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A boa vontade de músicos locais e o desejo de democratizar o acesso à cultura no Distrito Federal têm movimentado a capital. Munidos de pandeiro, tantã, cuica e cavaquinho, artistas promovem rodas de samba cada vez mais populares, endossadas por milhares de frequentadores.

Além da alegria e do amor por um dos ritmos representantes do DNA brasileiro, estão os sonhos de ressignificar os espaços públicos, valorizar as pratas da casa e apresentar aos mais jovens os grandes mestres do segmento. O Metrópoles selecionou as principais rodas de samba da cidade, desde as mais tradicionais, como o 7 na Roda e o Samba na Comunidade, até as novidades mais badaladas, a exemplo do Samba Urgente.

Confira:

7 na Roda — O Samba Tá Aí
Além de se apresentar às terças-feiras no Outro Calaf (Setor Bancário Sul), há 11 anos, o grupo 7 na Roda decidiu descentralizar os shows. Com o projeto O Samba Tá Aí, os artistas têm levado eventos gratuitos a cidades como Ceilândia, Gama e Sobradinho. O próximo concerto acontece no dia 21 de outubro, na Torre de TV. De lá, os instrumentistas seguem para Sobradinho, no dia 27, e fecham o circuito na Feira Permanente do Gama, em 4 de novembro.

Formado por Breno Alves (pandeiro e voz), Kadu Nascimento (tantã, surdo e voz), Vinícius de Oliveira (banjo e voz), Guto Martins (percussão), Pedro Molusco (cavaquinho), Jackson Delano (sopros) e Rodrigo Dantas (violão 7 cordas), o grupo vê nas rodas uma grande oportunidade de divulgar o repertório autoral dos músicos locais. “Além de formar novos públicos, o maior legado é o da resistência, de mostrar a força de Brasília no samba”, acredita Breno Alves.

De acordo com o vocalista, esse movimento de ocupação dos espaços públicos de Brasília tem sido uma tendência. “As pessoas não querem mais pagar entradas e nós temos nos reinventado. Estamos sempre buscando parcerias com os donos de bares. Muitos artistas passam o chapéu e as pessoas nem imaginam o quanto essa ajuda é importante para darmos continuidade ao nosso trabalho”, ressalta Breno.

 

 

Samba Urgente
Realizado de forma gratuita, o Samba Urgente vai para a sétima edição no próximo dia 20 de outubro, das 21h até “o sol raiar”. O evento não tem data fixa. Aliás, a ausência de um dia certeiro no calendário cria nos fãs, nas redes sociais, expectativa de quando será o próximo encontro. Com apenas oito meses de existência, a roda cativou os brasilienses e o que começou como um projeto despretensioso de amigos, atualmente recebe cerca de cinco mil pessoas, a cada edição, no Setor Comercial Sul.

“Não imaginávamos esse crescimento tão rápido quando começamos. Nos conhecemos há uns 14 anos e sempre tocamos juntos, queríamos abrir esses encontros para outras pessoas, mas sem perder a nossa essência de churrasco entre amigos. Acredito ser isso o que tem agradado”, conta Augusto Berto, um dos idealizadores da roda.

Para o sambista, o fato de acontecer no coração da cidade resulta na participação de frequentadores de outras regiões administrativas e, consequentemente, na diversificação do público. “Senhoras de 70 anos vêm, chegam no início e vão embora por volta da meia-noite, e os baladeiros estão sempre dispostos a ficar até o fim”, avalia Augusto. “Levar música instrumental, o chorinho, a pessoas que talvez nunca teriam contato [com esse gênero], e vê-las alucinando, é o mais gratificante”, conclui.

Samba na Comunidade
Disseminar a cultura do samba de raiz fora do Plano Piloto sempre foi o principal propósito de Negro Vatto e Michael Santos, idealizadores do Samba na Comunidade. A roda é realizada há quatro anos, nos terceiros sábados de todo mês, na Praça da Bíblia (Ceilândia). Indo para a 53ª edição, no dia 20 de outubro, das 16h às 23h, os músicos comemoram o sucesso do projeto, financiado, exclusivamente, com recursos dos próprios artistas e o apoio da comunidade.

“Aqui na periferia sempre houve uma carência muito grande de eventos desse estilo, e era pesado para as pessoas tirarem de R$ 30 a R$ 50 do orçamento e frequentarem os sambas do Plano”, lembra Negro Vatto.

Quebrada a barreira da distância, o músico diz ter rompido, também, a resistência ao estilo, visto que o hip-hop, o forró e o pagode sempre foram muito fortes na região. “Nós trouxemos Cartola, Noel Rosa, Adoniram Barbosa. No começo as pessoas estranhavam, depois, quando gostavam de uma música, perguntavam o nome do compositor e até pesquisavam por conta própria. Fazemos um resgate cultural”, pontua.

Samba do Banquinho
A vontade de tocar e ouvir o ritmo foi o gatilho para que Irlan Rezende e Sinvaldo Silva criassem o Samba do Banquinho. Na primeira vez, em 2013, 40 músicos e amigos se juntaram no Parque da Cidade, cada um levando seu instrumento e um banquinho — daí o nome. Cinco anos depois, a família aumentou e hoje chegam a comparecer 250 pessoas nas rodas, que ocorrem no terceiro domingo de cada mês.

Mesmo com o público maior, o princípio continua o mesmo. “As pessoas trazem bebidas, petiscos, lençóis e, claro, o banquinho. Sempre num clima de piquenique, na maior paz”, diz Irlan.

Segundo o instrumentista, o diferencial do Samba do Banquinho é a preocupação social. “Incentivamos os participantes a trazerem doações de roupas usadas ou alimentos perecíveis e entregamos às pessoas mais necessitadas”, destaca. A próxima edição acontecerá em 16 de dezembro, dias antes do Natal, em uma ação social de arrecadação de donativos.

Outros sambas
Realizada na Entrequadra 18/20 da Guariroba, o Samba da Guariba chega a sua 30ª edição neste sábado (13/10). Idealizada pelo músico Emerson Rodrigues, a festa não conta com banda fixa. “A nossa roda é aberta, todo mundo pode tocar e cantar junto, basta chegar. Por isso recebemos visitas de pessoas de todo o DF”, conta Emerson, que comanda o evento gratuito há mais de dois anos.

Com foco na atuação feminina no segmento, a cantora, compositora e instrumentista Kika Ribeiro criou o Samba da Mulher Bonita, realizado, todo domingo, das 18h às 23h, no restaurante San Bistrô (Cruzeiro). A roda gratuita também acontece a mais de dois anos e tem como base o empoderamento das mulheres em um ambiente dominado por homens. “Nas rodas, as mulheres ficam com o papel de intérpretes. Mas no Samba da Mulher Bonita valorizamos as compositoras e instrumentistas, ocupando, também, esses lugares”, afirma Cláudia Rodrigues, produtora.