A igrejinha azul de Lucio Costa que a crônica dedica a Rhuan

O urbanista deixou o projeto de uma igreja caiada de branco com caixilhos de vidro cor de anil. Bela, moderna e colonial

atualizado 16/06/2019 12:50

Sabe aquelas aparições que te tomam por inteiro, aquele alumbramento diante de uma obra de arte ou de uma força da natureza? Foi o que aconteceu quando vi os croquis (apenas croquis!) de uma igrejinha de Lucio Costa que nunca foi construída – e só então entendi por que os arquitetos dão igual importância a projetos executados e aos que não saíram do desenho.

Seria uma igreja colonial, com a simplicidade comovente do período, mas é moderna. É colonial e moderna ao mesmo tempo, sem nenhum risco fora de lugar. Como se ele tivesse conseguido, com um projeto, escrever em concreto e vidro o que articulava em palavras desde que largou a arquitetura eclética para buscar no começo do Brasil a singularidade da arquitetura moderna brasileira.

A igrejinha sem nome faz parte do projeto de vila operária de Monlevade, apresentado (e não aprovado) em concurso de uma companhia siderúrgica belgo-mineira em 1934. Como nos demais prédios, as paredes da igreja de concreto não teriam nenhum revestimento – seriam apenas caiadas de branco, num efeito rústico, interiorano, do Brasil do primeiro século.

O espanto – aquele de que fala Oscar Niemeyer – está nos cobogós que ocupam a única torre e as duas fachadas laterais e o altar. Um templo dedicado aos caixilhos de cimento que a arquitetura moderna trouxe dos muxarabis da arquitetura árabe. O ver-sem-ser-visto dos avarandados do período colonial.

A igrejinha operária de Lucio Costa teria caixilhos de 0,30 cm x 0,30 cm, revestidos com vidros que “poderiam ser de cor azul para fazer contraste com as paredes caiadas de branco”. Os vidros cor de anil seriam fixos ou em lâminas, tal qual venezianas. Desse modo, criaria “uma certa atmosfera de recolhimento – aconselhável nesse gênero de edifícios”. Teria três naves delimitadas com pilotis.

Na vila operária de Lucio Costa, a igreja ficaria numa praça central, ao lado do cinema e em frente ao armazém. O arquiteto reservou ao encontro com a fé o lugar mais alto do terreno acidentado. Um pátio externo rodearia o pequeno templo azul e branco ao qual se teria acesso por uma escadaria levemente circular.

Igrejas modernas não são exatamente um lugar de recolhimento – a Catedral de Brasília, com todo o seu esplendor de vitrais, é um ambiente devassado pela luz, mais apropriado para uma casa de festas ou um centro cultural do que para as celebrações de crença e louvor a Deus.

Lucio Costa soube recolher-se em delicado louvor arquitetônico colonial, brasileiro e moderno e nos deixou uma obra de arte em forma de igreja.

Essa crônica sobre beleza, simplicidade e fé é dedicada a Rhuan, o menino de Samambaia. Gostaria de ter escrito mais sobre ele, mas não encontrei forças para lidar com tamanha crueldade. Rhuan já é um anjo como aqueles que vivem nas igrejas e nos céus.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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