Pegue a estrada e vá conhecer a capital do art déco, Goiânia

A arquitetura moderna está para Brasília como o art déco está para Goiânia, um dos maiores sítios de arquitetura art déco do Brasil

Rejane Agra/Cedido para o MetrópolesRejane Agra/Cedido para o Metrópoles

atualizado 26/02/2019 7:25

Domingo é dia de cidade nua; é o melhor dia e modo de se apreciar a arquitetura e o urbanismo de um lugar. Na capital dos goianos, domingo é ainda mais domingo, dado o caos que é o trânsito por lá nos dias de semana.

Esqueça o sertanejo universitário, as caminhonetes Hilux e suas parentes próximas. Pegue a BR-060, passe pelo Núcleo Bandeirante, coma um pamonha no Jerivá e siga até um dos maiores, senão o maior sítio de arquitetura art déco do Brasil. Não apenas na arquitetura institucional, mas nas pequenas casas dos bairros antigos. Há delas que resistiram aos muros estilo penitenciária. Mantêm muretas decorativas como nos tempos idílicos não tão distantes.

Planejada duas décadas antes de Brasília, Goiânia também é filha dos princípios modernistas. Irradia-se a partir de um ponto seminal, a Praça Cívica, e tem um cruzamento de vias, das avenidas Anhanguera e Goiás.

A arquitetura moderna está para Brasília como o art déco está para Goiânia, embora a primeira abarque a segunda. O art déco foi um jeito de ser moderno com alguma bossa; moderno e sofisticado. Um modo de se diferenciar da arquitetura racionalista, tão econômica nas linhas. Era preciso ser moderno e exuberante; tecnológico, mas luxuoso.

O Lucio Costa de Goiânia se chama Atílio Corrêa Lima. Formado na França, voltou ao Brasil no começo da década de 1930 e trouxe no bolso o urbanismo moderno e o art déco. Toda a Praça Cívica, a Praça dos Três Poderes dos goianos, é em art déco. Arquitetura moderna coberta de glacê e confeitos. Formas geométricas, circulares, recortes na fachada, formas femininas estilizadas, tudo para tirar a insipidez da arquitetura moderna e diferenciá-la das edificações destinadas às classes trabalhadoras.

Era preciso ser moderno e chique.

São 22 as edificações art déco tombadas pelo (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em Goiânia. Entre elas, uma paisagem que fez parte de minha adolescência, a Estação Ferroviária. Ela faz contraponto com a Praça Cívica, do mesmo modo que a antiga Rodoferroviária de Brasília se opõe à Praça dos Três Poderes.

Antes de ser engolida pelo comércio de roupas, a Estação Ferroviária erguia-se solitária, indicando que ali terminava a cidade. Depois dela, a zona rural. Mas o tombamento a protegeu de vizinhança mais próxima e abusiva. Mesmo em reforma, ainda mantém as linhas graciosas, femininas, decorativas, tímidas – do jeitinho goiano.

As obras art déco de Goiânia são compactas, como se coubessem na mão de quem as observa. Estão numa escala que não nos distancia delas. É um corpo para outro corpo, sem a distância intimidadora de certa arquitetura monumental. É uma arquitetura que nos convida a se aproximar, a observar um a um os detalhes – como quando se está diante de uma arquitetura gótica, sem, é claro, os excessos excessivos do gótico.

Não são apenas a geografia e a concepção urbanística e arquitetônica que aproximam Brasília e Goiânia. Há na alma brasiliense, queira-se ou não, goste-se ou não, um cadinho de goianidade. Não fossem os goianos, dificilmente Juscelino teria tido peito e tempo para construir Brasília.

Não fossem os caipiras que se sentavam sobre as próprias pernas, acocorados, pitando cigarro de palha, assuntando a hora certa para se aproximar, não fossem eles, talvez não houvesse ninguém para dar início às obras da nova capital e com elas atrair os nordestinos. O mapa do Brasil não nos deixa mentir. Estamos rodeados de goianos por todos os lados. E goianos art déco, olha que chique!

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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