Sol Nascente e Pôr-do-Sol: quem não tem Niemeyer, faz a própria utopia

Quando Ceilândia termina, começa uma outra Ceilândia que, como a primeira, só queria ter um lote e uma casa na capital do país

Luiz Eduardo Sarmento Araujo/DivulgaçãoLuiz Eduardo Sarmento Araujo/Divulgação

atualizado 24/05/2019 20:48

Sol Nascente e Pôr-do-Sol têm tanto em comum que, de longe, parecem ser um mesmo lugar ou uma a extensão da outra. Mas não são. Conhecidas como as duas maiores ocupações urbanas irregulares do país, são a utopia possível para os brasileiros que não tinham teto e nem foram aquinhoados com o Minha Casa Minha Vida. Utopia que eles mesmos inventaram – ocupando a foz de Ceilândia, a capital nordestina dos brasilienses, para ter um chão, quatro paredes e um telhado em um chapadão que desce em escarpas vertiginosas e inabitáveis.

Têm o Sol no nome, as duas. Porque nelas nada é maior que o céu ensolarado. É o firmamento como ele era quando Brasília chegou ao solitário cerrado. As casas, as pessoas, os cavalos, as carroças, os carros têm a escala das formigas diante da abóbada azul incandescente. É implacável o sol nas invasões-sóis. Não há um pé de árvore para aplacar a nudez de deserto.

E, por alguma razão que se desconhece, nasceram com os nomes trocados: o Sol Nascente fica a oeste de Ceilândia, portanto, no poente; e o Pôr-do-Sol, a leste, no nascente. O arquiteto Luiz Sarmento, que tem as duas cidades na palma da mão, diz que o pôr-do-sol no Sol Nascente é mais bonito que no Pôr-do-Sol.

Quem mora no Plano e ouve falar “das duas maiores favelas da América Latina” imagina uma paisagem apocalíptica. É um lugar de chão pedregoso, algum asfalto, casas rebocadas e sem reboco, ruas estreitas e vazias, e tão silenciosa quanto qualquer outra de Brasília.

O Pôr-do-Sol e o Sol Nascente são a pré-história rediviva de Ceilândia. Quando surgiu, no começo dos anos 1970, Ceilândia mereceu um poema de Carlos Drummond de Andrade, dada a imensidão de sua miséria:

“A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia
contemplam-se. Qual delas falará
primeiro? Que tem a dizer ou a esconder
uma em face da outra? Que mágoas, que ressentimentos
prestes a saltar da goela coletiva
e não se exprimem? Por que Ceilândia fere
o majestoso orgulho da flórea capital?
Por que Brasília resplandece
ante a pobreza exposta dos barracos
de Ceilândia,
filhos da majestade de Brasília?
E pensam-se, reuniram-se em silêncio
as gêmeas criações do bom brasileiro.”

Quase meio século depois, a esqualidez brasileira transbordou da Ceilândia original, uma cidade hoje inteiramente urbanizada, para uma outra Ceilândia numa inesgotável paisagem urbana que os novos candangos inventam para ter um lugar de morar.

É uma outra Brasília dentro de Brasília. No maior supermercado das duas cidades, o açougue é gigante, a costela, a carne de pescoço e o bucho custam R$ 10 o kg, e o mocotó, R$ 5. A sidra, R$ 5, e o São João da Barra, R$ 14. A cerveja de latinha, R$ 1,89 (e não é a piriguete, é a de 350 ml). Na entrada do Sol Nascente, em frente ao terminal do PSul, tem pé de galinha a quilo! (R$ 5,49).

Os dois Sóis inventam condomínios. Quase todos têm duas ruas curtas e paralelas, como as vilas das antigas cidades, só que fechadas ao fundo e com um portão de entrada e saída.

O contraste de que fala Drummond entre a suntuosa Brasília e a esquálida Ceilândia denuncia o caráter elitista da arquitetura e do urbanismo desde sua origem. De algum tempo para cá, porém, arquitetos e urbanistas estão acordando para o real da vida e se dedicando a lugares onde moram os sem-arquiteto e os sem-urbanista.

Um grupo de brasilienses dessa linhagem, vinculados à Codhab (Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF), levou assistência técnica às duas comunidades. Em um ano e meio, entre 2015 e 2017, foram feitos 32 mutirões para melhoria das condições urbanas do Sol Nascente. À entrada do Pôr-do-Sol dois contêineres funcionam como posto avançado da Codhab. Numa comparação caricata, é como se Niemeyer tivesse montado um escritório no fim da Ceilândia.

Segue um roteiro para quem, eventualmente, quiser conhecer as duas cidades que tem o nome do Sol: Pegue a EPTG e vá embora, atravesse o Guará, Vicente Pires, Águas Claras, Taguatinga, Ceilândia e, quando a pista acabar numa bifurcação, estará no Pôr-do-Sol. Ou vire à esquerda, percorra uns quatro quilômetros e estará no Sol Nascente.

É o Brasil real, que não morde e resiste. E que deve se desmembrar de Ceilândia e se transformar numa cidade-satélite ou Região Administrativa, como prefere a burocracia. Elas têm o Sol no nome, é o que mais importa.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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