*
 
 

A casa mais importante da minha vida não era minha, nem nela morei. Era de madeira enegrecida pelo tempo. Tábuas grandes, de árvores igualmente monumentais. De uma água só, tinha um caimento que a deixava parecida com os chalés suíços, embora naquele tempo eu não pudesse fazer essa comparação. Nunca havia visto nem imagem de um chalé suíço.

Coberta de palha, suspensa do chão, era uma palafita em terreno seco. Tinha pernas compridas para se precaver de uma possível enchente do Rio Guamá, que passava ao largo.

A casa mais importante da minha infância era também a mais nua. Não havia móveis na sala, nada, nem um banquinho. Nos dois quartos, armadores de rede e caixas de madeira, onde se punham as roupas. Na cozinha, uma mesa, uma prateleira aberta como uma estante de livros e um jirau, pia feita de madeira. Não tinha geladeira, mas tinha fogão a gás. O banheiro era uma casinha do lado de fora, num quintal tão comprido e cheio de árvores que não dava para ver onde terminava. Na frente, um pé gigante de jenipapo.

Era uma casa silenciosa, como silenciosos eram seus moradores, seu Praxedes e dona Dica. Ele, um negro comprido e esquálido; ela, uma cabocla miúda, de cabelos pretos muito longos. Nunca os vi conversando entre si nem com os três filhos. Falavam pouco e ouviam muito.

Quando me faltava lugar em casa, corria para a casa torta. Ia quase todos os dias.

Era torta, a casa mais importante da minha vida. Por muito velha, ela havia tombado de um lado, como uma pobre Torre de Pisa belemense. Embora cambaleante, a casa me dava a segurança de que eu precisava. E a dona me concedia a atenção que eu buscava.

A porta da sala estava sempre aberta, tanto que não posso assegurar que ela existia. Eu ia direto para a cozinha, me sentava no banco de madeira e começava a falar de tudo e de nada. Só queria ser ouvida, mais que isso, só queria conferir que eu existia mesmo, me assegurar de que ocupava um lugar no tempo e no espaço.

Dona Dica nunca parava para me escutar, continuava a fazer o que estava fazendo, lavando louça, catando feijão, amassando alho, refogando o arroz, fritando peixe, varrendo o chão de tábua. Quase não sorria. Mas me olhava e de vez em quando murmurava alguma coisa, o suficiente para eu continuar falando. Não tinha muito a dizer, só queria tê-la ao meu lado.

Dona Dica morreu faz muitos anos. A filha me contou que ela estava sentada numa cadeira de balanço, logo depois do almoço, e tombou a cabeça de lado. Tinha ido embora.

Morreu com a mesma suavidade com que viveu. Nunca a ouvi reclamando, nem falando mal da vida alheia. Havia nela um excesso de humildade, como se pedisse licença pra ocupar o tempo e o espaço. Tínhamos em comum a suspeita de que não havia lugar pra nós duas neste mundo.

A casa mais importante da minha vida era a casa mais pobre da rua e, em um mês do ano, a mais dançarina, a mais colorida e festiva. Era lá, ao redor do pé de jenipapo, que as quadrilhas juninas se apresentavam nos dias de Santo Antônio, São Pedro, São João e São Marçal.

Uma noite, fugi de casa para ir ver as quadrilhas. Passei pelas pernas das pessoas que assistiam ao espetáculo e diante de mim surgiu a imagem mais extasiante que tinha visto até então: homens e mulheres de roupas muito coloridas, dando volteios ao som de “tem tanta fogueira, tem tanto balão”. Os rapazes tiravam o chapéu e faziam reverências para as meninas que mexiam e levantavam as saias de muitas camadas e muitas rendas.

Voltei para casa certa de que, quando eu crescesse, a vida seria colorida, eu vestiria muitas saias rendadas e dançaria para rapazes que se curvariam diante de mim.

*Essa crônica foi publicada originalmente na revista Roteiro, de abril de 2019. Pedi autorização ao Metrópoles para publicá-la neste espaço por ter gostado muito dela.



 


infânciaConceição Freitasbelémcrônicas