Dois dias de Carnaval no Centro do Rio procurando humanidades

Passei dois dias, desde as 8h até o fim da tarde, nos blocos do Centro, sem ninguém conhecido

PAULO CARNEIRO/AM PRESS & IMAGES/ESTADÃO CONTEÚDOPAULO CARNEIRO/AM PRESS & IMAGES/ESTADÃO CONTEÚDO

atualizado 04/03/2019 17:17

Passei dois dias, desde as 8h até o fim da tarde, nos blocos de Carnaval do Centro do Rio, sem ninguém conhecido. Só a Maria Rita e a Leandra Leal, estrelas do Bola Preta, penduradas no carro de som. No asfalto, chorei de soluçar quando a filha cantou a música que a mãe dela nos ensinou a cantar, O bêbado e a equilibrista. Foi a única manifestação política no bloco, que completou 101 anos neste 2019.

É preto o Cordão do Bola Preta. É educado, é pacífico, é pobre e é hétero o Bola Preta. Vi muitos beijos na boca – entre um homem e uma mulher. Um deles, na saída do bloco, foi festejado e aplaudido. O que encorajou o rapaz a colocar as duas mãos na bunda da moça, mais aplausos, mais gritos. Há um quê de romantismo e ingenuidade que sobrevive às trevas.

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Foliãs no Bloco do Cordão do Bola Preta, Rio de Janeiro

Não vi nenhum beijo entre iguais, ao contrário dos Carnavais recentes em Brasília, onde só vejo namorados e namoradas de mesmo sexo. Talvez seja porque vivo no gueto Plano Piloto. Numa cidade de 12 milhões de habitantes, a diferença se dilui.

Misturada aos milhares, algumas vezes segurando a corda, me deixei levar como quem põe à prova a si mesma e o povo que somos, se é que somos. Há um risco evidente de explosão, de caos, e talvez por isso todo cuidado seja pouco. Nunca ouvi tantos “desculpe”, “com licença”, “obrigado”, em palavras e gestos. Há, por certo, um medo pairando sobre todos. Na imensa fila do banheiro, uma moça diz a outra: “Vamo furar”. E ouve: “Tá doida! Quer ser linchada?”.

No Brasil que se acredita corrupto, tive de insistir várias vezes para não receber o R$ 1 de troco (a latinha custava R$ 4).

Na Praça XV, “reduto dos pretos”, como diz um músico no palco, o Carnaval é de protesto, mas ainda assim nada retumbante. (Estamos em estado de choque. Quem já sofreu uma tragédia sabe que se demora um tempo para se conseguir ter noção do que nos aconteceu).

Conceição Freitas/Metrópoles
Na Praça XV, “reduto dos pretos”, como diz um músico no palco, o Carnaval é de protesto, mas ainda assim nada retumbante

Alguém no palco puxa o “Olê, olê, olá, Lula, Lula”, poucos acompanham. É bem mais potente a resposta ao “Bolsonaro, vai tomar no c…”, e maior ainda quando a palavra de ordem é contra o prefeito da cidade: “Beija ele, beija ela, só não beija a boca do Crivella!”.

No Boitatá fiz um amigo, um vendedor de cerveja, o Luciano. De repente, uma briga. Luciano empurrou o carrinho e diminuiu o espaço de um grupo de homens e mulheres. Um deles quis engrossar, um outro apareceu para aliviar a tensão, e tudo se acalmou. Foi aí que mais um Brasil se revelou diante de mim.

O apaziguador da briga se disse oficial da PM. Protestou quando no palco alguém exaltou os negros: “Isso é racismo!”. Perguntei se ele se achava branco ou preto. Ele hesitou cinco segundos e respondeu: “Branco”.

— E eu? Sou branca ou preta?

Ele olhou pra meus cabelos, olhou nos meus olhos, e respondeu como quem tem medo de me ofender:

— Você é preta.

— Sou e, pra mim, você também é.

Deu-se uma discussão sobre pretos, brancos e pardos. Coisa que não era comum no Brasil de algum tempo atrás. E num bloco de Carnaval!

Conceição Freitas/Metrópoles

(Me faz lembrar artigo publicado no Intercept, no qual Rosana Pinheiro-Machado demonstra, com muitos bons argumentos, que não só a extrema direita ganhou com as eleições. As lutas identitárias, de negros, mulheres, índios, LGBTs, saíram ganhando. Nunca foram tão presentes.)

O suposto oficial da PM à paisana continua o papo. Diz que “o maior inimigo da farda é a farda”, que no quartel é chamado de “Manteiga”, porque sempre tenta resolver as coisas de um modo menos violento. E dá um exemplo: numa ronda, prendeu 15 homens, 14 dos quais eram menores de 18 anos. A ordem era “mata, mata”. Manteiga disse que preferiu deixá-los com vida e avisou: “Cada vez que eu pegar um de vocês de novo, vou tirar um pedaço… um dedo, outro dedo”. E concluiu o relato: “Dez deles viraram lutadores”. E sorri, sorriso cabotino. “Desde criança, sou uma pessoa boa.”

É um Brasil assustador, mas é o que somos. E será só a partir dele, de dentro dele, que se vai conseguir sair desse estado de torpor em que estamos.

Ao meu lado, uma família negra vende cerveja: mãe, pai e dois filhinhos. O pai dá mamadeira para o bebê. Tento tirar uma foto, mas eles não deixam. Não importa a razão, fazem valer o direito de escolher se querem ser ou não fotografados.

No tempo em que passei junto ao meu amigo vendedor de cerveja, vi um suceder de rostos ausentes. Onde estavam aquelas pessoas? Queria ter visto muito mais beijos, amassos, encontros, muito mais felicidade. Vi muitas solidões. E alegrias desesperadas. É o Carnaval.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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