Quando e como surgiram as cidades que rodeiam o Plano Piloto

Cada uma das 30 RAs tem uma identidade própria e comemora, com muita festa, o aniversário. É um mundo paralelo ao do sítio tombado

atualizado 18/06/2019 15:34

O Plano Piloto nem se dá conta, mas as cidades-satélites têm vida própria, festas próprias, história própria, lendas e personagens que lhes dão identidade única. Se o 21 de abril é um dia de festa na maquete de Lucio Costa, o aniversário de cada uma das regiões administrativas é, em quase todas elas, a maior festa da cidade.

As satélites não são uma transmutação moderna dos bairros. Dentro delas há uma noção de pertencimento que se estabelece até pelo desprezo que o Plano Piloto lhes destina. É preciso ser a si mesmo com muito gosto e vontade, para suportar o outro que não nos vê, ainda mais quando o outro é o epicentro de um universo chamado Brasília.

A mais antiga das cidades brasilienses já existia há um século, pelas contas oficiais, quando a nova capital foi inaugurada. Planaltina fará, oficialmente, 160 anos no próximo 19 de agosto, mas ela já existia como Mestre d’Armas desde meados do século 18. Servia de passagem para bandeirantes em busca ouro e tropeiros que cruzavam o sertão goiano indo ou vindo de nordeste a sudeste levando e trazendo gado e preciosidades como o sal, que só o mar, a mais de 1,5 mil km, nos concede.

Brazlândia também já estava aqui quando os modernos chegaram. Como escreveu Vinicius de Moraes na Sinfonia da Alvorada: “Eram antigas solidões sem mágoa./O altiplano, o infinito descampado”. Brazlândia, que no começo se chamava Chapadinha, existe desde a primeira metade do século 20, quando duas famílias, uma mineira e uma goiana, se instalaram nas proximidades do ponto mais alto das redondezas, e das fazendas surgiu um povoado. Brazlândia é de 5 de junho de 1933.

Não demorou duas décadas e começaram a chegar os jipes, os caminhões e os aviões trazendo uma gente falante e entusiasmada para espanto dos cerratenses de pouca fala e muita cisma. Embora os primeiros aglomerados de barracas tenham surgido na Candangolândia e no Núcleo Bandeirante, a Fercal se diz mais antiga e fixou seu nascimento em 12 de setembro de 1956, dia em que Juscelino completava 54 anos.

Fercal, Candanga e Núcleo Bandeirante surgiram no emaranhado dos dias em que os modernos começaram a chegar ao quadradinho. Era o último trimestre de 1956, e Juscelino movia as peças de seu xadrez político para aprovar a lei que criou a Novacap, a empresa que construiria Brasília. Da Fercal, terreno rico em calcário, saíram as primeiras pedras que levantaram a nova capital.

A Candangolândia se vangloria de ser 28 dias mais velha que a Cidade Livre. A primeira é de 3 de novembro de 1956 e a segunda, de 19 de dezembro de 1956. Aquele pedaço de Cerrado cortado por córregos (que iriam abastecer o Lago Paranoá) e por matas ciliares abrigou os primeiros candangos.

No morro que contornava uma cachoeira volumosa, surgiria a sexta cidade brasiliense, a Vila Paranoá, em 25 de outubro de 1957, formada pelos operários que construíram a barragem que fez surgir o lago.

Eram atordoantes os acontecimentos nas antigas solidões. Em 5 de junho de 1958, pelo menos 5 mil retirantes da seca nordestina forçaram Juscelino a criar uma cidade-satélite, Taguatinga. Pouco mais de um ano depois, em 30 de novembro de 1959, nasceria a primeira cidade planejada do DF, o Cruzeiro, projeto de Lucio Costa. As casinhas brancas geminadas iriam abrigar os funcionários públicos cariocas que trocaram o mar pela morada própria.

