de Brasília são a travessia do telúrico para o artificial. Seriam duas as Brasílias se as casas feitas de árvores fossem mantidas de pé. Arqueologia flutuante se contrapondo à arquitetura pétrea. Seriam os subúrbios coloridos da cidade-monumento. Seria, como no samba-enredo da Mangueira, “a história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar”.

Havia ajuntamentos de madeira velha compondo barracos, como na Vila Amaury, que o lago engoliu, e havia casas com tábuas e ripas, técnica muito usada no interior do Paraná e que hoje compõem o patrimônio tombado do estado. Por certo, mestres-carpinteiros vieram do Sul para erguer construções em madeira, mas não conheço registro da passagem desses candangos temporários.

Se a utopia tem um lugar de origem em mim, ela é em madeira. Tinha um andar e meio a casa de perna-de-pau que me criou – só um quarto em cima. E debaixo dela um porãozinho de menos de um metro de altura era o meu pilotis seminal, meu esconderijo de menina assustada numa vila de três casas e um armazém de secos e molhados.

Havia um aglomerado de casas que me dava tremores. Ficava no fim da rua, onde o Rio Guamá fazia a curva. Era o prostíbulo, zona de baixo meretrício, cabaré, bordel, casa da luz vermelha. É provável que no meu tempo e na minha cidade aquele lugar fosse chamado de puteiro, palavra que escondi no porão. Pelo jeito que os adultos ficavam quando tratavam daquele território inominado, a palavra podia sair andando sozinha e me levar a lugares dos quais eu poderia não voltar. Não conheço cidade mais excitante que a amazônica Belém.

Em Brasília, os puteiros dos candangos ficavam no final das avenidas paralelas do Núcleo Bandeirante. (Havia o puteiro do alto escalão, mas essa é outra história).

Menina criada na Cidade Livre, Antônia Samir Ribeiro se lembra de ver as moças bonitas, de vestido acinturado e bocas vermelhas, passando em direção à Placa da Mercedes, onde ficava uma das ZBMs da nova capital. (Hoje é um bairro, o Setor Placa das Mercedes).

A pouca madeira que sobrou na capital do concreto armado resiste heroicamente na Vila Planalto, no Museu Vivo, na Candanga, no Paranoá, no Catetinho.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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