Bernardo Sayão, o engenheiro que era de verdade mas parecia encantado

Duas biografias contarão a história do carioca/candango que abria o coração de todos quantos o conheciam. Não fez fortuna; deixou um tesouro

Arquivo Léa SayãoArquivo Léa Sayão

atualizado 04/07/2019 9:59

Nenhum outro, nem Juscelino, deixou tantas alegrias no coração candango quanto o engenheiro Bernardo Sayão. Neste 2019, completam-se 60 anos de sua trágica morte: foi atingido por um galho gigante de árvore no meio da mata. O herói com jeito goiano e envergadura de estátua grega estava acampado numa das duas linhas de frente que se abriam, uma no Pará e outra em Goiás, para ligar em fio de asfalto o Norte ao Sul.

Neto de Sayão, o jornalista e professor universitário Sérgio de Sá prepara o que chama de um “perfil biográfico” do avô. Cauteloso, ele diz que não será uma biografia stricto sensu, tarefa que exigiria mais tempo de pesquisa e preocupação cronológica mais severa. Vai fazer um mix de reportagem e memórias, com imagens inéditas. Para abril do ano que vem, nos 60 anos de Brasília.

Há outra biografia sendo feita, esta há muito mais tempo. O escritor Ronaldo Costa Couto, biógrafo de Juscelino, diz que agora o livro sai.

Ninguém fica indiferente a Bernardo Sayão. O escritor John dos Passos (1896/1970) foi tomado pelos encantos de Sayão. Um dos grandes contistas e romancistas do século 20, neto de portugueses, Dos Passos visitou o Brasil em três ocasiões, em 1948, 1958 e 1962. Da primeira vez, estava ansioso para conhecer o engenheiro tão falado.

— Bernardo Sayão está na colônia agrícola?, foi a primeira coisa que Dos Passos perguntou quando chegou a Ceres, Goiás, onde o engenheiro construía a Colônia Agrícola.

O visitante estrangeiro teve de esperar um bocado. Sayão estava no meio do mundo, de jipe, acompanhando as obras da Marcha para o Oeste, programa de Getúlio Vargas para ocupar o Brasil profundo.

Em “O Brasil desperta”, memórias de suas viagens ao país, Dos Passos conta a primeira vez que viu Bernardo Sayão.

(…)

“Nisso, chegou um automóvel já bem usado. Uma linda moça estava sentada no banco da frente. O homem de rosto sadio e de camisa caqui que estava ao volante pouco mais velho parecia. Saltou do carro e pudemos ver que era um homem bem alto e de ombros largos. Mostrou num sorriso os dentes brancos e regulares e se encaminhou para nós. Havia no seu andar uma vigorosa agilidade. Era mais velho do que de longe parecera. Tinha uma porção de rugas em torno dos olhos. Na realidade, a linda moça era filha dele.”

O engenheiro parecia estropiado. Um feijão com farinha tinha caído mal. Pediu desculpas pela barba por fazer.

“Sayão estava falando com os seus homens. Dizia algumas palavras diretamente a cada um, num tom cordial, displicente e simples. De vez em quando, batia no braço de algum homem ou passava a mão pelos ombros dele. Quando voltou para o carro, vimos que era muito mais velho do que à primeira vista parecia. Devia ter mais de quarenta anos. Os olhos estavam injetados da viagem que fizera até tarde na véspera. Manobrou o carro negligentemente e tomou a estrada. Enquanto dirigia, voltava-se para nós no banco de trás para falar sobre a Colônia.”

Era assim, Bernardo Sayão. Sentia-se à vontade no mundo, especialmente se o mundo estivesse por ele sendo desbravado. Entrava nas casas porta adentro e ia parar na cozinha. Abria a panela e servia-se de um pedaço de galinha. Socorria doentes, dava e pegava carona, fazia ofícios em pedaços de papel no meio da rua, acordava os filhos cedinho para pegar a estrada e tomar banho de rio.

Arquivo Publico - DF

Pegue a Belém-Brasília e verás: Bernardo Sayão é nome de tudo, de cidade, de avenida, de escola, de praça, de hotel, de açougue, de borracharia.

O escritor Antônio Calado, autor de Quarup, assim descreveu o acidente que matou o herói de Belém, de Brasília e da Belém-Brasília:

“(Sayão) sentou-se um instante a uma mesa de campanha, examinando um mapa, à beira do picadão rasgado a fogo e bulldozer [trator de esteira]. Lá no topo de uma árvore de 40 metros de altura, abalada pelos estradeiros, um galho estalou imperceptivelmente. Pesado, sua extremidade ramalhuda agravou logo o esgarçamento das fibras e madeira, da casca, estalou um pouco mais alto no silêncio da floresta ainda mal desperta do meio-dia bruto – e caiu.”

Bernardo Sayão morreu menos de duas semanas antes do encontro das duas frentes de trabalho, a que vinha do Norte e a que vinha do Sul. Embora tivesse sido vice-governador de Goiás e fosse, quando de sua morte, diretor da Novacap, deixou a família desassistida de patrimônio financeiro. Deixou outro, muito mais precioso.

Sayão está na minha vida desde antes de eu existir. Meu pai atravessou a Belém-Brasília quando ela ainda era uma estrada de onça e lama. Passei minha infância, em Belém, numa rua que, com a morte do herói, passou a se chamar Avenida Bernardo Sayão. Meu pai morreu num acidente de carro bem próximo de onde o galho da árvore caiu sobre Sayão. E eu estava lá.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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