Quase ao mesmo tempo em que Brasília era inaugurada, duas outras cidades-satélites planejadas brotaram nos arredores da borboleta de concreto. Uma delas, nasceu nas bordas de um chapadão, pendurada em ondulações de Cerrado, Sobradinho, em 13 de maio de 1960. A outra, o Gama, desdobra-se num altiplano de onde o mundo parece maior e mais luminoso. É de 12 de outubro de 1960.

Os lagos Sul e Norte surgiram das penínsulas formadas pelas águas do Paranoá. Os dois são de 1960. O primeiro é uma península desconcertada, descontínua. O segundo, uma península em forma de bota, que muito lembra o mapa da Itália.

Do projeto de Lucio Costa saiu o Setor de Mansões Park Way, conjunto de chácaras destinadas aos mais ricos e hoje parceladas e transformadas em condomínios. O Park Way é de 13 de março de 1961.

O Guará nasceu de um mutirão democrático, do qual participaram as famílias que depois receberiam as casas. Ele é de 5 de maio de 1969.

A Ceilândia é um susto. É a mais forte representação da força da gente sem moradia. Foi preciso abrir um clarão imenso no Cerrado para dar lote aos milhares de candangos que rodeavam o Plano Piloto. Ceilândia é de 27 de março de 1971.

Depois de Ceilândia, seguiu-se um período de aparente calmaria urbana.

Com a volta da democracia, Lucio Costa criou alguns aglomerados urbanos em torno do Plano Piloto, o Sudoeste/Octogonal é um deles. Embora a Octogonal tenha sido criada no final da década de 1970 e o Sudoeste, em 1993, as duas só viraram uma cidade em 2003. (O Noroeste não é uma cidade).

Seguiu-se então a era Roriz, a distribuição de lotes em troca de voto. De algum modo, foi uma revolução urbana. Em cinco anos, surgiram sete cidades: Samambaia, 25 de outubro de 1989; Santa Maria, 10 de fevereiro de 1990; Riacho Fundo I, 13 de março de 1990; São Sebastião, 25 de junho de 1993; Recanto das Emas, 28 de julho de 1993; Riacho Fundo II, 6 de maio de 1994, embora a data de desmembramento do Riacho I seja 2003.

Águas Claras, de 8 de abril de 1992, a única cidade inteiramente vertical do DF, veio para abrigar a classe média.

O Varjão existe desde a década de 1970, mas só virou cidade em 6 de maio de 2003. A região de terra úmida, em encosta de morro, começou a ser ocupada por pequenos agricultores e carroceiros que aproveitavam a proximidade com o bairro dos ricos, o Lago Norte.

Escondida entre montes de lixo, a Estrutural existia desde os anos 1960, mas só conseguiu ser uma região administrativa em 27 de janeiro de 2004. Dela faz parte a Cidade do Automóvel. Sobradinho se dividiu em duas e surgiu Sobradinho II, em 27 de janeiro de 2004.

Do irrefreável movimento da classe média por um lugar de morar, surgiram os condomínios e com eles a RA do Jardim Botânico, de 31 de agosto de 2004.

O Itapõa, de 3 de janeiro de 2005, foi mais um fenômeno que juntou o povo sem-teto aos grileiros sempre espertos.

O SIA, Setor de Indústria e Armazenamento, é uma estranha cidade onde quase ninguém mora, só trabalha. É de 3 de janeiro de 2005.

E, finalmente, a mais recente, a RA de Vicente Pires, uma confusa cidade nascida sobre áreas de proteção ambiental, antes uma colônia agrícola e hoje um território onde a natureza reage ferozmente a cada chuva. É de 26 de maio de 2008.

E Brasília é ainda mais que essas 31 cidades. Grudadas nelas, há uma outra Brasília, a goiana, dos municípios que vivem da riqueza brasiliense, região que mais cresce, em número de habitantes, em todo o país.

E quem dirá que Brasília não deu certo?

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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