Tive o que fui buscar, um país e um povo, na avenida, com a Mangueira

Quando vi o arco de Oscar Niemeyer, liguei meu coração do Rio a Brasília e me fiz ainda mais brasileira

DIEGO MARANHAO/AM PRESS & IMAGES/ESTADAO CONTEUDODIEGO MARANHAO/AM PRESS & IMAGES/ESTADAO CONTEUDO

atualizado 06/03/2019 22:26

Não sabia mais o que era a batida do meu coração, o que era o som retumbante da bateria, o que eram os versos do samba-enredo da Mangueira. Era o renascimento de meu país dentro de mim.

“Brasil, tira a poeira dos porões, ó, abre alas, pros teus heróis de barracões. Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões”. Mandei beijo pra Leci Brandão, ela lá no alto, eu aqui embaixo, as duas na avenida. (E ela retribuiu o beijo!)

O desfile toma tudo da gente, toma e devolve, devolve e toma, uma espiral que nos faz atravessar a avenida com o corpo e a alma entregue a tudo aquilo: o samba, a bateria, a escola, o público, as fantasias. Deixei de me ser para ser a Mangueira. Queria rir e queria chorar… mas alguma coisa me levou, sem choro nem riso, “pra história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar, na luta é que a gente se encontra”.

Como se tivesse, finalmente, encontrado a minha cosmogonia, “do sangue retinto pisado, atrás do herói emoldurado. Mulheres, tamoios, mulatos, eu quero um país que não está no retrato”.

Nos dias anteriores, enquanto decorava o samba, a 1.156 km da Sapucaí, fui entender “os versos que o livro abafou”. Fui saber por que, “Brasil, o teu nome é Dandara, e a tua cara é de cariri”.

Mulher de Zumbi, Dandara foi uma estrategista da resistência aos ataques a Palmares. Acredita-se que ela tenha influenciado Zumbi a romper com Ganga-Zumba, porque divergia do acordo com o governo português para que, em troca de alguma paz e alguma liberdade, o quilombo se comprometesse a entregar às forças policiais todos os escravos fugitivos que chegassem.

“E a tua cara”, Brasil, “é de cariri” por herança da resistência de várias etnias tapuias, entre os séculos 17 e 18, contra a tentativa portuguesa de lhes tomar as terras. Ficou conhecida como Guerra dos Bárbaros, porque era assim que o colonizador denominava os índios que compunham a Confederação dos Cariris, que lutou no Nordeste brasileiro durante 30 anos para ter direito ao que lhe pertencia muito antes de este lugar se chamar Brasil.

O fim da escravidão “não veio do céu, nem das mãos de Isabel”. Veio de muita luta, da qual participou um caboclo chamado Chico da Matilde, jangadeiro nascido em Canoa Quebrada, Aracati (CE), que comandou um movimento de resistência: ele e seus companheiros negaram-se a transportar da praia até os navios negreiros os escravos vendidos para senhores do Sul/Sudeste. Chico da Matilde passou, então, a ser conhecido como o Dragão do Mar. Por isso, “a liberdade é um dragão no mar de Aracati”.

Depois de cantar “os caboclos de julho”, que lutaram pela independência da Bahia (2 de julho é feriado por lá), e lembrar “quem foi de aço nos anos de chumbo”, a Sapucaí canta à capela: “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Canta uma, duas, três, quatro vezes, e a cada uma delas me sinto mais viva, mais forte, novamente brasileira.

Maria é Maria Felipa, baiana de Itaparica que participou das lutas pela independência da Bahia. Com outras mulheres, índias e índios, defendeu a costa da ilha contra a invasão portuguesa.

FABIO MOTTA/ESTADAO CONTEUDO

Luísa Mahins foi uma escrava que pagou pela própria alforria e virou quituteira em Salvador. Os meninos que compravam seus quitutes levavam, dentro dos doces, mensagens em árabe para os integrantes da Revolta dos Malês, negros de origem islâmica que lideraram um levante contra a escravidão em 1836.

Quando vi o arco de Oscar Niemeyer, liguei meu coração do Rio a Brasília e me fiz ainda mais brasileira. Na dispersão, quis muito dar um beijo numa negra de cabelos brancos, rosto vincado, miúda, andando bem devagar sob o peso da fantasia da Ala da Baianas. O desfile já havia acabado, mas ela ainda cantarolava de si pra si: “Brasil, meu nego, deixa eu te contar…”.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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