A hora chegou: vou desfilar numa escola do Rio

A moça me entrega a fantasia – era o que eu precisava. É negra nas cores, na estampa, nos badulaques, no adorno dos cabelos e no estandarte

JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOJOSE LUCENA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

atualizado 03/03/2019 9:22

Onde andará o meu país? Talvez, na terça de Carnaval, a Mangueira possa me dizer.

Finalmente, vou fazer o que espero há séculos: desfilar numa escola do Rio. A hora chegou: a Mangueira vai contar “a história que a história não conta”, do “sangue retinto pisado, atrás do herói emoldurado”, das Lecis, Jamelões, Marias, Mahins, Marielles, malês.

Quando escolhi a hospedagem no aplicativo, queria ficar perto do Sambódromo. Só que o destino mais uma vez brincou comigo, brincou pra mim: o quarto fica no Balança Mas Não Cai, prédio famoso, malvisto e com pilotis imensos. O edifício nem cai e nem é um antro de drogas e prostituição. É um prédio de classe média baixa que no Carnaval é ocupado por turistas brasileiros e de países vizinhos.

Descubro, feliz, que é exatamente onde a Mangueira vai se concentrar para o desfile. Nem vou precisar sair de casa para ir ao samba. O samba está aos meus pés e nos meus pés.

É um outro Rio o que me acolhe desta vez. Não mais o de Copacabana/Ipanema/Leblon. É o Rio antigo, do Saara, das igrejas barrocas, da Central do Brasil, do Largo da Carioca, o Rio retinto e pisado. O Rio negro, pobre, misturado, caótico, o Rio “dos heróis de barracões”, como canta a Mangueira neste Carnaval.

Procuro o meu país em cada pele preta que passa por mim (“na luta é que a gente se encontra”). Vejo uma negra de cabelos brancos, cabeça encurvada, saia até o tornozelo, se arrastando pelos paralelepípedos da Rua Luís de Camões. Traz numa das mãos dois elepês, um deles de Roberto Ribeiro, o de Todo Menino É um Rei.

Estamos em 2019, mas aquela mulher é do século 18 ou do 19, é uma dos 2 milhões de africanos que sobreviveram à travessia da África e aportaram no Rio, em três séculos de desterro de almas negras.

Entro no Real Gabinete Português de Leitura e levo um baita susto, tamanha a imponência e a beleza da arquitetura gótico-renascentista da biblioteca de três andares. A claraboia em estrutura de ferro é um esplendor! Machado de Assis presidiu as primeiras sessões da Academia Brasileira de Letras no mesmo chão em que piso nesse sofrido 1º de março de 2019.

Um Brasil que produziu um Machado, que ergueu uma arquitetura soberana e diversa como a do Rio, que inventou uma música para lavar a alma de um modo inteiramente nosso, o que houve com esse país?

Sei que a resposta está nas peles pretas que dividem comigo, neste Carnaval, a cidade mais linda do Brasil. Não importa o que tenha acontecido e o que venha a acontecer, o Rio continua lindo, mesmo feio; feliz, mesmo triste. Talvez não exatamente triste; entorpecido. Mas na rua, no mundo, na luta.

Chego à Cidade do Samba para pegar a fantasia em homenagem ao advogado e jornalista negro Luís Gama. Enquanto espero na porta do barracão da Mangueira, a moça negra de longas, volumosas e vermelhas tranças comenta com o preto que controla a entrada: “O cara me pediu um fraque G, que não dava nem na coxa dele. Tinha que ser 4G, é mole?”. O carioca fala como quem samba, requebrando na entonação e arrastando a língua no S.

A moça me entrega a fantasia – era tudo o que eu precisava de uma fantasia. É negra nas cores, na estampa, nos badulaques, no adorno dos cabelos e no estandarte.

O moço do táxi é branco. É Portela e não gosta da Mangueira, porque ela se acha – como a mulher dele, que é mangueirense ardorosa. Conta que já desfilou três vezes e que chorou: “Ninguém aguenta ouvir a bateria, é um troço que bate no coração, o que é aquilo?”. É um preto de pele branca que me diz pra ir no Bloco das Carmelitas, que sai em Santa Teresa. E me desaconselha a sair no Bola Preta. É tanta gente que não há lugar de entrada nem de saída. Fica-se preso na multidão. A ideia me agrada, mas não digo, para não desagradar o motorista tão gentil. Quem disse que carioca não é gentil?

Havia combinado com minha doce editora, Priscilla Borges, que iria ao último ensaio geral da Mangueira, na sexta à noite, mas meu coração me paralisou depois de ver a reação ignóbil dos que festejaram a morte do neto do Lula.

Onde andará o meu país?

Quem sabe, quando a terça de Carnaval estiver amanhecendo, a Mangueira possa me dizer.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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